quarta-feira, 13 de maio de 2015

ABOLIÇÃO PARA QUEM?

Treze de maio de 1888: envolto em um conturbado cenário político interno - em face da transição do Império para a República - e diante das paralelas transformações externas ocorridas na Europa - que consolidava as estruturas capitalistas e via a Inglaterra reforçando o desejo de aumentar o número da sua mão - de - obra assalariada - o Brasil foi testemunha de um importante fato histórico, a abolição da escravidão.
            Em 2015 se comemora cento e vinte e sete anos da histórica data em que a Princesa Isabel, filha do Imperador Pedro II, assinou a Lei Áurea, que decretou o fim do secular período de escravidão no Brasil.
            É desta maneira que, tradicionalmente, se propaga esta importante passagem da história brasileira nos bancos das escolas espalhadas pelo país: a abolição da escravidão como uma dádiva concedida pelos senhores e governantes por entenderem que era chegada a hora de todos sermos iguais.  De acordo com o ensinamento repetido dia após dia, o ato da Princesa Isabel foi responsável por equiparar os negros libertos aos brancos, inserindo os antigos escravos no contexto social igualitário, onde não havia descriminação e racismo.
            Ocorre que, diverso do quando difundido, o ato formalizado pela Princesa em 1888 apenas serviu para mascarar um contexto de sofrimento, racismo e humilhação vivenciado pelos negros por longos tempos. Muito pouco (ou quase nada) mudou na vida daqueles que por séculos foram reféns de um sistema atroz e desumano, que até os dias atuais se veem deixados em segundo plano no momento em que se discute a história do Brasil.
A campanha abolicionista, em fins do século XIX, mobilizou vastos setores da sociedade brasileira. No entanto, passado o 13 de maio de 1888, os negros foram abandonados à própria sorte, sem a realização de reformas que os integrassem socialmente. Por trás disso, havia um projeto de modernização conservadora que não tocou no regime do latifúndio e exacerbou o racismo como forma de discriminação. Gilberto Marigone 2012,
            Como dito, em poucos bancos de salas de aula tem-se a oportunidade de aprender que a libertação do povo negro foi resultado de um permanente e incessante conjunto de lutas travadas contra o regime e contra os escravocratas por mais de três séculos. Muitos se esquecem (ou preferem omitir) a informação que a resistência contra a escravidão iniciava-se ainda nos navios negreiros quando muitos escravos provocam sua morte.[1] A posteriori, quando negociados pelos traficantes, a batalha reiniciava e a tentativa de fuga era imediata ainda mesmo no transporte para as senzalas, onde mais uma boa quantidade terminava morrendo.
            E não é só. Muitas mulheres escravas, ceifadas de suas forças e incapazes de escapar do sistema buscavam através do aborto impedir que seus filhos fossem transformados em cativos – notadamente quando o feto era concebido contra a sua vontade.  Não são poucos os casos que relatam os abusos sexuais perpetrados contra as escravas pelos Senhores de Engenho, que na maior parte das vezes possuía a compreensão clara das duas supostas funções da negra: a trabalhadora braçal durante o dia e o complemento sexual à noite. Outra forma comum de resistência à escravidão que raramente é trazida a baila é o suicídio, realizado inúmeras vezes por aqueles que preferiam escapar em definitivo do sofrimento carnal ao invés de morrer um pouco mais a cada dia, sem dignidade, força e liberdade.
