sábado, 13 de dezembro de 2014

Nota de falecimento: Mãe Irenea Sowzer

Foto retirada do Livro Mulheres de Axé

É com grande pesar que o Coletivo de Entidades Negras informa a todos e a todas sobre o falecimento da matriarca da família Bambogsè, Irenea Sowzer. Iniciada por Mãe Aninha, Mãe Irenea leva consigo parte da memória do povo de Santo, memória da qual figurou capítulos importantes da nossa história de luta e afirmação em prol da sobrevivência das religiões de matriz africana no Brasil. O povo brasileiro é tributário da história de vida dessa mulher negra que teve os passos de sua vida dedicados ao povo de Santo da Bahia e de todo o país.
No alto dos seus 94 anos de idade, com toda a lucidez própria dos filhos de Xangô, Irinea sempre tinha uma palavra de conforto e aconselhamento para os que buscavam suas palavras de sabedoria, algo que fazia por caridade e amor a Orixá. Os Orixás e os ancestrais estão em festa para receber a sua dileta filha, que agora junto a outras Iyás faz parte do panteão de ancestrais da nossa memória.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Nota sobre a Campanha “Racismo faz mal à saúde”

Nós, do Coletivo de Entidades Negras, somos conscientes das crises de infraestrutura e da escassez de recursos relacionados à área da sáude pública no Brasil, assim como a falta de materiais, vagas, profissionais e dificuldades na formação inicial destes. Tudo isso contribui para a precarização do serviço público de saúde.
Sabemos, também, que esta precariedade não é experimentada por toda a população usuária do SUS da mesma maneira. As pessoas negras sofrem, em função destas ausências, de maneira muito mais intensa, sobretudo em função do racismo que é imperante em nosso país.
A necessidade de estratégias de enfrentamento ao racismo nas instituições públicas de saúde é fundamental para que possamos fazer frente aos indicadores que mostram que, em qualquer situação, a população negra é pior atendida em qualquer serviço público brasileiro.
Diante deste contexto, percebemos a importância da Campanha “Racismo faz mal à saúde” lançada pelo Ministério da Saúde na terça feira, dia 25 de novembro e a apoiamos. É fundamental que o SUS tenha mecanismos de denúncia de casos de racismo e que se incentive a população a fazer chegar aos órgãos competentes os casos de racismo, que muitas vezes são ocultados, silenciados.
Trazer a público os casos de racismo presentes nas unidades de saúde pode ser uma ferramenta útil na apuração de tais casos e, também, na criação de estratégias de enfrentamento do racismo individual ou institucional.
Ao mesmo tempo, repudiamos a nota publicada pelo Conselho Federal de Medicina, no dia 27 de novembro, que acusa a campanha por seu suposto “tom racista” e que “desconsidera os problemas estruturais de atendimento que afetam toda a população”. Embora a nota afirme que os médicos “são contra qualquer tipo de preconceito” e que o código de ética médica determine que “as pessoas não sejam discriminadas por nenhuma razão vinculada à herança genética, protegendo-as em sua dignidade, identidade e integridade”, o referido Conselho parece ignorar que os tais “problemas estruturais” afetam a população negra de modo muito mais contundente exatamente em função do racismo que nossa sociedade insiste em camuflar.
Todo e qualquer mecanismo de denúncia do racismo é bem vindo. O que não se pode admitir é que em um contexto em que o racismo – sobretudo o institucional – opera de modo a ser um elemento do processo de adoecimento, que uma campanha seja rechaçada em função de outros argumentos que, apesar de verdadeiros, não são precisos ao não notar que a população negra é, ainda, a maior vítima desta precariedade e, também, de práticas discriminatórias que ocorrem no interior as unidades de atendimento de saúde.
Não podemos mais tolerar o silêncio em torno do racismo!

Coletivo de Entidades Negras
CEN

CEN Brasil indica: Uma Lição de Vida


Uma Lição de Vida

Coprodução entre EUA, Quênia e Reino Unido, e dirigido por Justin Chadwick (Mandela: O Caminho para a Liberdade), Uma Lição de Vida promete emocionar com história verídica.