            Alternativa diversa de luta que foi criando espectro durante o século XVII foram as fugas dos nossos irmãos para as matas e serras distantes na tentativa de reconstrução de uma organização social semelhante as que tinham na África. Desta ideia nasceram os primeiros dos muitos quilombos que se espalham pelo Brasil ao longo de toda escravidão, atuando como verdadeiros locais de proteção e guetos propagadores das ideias de liberdade, que não demoraram a alcançar os centros urbanos. É a partir desta propagação de ideias de liberdade e igualdade que surgem instituições, como, por exemplo, as associações beneficentes e beneméritas que se agrupavam com objetivo se arrecadar fundos para compra de alforrias e cria previdências com o intuito de sustentar os negros mais velhos que mesmo livres[2] não tinha como se sustentar. Diz-se isto, poria a Alforria nunca era uma conquista solitária, uma vez que resultava de uma rede de solidariedade e esforços conjuntos dos companheiros, pais, avós, padrinhos e madrinhas que se união a fim de conceder liberdade àqueles que se encontravam presos nas malhas da escravidão.
Em 1751, na cidade do Salvador, Jerônima da Conceição, viúva, libertou Marcelino, mulato, com dois ou três anos de idade, depois de ter recebido 30 mil contos pago por seu pai, Floriano Alares Pereira. Na mesma cidade, em 1818, a Freira Maria Clara de jesus, do Convento de Santa Clara do Desterro libertou um recém - nascido depois de receber 20 mil réis pagos pela mãe da criança. Os padrinhos concorriam frequentemente com quantias para alforria dos afilhados, em fevereiro de 1871, n cidade de Porto alegre, o pequeno Ernesto, filho de Inocência e neto de Gertrudes, foi liberto após sua avó ter pago 130 mil réis a sua senhora. (Valter Fraga Filho 2006)
            Neste diapasão de luta e resistência, não se pode esquecer a importância das organizações religiosas, que através dos mais velhos estruturavam e mantinham a tradição do culto aos Orixás, elemento que possibilitou a unidade e a fé que faz esse povo garantir o permanente desejo de enfrentar e resistir para manter a sua ancestralidade que vai sendo transmitida de geração a geração fortalecendo o desejo de liberdade.
            Todas estas informações e circunstâncias nos remetem a um dado estatístico [3]pouco ensinado nos bancos das escolas: apenas 30% dos negros do Brasil foram beneficiados com a Lei Aurea, já que quando ela foi assinada pela Senhora Isabel cerca de 70% dos negros do Brasil já estavam livres com resultado de todas essas formas de luta que relatamos acima.
            Mesmo antes da abolição formal ser assinada, os negros e negras já se utilizavam de estratégias inteligentes para garantir a sobrevivência do seu grupo social, após a abolição que estava prestes a acontecer. Uma destas estratégias pode ser vista, mais uma vez, analisando dados estatísticos encontrados nos registros dos arquivos públicos da Bahia[4]: a maior parte das alforrias que os grupos familiares negociam e compravam dos senhores e senhoras assim como as compras feitas pelas associações protetora dos negros, criadas a partir do século XIX, sempre deram prioridade aos cativos do sexo feminino, pois se entendia que libertas estas teriam seus filhos já livres o que seria importante para continuar a existência do negro no Brasil.
            Diante do todo exposto, reside a pergunta: será que temos realmente algum motivo para continuar ensinado aos nossos alunos esta História que nos foi contada? Por quanto tempo esta versão positivista da História brasileira será transmitida pelos livros didáticos adotados pelo governo? O que motiva a escrita de uma história que ainda exalta o treze de maio como marco libertador do povo negro?
            É de bom alvitre salientar que em nenhum momento busca-se desprezar o ato formal que pôs fim a escravidão, contudo, em face do modo como até hoje ele é encarado e, notadamente em razão da supervalorização do treze de maio de 1888, nunca é demais se questionar: 13 de maio? Para quem, meu povo?