Num vilarejo do Quênia, Maruge (Oliver Litondo) ouve no rádio o anúncio da educação gratuita para todos. Não tendo tido oportunidade de estudar no passado, o senhor de 84 anos – um veterano da tribo Mau Mau que lutou para libertar o Quênia dos ingleses –  bate à porta da escola primária e espera uma chance de poder aprender a ler. Rejeitado de início, Maruge não desiste: já de uniforme escolar e uma pequena bolsa a tiracolo, volta a pedir por uma vaga e insiste até ser aceito pela professora Jane (Naomie Harris). Em meio a lembranças do doloroso passado, Maruge tem de enfrentar a revolta e as ameaças das autoridades, dos moradores da região e dos pais dos alunos, inconformados por um idoso ter sido aceito em uma classe de crianças de seis anos de idade.


Uma Lição de Vida”: história verídica sobre a força da educação e o cruel passado colonial do Quênia


A despeito da péssima escolha do título em português – seria mais interessante um que se aproximasse do original, The First Grader –, o longa nos brinda com uma trama de superação que, para nosso alívio, está bem distante da fórmula “autoajuda para assistir”.


Poster do filme "Uma Lição de Vida"
Muito poderia ser dito acerca das belezas deste filme. Seja com relação à trama ela mesma, tocante sem jamais escorregar no sentimentalismo piegas; ou então sobre os belíssimos planos fechados, capazes de causas sensações as mais diversas e que exprimem mais que palavras. Prefiro, no entanto, dar ênfase à força dos personagens e à entrega dos atores, aspectos capazes de arrepiar o espectador. Os protagonistas – o idoso Maruge e a professora Jane – colocam a determinação como base para se operar mudanças e apontam a educação como a ferramenta principal para isso.

Através de flashbacks bem situados, adentramos o passado de Maruge e somos confrontados com a chocante realidade da luta pela liberdade da ex-colônia britânica. A crueldade extrema e as condições mais desumanas foi o que Maruge encontrou nos campos de detenção na década de 50, após ter tido sua esposa e filhos cruelmente assassinados. Veio a liberdade para o Quênia, a vida continuou. O passado, porém, nunca foi de todo extinto e permanece como uma ferida que dói, além de uma dívida histórica.

Uma Lição de Vida é a história de uma luta que atravessa gerações. A luta de Maronge para superar seu passado, ir à escola e aprender a ler; a luta de Jane pelo amor à educação; a luta diária das crianças em face das condições precárias da escola, em que cinco alunos dividem uma carteira e tantos outros estudam sentados no chão. Mas também, trata-se de uma inspiradora história de conquista, portadora de uma verdade incontestável: “o aprendizado só termina quando tivermos terra nos ouvidos”.

Por Aline T.K.M.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Anistia Internacional faz campanha por quilombolas do Maranhão

Isabela Vieira – Repórter da Agência Brasil

O envio de manifestações individuais a autoridades é a aposta da campanha “Maratona de cartas: escreva por direitos”, da organização não governamental Anistia Internacional. Até o próximo sábado (13), a entidade recebe adesões que vão se transformar em pedidos de providências ao governo brasileiro e a autoridades na Índia, na Noruega, na Venezuela e nos Estados Unidos.
No Brasil, a campanha trata de dois casos: a regularização fundiária da comunidade quilombola do Charco, no interior do Maranhão, e do fotógrafo Sergio Silva, que ficou cego depois de ser ferido por uma bala de borracha disparada por policial militar, em São Paulo.
Desde 2010, a comunidade remanescente de quilombo sofre ameaças e intimidações por não pagar mais taxas ao pretenso proprietário da área em que moram. Naquele ano, as ameaças se concretizaram no assassinato do líder Flaviano Pinto Neto. Segundo a Anistia Internacional, sem a titulação, os quilombolas do Charco – cerca de 130 famílias – vivem em vulnerabilidade.
“Inseguros quanto à permanência no local e sofrendo ameaças, eles não podem investir muito no plantio, pois temem ser atacados ou despejados a qualquer momento”, diz a campanha. A situação da comunidade está para ser definida pela Casa Civil da Presidência da República. A comunidade cumpre todos os requisitos para a regularização, que é garantia constitucional.
No caso do fotógrafo Sergio, as cartas serão encaminhadas ao governo do estado de São Paulo para que seja aberta investigação “imparcial e célere” sobre a lesão que tirou sua visão e a capacidade de fotografar. Como forma de reparação, a Anistia Internacional também estimula cartas com pedido de indenização por danos morais e materiais. O fotógrafo ficou cego de um olho depois de ser atingido por um policial, enquanto cobria um protesto no centro da capital paulista.
A Anistia também quer que seja regulamentado o uso de armas menos letais em São Paulo, para impedir que casos semelhantes tornem a ocorrer. Procurado, o governo do estado não informou quais medidas serão tomadas para atender as reivindicações e indenizar o fotógrafo.
Na Venezuela, a Anistia pede o esclarecimento da agressão sofrida por Daniel Quintero. Segundo a organização, o jovem, de 21 anos, foi brutalmente espancado e ameaçado de estupro pela Guarda Nacional, depois de deixar uma manifestação.
“O caso de Daniel é um exemplo de violação do direito à manifestação, ao mesmo tempo que o caso do fotógrafo Sergio Silva, é um alerta para os excessos da polícia durante protestos”, destacou a assessora de Direitos Humanos da anistia, Jandira Queiroz.
A campanha, que já recebeu 5,5 mil adesões no Brasil, reivindica também a libertação de Chelsea Manning, ex-militar norte-americana que cumpre sentença por vazar material confidencial do governo daquele país; solicita  indenização para as vítimas de Bhopal, na região central da Índia, onde um acidente químico matou 20 mil; e cobra que a Noruega aceite mudança de informações sobre gênero nos documentos pessoais de transgêneros.
Além desses casos, a Anistia Internacional recebeu em torno de 400 denúncias sobre diferentes formas de desrespeito a direitos humanos.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Manifestantes picham fachada da TV Globo durante protesto

São Paulo - Manifestantes realizaram um protesto em frente a sede da TV Globo, em São Paulo nesta terça-feira, contra o seriado "Sexo e as Negas", que estreou esta semana na emissora. Durante o ato, uma manifestante que tinha o rosto coberto pichou a palavra "racista" na fachada do prédio. 


Durante o protesto, o grupo composto em sua maioria por mulheres, gritava palavras de ordem entre elas a frase, "Pro racismo acabar, a Globo vamos escrachar. E se as pretas se unir, 'Sexo e as Negas' vai cair".
Em resposta, a TV Globo afirmou ao jornal Folha de São Paulo que este foi "um ato isolado de um grupo de 60 manifestantes e que naquele momento não tinha conhecimento do conteúdo da obra". 




terça-feira, 26 de agosto de 2014

Livro ‘Mulheres de Axé’ é lançado em inglês em galeria de Nova York


O livro “Mulheres de Axé” será lançado nesta quarta-feira (27), em Nova Iorque, Estados Unidos, com tradução para o inglês. O lançamento faz parte da agenda do Coletivo de Entidades Negras (CEN), que também conta com exibição de documentário e apresentação do afoxé Filhas de Gandhy. A referida publicação, organizada pelo baiano Marcos Rezende, conta a história de mais de 200 ialorixás de Salvador, Região Metropolitana e Recôncavo Baiano. Promovido pelo senador Bill Perkins, pela artista brasileira Silvana Magda e com apoio institucional do Instituto Caribenho da Diáspora Africana e do jornal The Brasilians, o lançamento acontece das 18h30 as 20h30, no segundo andar da galeria The New York Office States Building. Já no sábado, 30, acontece uma exposição com indumentárias tradicionais das ialorixás e dos Orixás. No mesmo evento, será lançado o documentário “Mulheres de Axé”, registro audiovisual do livro.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Atos contra o Mundial têm pouca participação


Em 17 de junho de 2013, cerca de cinco mil pessoas foram à região do Iguatemi, em apoio aos protestos contra o aumento da tarifa do metrô em São Paulo. Em 12 de junho de 2014, cerca de 80 pessoas foram ao mesmo local, em manifestação contra a realização da Copa do Mundo.