Ademar Cirne
Graduado em História pela UFBA
Pós Graduado em História do Brasil pela PUC/MG
Coordenador Nacional de Quilombos do CEN – Coletivo de entidades Negras
Ogã do Terreiro Ilê Axé Oxumarê
Gerente da Coordenação de Promoção da Igualdade Racial de Vitória da Conquista.




[1] Em média 40% dos cativos transportados para o Brasil através da maior diáspora que o mundo moderno conheceu (cerca de 5 milhos de negros forma traficados para nossas terras), não chegavam aqui com vida.
[2] Em 1885, foi promulgada a Lei do Sexagenário que libertou todos os escravos com mais de sessenta anos.


sábado, 9 de maio de 2015

O show e a luta não podem parar



Nesta sexta-feira, 08 de maio não foi  apenas o fim de mais uma semana, se encerrava também a carreira de uma ator transformista, que teve sua vida ceifada após mais uma de suas tantas brilhantes apresentações.
Desde os anos 90 Fernando Bergen Monteiro, dava vida a personagem Andrezza Lamarck, que sempre com características muito marcantes nos brindava com números maravilhosos, como o fez até a última noite de sua vida, momentos antes de ser assassinado ao sair  do local onde habitualmente se apresentava.
Quem conseguirá esquecer aquela personagem que encenava a canção Paraíba do também saudoso Luiz Gonzaga, ou as memoráveis recordações de sua encenação de Guerreira, da tão querida e saudosa Clara Nunes.
Mas a morte deste artista não nos deixa apenas a perda artística, mas também da pessoa extremamente carinhosa, solidária e corajosa que Fernando sempre se mostrou, tendo enfrentado diversas dificuldades, sempre se mostrou um grande exemplo de superação como a grande maioria da população LGBT.
Simultaneamente somos tomados pela revolta resultante da omissão do Estado brasileiro, que se nega a criminalizar as práticas LGBTfóbicas crescentes em todas as cidades deste país, quando se nega a inserir o combate a LGBTfobia nas escolas e se permite silenciar pela imposição de pensares machistas, fundamentalistas que obstruem a construção de políticas que promovam os direitos desta população que já não se cala mais diante destas práticas.
A morte de Andrezza Lamarck é a representação de que enquanto o Estado brasileiro se negar a criminalizar estas práticas, permanecerá em nossa sociedade a certeza da impunidade, como quem comete um ato heróico, haja vista que até mesmo no Congresso Nacional, se legitima o pensar que LGBT precisa morrer.  
A população LGBT grita e sangra todos os dias, na tentativa de manter-se viva, sendo que quase sempre a população se nega a ouvir seus gritos, que nunca ecoam nos espaços de decisão  e construção de políticas públicas.
Pressionaremos cada representação do parlamento até que tenhamos assegurado o nosso direito à vida, no que defende todos os instrumentos de defesa da vida humana.
Precisamos manter acesos os ideais de Fernando, que na personificação de Andrezza defendia a arte como forma de se relacionar com o mundo produzindo alegria. Descansa em paz querido artista. Onde estiveres o teu show tem que continuar.

Gabriel Teixeira
Coordenador LGBT do CEN
Conselheiro Estadual LGBT

quinta-feira, 16 de abril de 2015


Nota de Repúdio



quarta-feira, 15 de abril de 2015

Olhares aprisionados
Uma Tunísia oculta


A participação no Fórum Social Mundial seria apenas mais um espaço de construção coletiva, caso não produzisse uma inquietação tamanha convocando-me à reflexão sobre as diversas manifestações da crueldade humana, neste momento representada pela tentativa de repressão à sexualidade de boa parte de uma gente extremamente afetuosa.
Ao caminhar pelas ruas de Tunis, a capital tunisiana, percebia a constante troca de afeto permitida entre homens que se autodeclaram heterossexuais, quase sempre trocando beijos em suas faces, caminhando abraçados e até mesmo trocam certos afagos. O que não seria de estranhar, se isto fosse habitual também às mulheres. Sendo que estas pouco se expressam publicamente, ao menos nos espaços abertos por onde transitei.
Durante as tardes percebia que, em um dos cruzamentos das duas principais avenidas centrais daquela capital, a concentração de jovens chamava a atenção de qualquer pessoa que por ali trafegasse, posicionando-se numa constante espera de algo que nos primeiros dias não consegui identificar.
Mas, logo ao terceiro dia, os gentis cumprimentos já me revelavam o real motivo daquelas concentrações de dezenas de jovens, sempre ávidos por um olhar correspondente, talvez sendo a única oportunidade que lhes fosse dada, ainda que de forma velada, para satisfazer seus mais recônditos desejos e fantasias.
Foi então que, ao sentar-me em uma das mesas do Salon de Thé, que se revelara a mim o real significado daquela concentração. Quando um jovem se aproximara e gentilmente exibe seu francês num sotaque quase arábico: ”Bonjour, monsieur!”. Seria algo natural se este fosse um dos gentis garçons que ali serviam os cafés ou chás, mas era um jovem tunisiano que para sua sociedade velava sua homossexualidade, mas, no contato com os turistas, buscava a possibilidade para vivenciá-la.
O sentimento que me tomava naquele momento não me permitia sentir-me lisonjeado pelo flertar de um lindo jovem, com olhos negros e fixos, antes de questionar-me sobre o nível de exposição que este se permitia, sabedor que era de sua legislação. Em meio à comunicação, com meu raso francês e seu italiano parco, foi-nos possível estabelecer um diálogo que me fazia compreender facilmente o nível de sua angústia pelo impedimento de vivenciar livremente seus afetos no campo da orientação sexual, do ponto de vista erótico, mais propriamente dito.
Quando este me disse, em seu francês, “Au Brésil deux hommes peuvent aimer?”, percebi em seus olhos o desejo do “sim” como resposta, mas a minha frustração se produzia ao perceber que os ares da homofobia presente no Brasil não eram maiores que na Tunísia, apagando aquele brilho do olhar no cotidiano de jovens impedidos de amar seus desejados parceiros.
Être autorisé. Liberté Tunisie!

Gabriel Teixeira
Psicólogo Social
Membro do Coletivo de Entidades Negras (CEN)
Conselheiro Estadual dos Direitos da População LGBT da Bahia

As razões pelas quais a Casa de Oxumarê e eu, Baba Pecê, apoio Marcos Rezende para ouvidor da Defensoria Pública do Estado da Bahia.