O poeta Pareta Calderasch, responsável por convocar a reunião que deflagrou a primeira manifestação em Salvador, avalia que um dos elementos causadores do esvaziamento dos protestos foi "o desvirtuamento da pauta".

Para Calderasch, o transporte foi deixado de lado, em prol de protestos anti-Copa. "Desviaram os protestos, votando a favor de manifestações na direção da Fonte Nova, quando não era essa a intenção", afirma.

Já o representante do Comitê Popular da Copa na Bahia, Argemiro Almeida, lista a paixão pelo futebol e a repressão policial aos atos como fatores responsáveis pelo afastamento. Para Almeida, representante da principal entidade das manifestações deste ano, não houve um abandono da questão da mobilidade urbana.

"Eu sou testemunha de que as pautas de mobilidade urbana foram postas nos protestos, que a defesa do direito à cidade foi veemente defendido", defendeu o ativista.

Pautas

O sociólogo Walter Takemoto, nome de destaque do Movimento Passe Livre Salvador (MPL), que puxou os protestos do ano passado, acredita que o esvaziamento das ruas acontece "porque a bandeira anti-Copa não é popular", diferentemente da do transporte público, "que era uma pauta unificadora".

Ainda assim, Takemoto considera que os protestos mais fortes de 2014, feitos durante greves, "são mais maduros e debatem as questões com mais qualidade".

De acordo com o historiador Marcos Rezende, coordenador nacional do Coletivo de Entidades Negras (CEN), as disputas políticas do movimento de 2013 também pesaram para o esvaziamento.

Neste período, o MPL teve três grupos dissidentes: Coletivo Tarifa Zero (CTZ), União Independente pelo Passe Livre e Resistência MPL.

"Este ano houve uma radicalização negativa, de virulência e rastreamento de pensamento pró-governo", disse Rezende, reafirmando que as pautas foram desviadas.

"Respeitamos as entidades que estão nas ruas, mas nunca lutamos contra a Copa. Esta pauta é perene, ao contrário das históricas defendidas no ano passado", disse ele , citando luta indígena, extermínio da juventude negra, combate à homofobia e o debate sobre reforma política.

Fonte: http://www.atarde.uol.com.br/bahia/salvador/noticias/atos-contra-o-mundial-tem-pouca-participacao-1601632

terça-feira, 10 de junho de 2014

Grupo discutirá propostas de combate à intolerância religiosa

Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e representantes de religiões de matriz africana se reuniram nesta terça-feira (10)

Brasília, 10/6/14 – O Ministério da Justiça anunciou, na tarde desta terça-feira (10), a proposta de criar um grupo de trabalho com o objetivo de debater ações de enfrentamento à discriminação e à violência contra praticantes de religiões de matriz africana.
 A decisão foi anunciada em Brasília durante um encontro do ministro José Eduardo Cardozo com 25 praticantes da Umbanda e do Candomblé dos estados de Goiás, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo e do Distrito Federal.  Na avaliação do ministro da Justiça, a articulação, focada em segurança pública, deverá envolver também outros setores do governo federal e representantes dos cultos nas cinco regiões do Brasil.
"O Ministério da Justiça dará total apoio a qualquer iniciativa que busque enfrentar esse problema, que, para mim, é inaceitável no século XXI", disse o ministro Cardozo, ao se referir a qualquer ato de violência praticada conta esses grupos específicos.
O debate na Pasta terá coordenação do secretário-executivo, Marivaldo Pereira, da secretária Nacional de Segurança Pública, Regina Miki, e do secretário de Assuntos Legislativos, Gabriel Carvalho. "Vamos receber dos representantes das religiões sugestões para o debate e discutiremos os encaminhamentos a serem tomados", acrescentou a secretária Regina.
Entre as ações previstas está a realização de cursos para agentes públicos sobre intolerância religiosa, a sistematização no país de registros de agressão e desrespeito ao direito de credo, além da criação de unidades de polícia especializadas em igualdade racial e religiosa.
Allan de Carvalho
Fotos: Isaac Amorim

Liberdade de expressão ou discurso de ódio?

Integrantes da Umbanda e do Candomblé protestam em Brasília contra decisão judicial que negou pedido de retirada de vídeos com mensagem de intolerância religiosa do YouTube
Por Ana Cláudia Mielki*

Religiosos/as do Candomblé e da Umbanda ocupam Brasília hoje para exigir respeito e tratamento digno às religiões de matriz africana. Vindos de várias regiões do País, o grupo denuncia a sistemática violação do direito de crença e liberdade das minorias religiosas.
A mobilização foi motivada pelo repúdio à decisão do juiz titular da 17.ª Vara Federal do Rio de Janeiro, Eugênio Rosa de Araújo, que negou o pedido de retirada de vídeos do YouTube com mensagens de intolerância contra religiões afro-brasileiras. Um dos vários episódios recentes trouxe à tona a discussão sobre o direito à liberdade de expressão.
Ao negar pedido do Ministério Público Federal (MPF) para que fossem excluídos vídeos que ostensivamente atacavam as religiões de matriz africana e ofendiam seus praticantes, o juiz usou como argumento o direito à liberdade de expressão: “Tendo sido afirmado que tais vídeos são de mau gosto, como ficou expressamente assentado na decisão recorrida, porém refletem exercício regular da referida liberdade [de expressão]”, afirmou o texto da decisão publicado em 28 de abril.
Ponderar entre dois direitos fundamentais não é tarefa das mais fáceis, pois eles não são hierarquizáveis a priori. No caso em questão, contrapunham-se o direito ao livre culto religioso e o que garante a liberdade de expressão, ambos fundamentais e assegurados no Art. 5.º da Constituição. O juiz optou pelo segundo em detrimento do direito ao culto para justificar uma posição claramente racista. O que me faz questionar: esses direitos são mesmos inconciliáveis? O que a primazia de um sobre o outro revela?
A liberdade de expressão é um direito assegurado em inúmeros tratados internacionais, entre eles a Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948), a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (OEA, 1969) e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (ONU, 1966), dos quais o Brasil é signatário. O direito à liberdade de expressão aparece nesses documentos como um direito negativo, ou seja, ele não é provido pelo Estado, mas deve ser garantido por este.
No fundamento dessas ordenações está a premissa de que a garantia dessa liberdade deve favorecer os mais fracos, ou seja, garantir as vozes dissonantes, a multiplicidade de pensamentos, independentemente do establishment e das forças que operam o Estado. No caso em questão, os praticantes das religiões é que tiveram a liberdade de expressão negada. Vale ressaltar, inclusive, que a Ação Civil Pública ajuizada pelo Ministério Público teve como base uma representação feita pela Associação Nacional de Mídia Afro.
Ocorre que, no Brasil, tal premissa tem sido diariamente desvirtuada para garantir justamente o contrário, a saber, o domínio pela ordem do discurso. Em outras palavras, são justamente os conglomerados de mídia, dentre os quais os formados pelas igrejas evangélicas aqui mencionadas, que mais têm se utilizado do direito à liberdade de expressão para garantir seus próprios interesses e para garantir a manutenção de sua própria ordem.
Na defesa do direito dos ofendidos, dos atacados e dos aniquilados (sim, porque pessoas são assassinadas ou culturalmente massacradas em consequência de discursos), vale jogar luz sobre o fato de que a liberdade de expressão não é um direito absoluto a ser garantido em detrimento dos demais direitos.
Os mesmos instrumentos internacionais citados acima também dizem que os países signatários devem normatizar a proibição da propaganda em favor da guerra; e a apologia do ódio nacional, racial ou religioso que constitua incitamento à discriminação, à hostilidade ou à violência – o chamado discurso de ódio. O caso Rachel Sheherazade talvez seja o mais emblemático para exemplificar como esse discurso tem sido artificialmente confundido com a liberdade de expressão.
Diante dessas questões, fica claro que os países devem encontrar soluções normativas para assegurar a liberdade de expressão, mas também para evitar que ela infrinja outros direitos. O Pacto Internacional enumera, inclusive, passos para realizar a restrição à liberdade de expressão nesses casos. Em geral, trabalha-se a partir da velha “máxima” que diz: “o direito de um termina quando começa o direito do outro” -- que parece ter sido esquecida por aqui.
Por fim, vale lembrar que países como os Estados Unidos da América (EUA), a França e a Inglaterra possuem, para além de normativas de contenção do discurso de ódio, órgãos reguladores e diretivas específicas voltadas ao monitoramento desse tipo de violação dos direitos humanos nos meios de comunicação eletrônica de massa, inclusive a radiodifusão (rádio e TV). No Brasil, esse debate ocorre de forma enviesada, sendo erroneamente tachado como censura. Isso quando não é sumariamente interditado.
O mundo (ou pelo menos a parte que compõe o sistema das Organizações das Nações Unidas) construiu, nas últimas décadas, um entendimento comum sobre a necessidade de se conter o discurso de ódio. Desde os horrores do Holocausto e da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, foram criadas políticas de contenção do discurso contra cidadãos de ascendência judaica, em especial nos países onde houve maior migração desse grupo étnico, caso dos EUA.
A decisão, além de débil do ponto de vista jurídico, também é abjeta do ponto de vista cultural. Isso porque contribui para o reforço à estigmatização das religiões de matriz africana (e daí vale lembrar que o mesmo juiz, no texto inicial da decisão, havia colocado que tais manifestações não deveriam ser consideradas como religiões) e de seus praticantes, colocando, mais uma vez, a população negra, seus costumes e suas crenças, como algo do não humano e do não cultural, como se o “outro”, o “estranho” ou o “exótico” fôssemos nós – 51% da população desse país!
* Ana Cláudia Mielke é jornalista e integrante da Coordenação Executiva do Intervozes
Fonte: http://www.cartacapital.com.br

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Porque ocupar Brasília no dia 10 de junho.

Todos os dias, quando um dos nossos é agredido por “filho do capeta”, nós morremos. Em cada ação arquivada nos Juizados Especiais Brasil à fora, quando juízes ou conciliadores não reconhecem a intolerância religiosa contra nossos ancestrais como violação a um direito fundamental, nós morremos. Todos os dias, quando traficantes proíbem que usemos nossos fios de contas e guias nas favelas e periferias, nós morremos. Mas, mesmo esta morte simbólica, ainda parece muito pouco. 
Conforme vocês poderão conferir, nas reportagens anexadas a esta carta, vinte e dois sacerdotes de matriz afro-brasileira foram assassinados nos últimos nove anos. 15 deles apenas no estado do Amazonas. Pode parecer um número pequeno, mas se considerarmos que, segundo o Censo 2000, os candomblecistas e umbandistas somam 0,8% da população brasileira, a impressão que temos é que algo de muito ruim está acontecendo conosco. Quando pensamos que esses casos são os únicos que conseguimos ter acesso, porque publicados pela imprensa, ficamos com a sensação de que eles podem ser muito mais… Principalmente porque crimes de intolerância religiosa sequer são notificados como tal – seja pelas Polícias ou pelo Poder Judiciário. Para o Brasil, candomblecistas e umbandistas são invisíveis… tanto que um magistrado, sem nenhum prurido, se recusou a liberar uma medida liminar pedida pelo Ministério Público Federal porque não nos considera como religião.
Realmente somos muito poucos. Alguns pesquisadores mais otimistas, ao incluírem os espíritas na contagem do Censo, chegam a 1,7% do total de cidadãos deste país. Isso, transformado em números não soma mais de dois milhões de pessoas. Assistimos todos os dias um dos nossos perder um emprego, sofrer uma violência verbal, ter o terreiro incendiado, perder a guarda de um filho na Justiça… tudo porque o Candomblé e a Umbanda são religiões minoritárias, que jamais foram curral eleitoral de políticos, e que atuam sob a lógica da ancestralidade – que nos permite pensar uma unicidade diversa.
Por todos esses motivos, e por mais alguns que nos escapam – sabemos que as escolas expulsam nossas crianças, os hospitais não atendem nossos filhos e até mesmo nossos vizinhos se sentem incomodados com os sons dos nossos atabaques (mesmo que toquemos de dia, respeitando a Lei do Silêncio) – é que precisamos mostrar ao Brasil quem somos.
Ocupar a Praça dos Três Poderes em 10 de junho não é pedir clemência, muito menos favor aos deputados, senadores e ministros. É exigir que o Estado brasileiro cumpra os acordos internacionais de proteção aos povos de matrizes africanas e que nos garanta os direitos constitucionais previstos como cláusulas pétreas de livre expressão religiosa e de direitos invioláveis como de crença e de consciência.
Estaremos todos juntos com o povo da Casa Branca, do Tumba Junsara, do Bogum, do Gantois, do Oxumarê, do Alaketu, do Tumba Junsara, do Omiojuaro, do Opo Afonjá, Bogun, Opo Afonjá, do Movimento Umbanda do Amanhã e de tantos outros que virão. Ir à Brasília para ocupar o Congresso Nacional é dever de todo aquele que carrega um adoso ou que foi confirmado para servir os nossos ancestrais.
Nós somos povo do santo, somos religiosos do Candomblé e da Umbanda, somos afro-brasileiros.

Marcos Rezende.

domingo, 8 de junho de 2014

Movimento Povo de Santo ocupa Brasília!


sábado, 31 de maio de 2014

Na Nigéria, bonecas ‘Rainhas da África’ desbancam a Barbie em vendas

Rainha africana
Com a economia da Nigéria em ascensão e mais crianças negras do que em qualquer outro lugar do mundo, Taofick Okoya ficou perplexo ao descobrir, anos atrás, que não havia no mercado uma boneca negra para a sobrinha. O empreendedor, hoje com 43 anos, notou que havia uma brecha no segmento de brinquedos, com pouca concorrência de multinacionais como a Mattel, fabricante de Barbie.

Foi aí que ele decidiu criar seu próprio negócio. Encomendou as peças na China, montou-as na própria Nigéria e acrescentou um toque local – trajes típicos desta região da África
Sete anos depois, Okoya vende entre 6 mil e 9 mil unidades mensais das linhas “Rainhas da África” e “Princesas Naija”. Ele calcula dominar de 10% a 15% de um mercado ainda pequeno, mas que cresce aceleradamente. “Eu gosto”, disse Ifunanya Odiah, de 5 anos, que mal continha o entusiasmo ao ver uma boneca fabricada por Okoya em um shopping center de Lagos, a maior cidade do país. “Ela é negra, igual a mim.”
Embora muitas multinacionais estejam explorando os mercados africanos, a experiência de Okoya indica que, pelo menos em algumas áreas, há espaço para que empresas locais aproveitem o conhecimento nativo de modo a atender uma classe média cada vez maior e mais sofisticada.
Rainha africana2
Ninguém duvida do potencial econômico da Nigéria. O economista Jim O’Neill, criador da sigla Brics (que reúne grandes nações em desenvolvimento – Brasil, Rússia, Índia, China e posteriormente África do Sul). Recentemente, ele popularizou outra sigla, a Mint, alusiva a uma nova onda de emergentes: México, Indonésia, Nigéria e Turquia.
Com cerca de 170 milhões de habitantes, a Nigéria é disparadamente a mais populosa nação africana. E, com um crescimento em torno de 7% ao ano, aspira ultrapassar a África do Sul como maior economia do continente.
Fonte: Exame.
Rainha africana3

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