Baba Pecê
Como é publicamente sabido na Bahia e no Brasil, o professor Marcos Rezende é ogã desde 1998, confirmado para Ewa desde 2001, tendo o cargo de Oju Obá (Olhos do Rei) dessa Casa desde 2004. Na condição de babalorixá desse Ilê, eu poderia basear todo o meu discurso de apoio à sua candidatura tão somente a partir desse argumento de filiação. Dentro da hierarquia do candomblé e da irmandade que dela decorre, esse seria um comportamento totalmente legítimo e definitivo, não sendo passível sequer de criticas.

Porém, esse não seria um apoio baseado em critérios republicanos e o candomblé, mesmo com sua estrutura hierárquica e seus dogmas muito bem definidos, está contido em uma nação republicana, algo que nos reivindica argumentos democráticos. Esse, talvez, seja um dos grandes desafios das religiões tradicionais, como é o caso do candomblé: o exercício de respostas republicanas, tanto para o mundo externo – ou seja, como o terreiro se relaciona com o mundo –, como para o cotidiano comunitário, o nosso existir em família e todos os conflitos que essa condição de religião familiar nos coloca.

Se analisarmos o pleito para Ouvidoria da Defensoria Pública da Bahia veremos, sim, dois candidatos muito legítimos. É inegável que tanto a professora Vilma Reis como o nosso filho Marcos Rezende são profissionais gabaritados e sujeitos que se especializaram em um ativismo político em prol dos segmentos mais negligenciados pelo Estado. Nesse sentido, é uma honra para a sociedade baiana um pleito dessa natureza, em tempos de tantas notícias de corrupção e tanto descrédito da política. Temos para essa função pública um pleito com dois notáveis indivíduos da cena política baiana.

A questão que nos mobiliza ao apoio desse filho é justamente o seu histórico de compromisso não só com essa casa, mas com as causas do povo negro desse nosso país, no qual o povo de santo é um dos segmentos desse todo. Entre os anos de 2004 e 2007, Marcos Rezende, indicado por esse Ilê Axé, ocupou o cargo de conselheiro de Direitos Humanos da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, momento em que contribuiu enormemente para a ampliação do debate em esfera nacional de temas pelos quais ainda hoje lutamos, como, por exemplo, o fim do genocídio de jovens negros das periferias, o fim dos autos de resistência, o combate à intolerância religiosa que violenta as religiões de matrizes africanas, a inclusão da história da África nos currículos escolares, enfim, pontos de uma agenda da qual essa casa é muito sensível.
É também em 2004 que no barracão de Omulu dessa casa aconteceram as primeiras reuniões do CEN (Coletivo de Entidades Negras), jovem entidade do movimento negro que Marcos Rezende, respondendo a um chamado meu e de tantos outros que cansaram de ver injustiça, criou junto com outros jovens negros. Uma instituição criada para questionar a ausência de ajudas públicas para as pequenas agremiações negras, tanto terreiros de candomblé (e demais religiões de matriz africana), como agremiações carnavalescas, de juventude negra através do Hip-Hop e de bairros periféricos dessa cidade, algo que inclui os afoxés, as creches, as associações de bairro, etc. Nascia ali um grito dissonante em prol da dignidade das pequenas entidades do movimento negro e um clamor público pela democratização dos acessos, algo pelo que uma parte do movimento negro se esqueceu de lutar no andar do processo político.
Essa entidade existe até hoje e não se esqueceu do seu objetivo inicial. Ao contrário, dia após dia, renova suas bandeiras de luta, mesmo hoje sem a presença física desse nosso filho de Xangô.
Não há caso de combate às injustiças sociais nessa cidade que não seja lembrado o nome de Marcos Rezende. Ele pode até não ser uma unanimidade, mas é inegável que as marcas da sua força cidadã, muito própria dos filhos de Xangô, traz dignidade a muitos processos políticos de luta e contestação política do povo negro dessa cidade. Como se esquecer da sua luta pela reconstrução do terreiro Iyá Onipó Neto derrubado pelo racismo institucional perpetrado pela municipalidade dessa nossa cidade, evento inclusive documentado na obra “Até Oxalá vai a Guerra”? Ou o caso da questão fundiária do Ilê Axé Ayrá Izo, no qual a discussão judicial da propriedade do terreno foi mediada pela força política e intelectual dos filhos dessa casa, liderados por Marcos Rezende e André Santos, que conseguiram sensibilizar o poder público quanto à necessidade de desapropriar o terreno para bem da manutenção de uma casa de Orixá. Essas são algumas das tantas histórias que eu poderia citar nesse documento, mas que agora não vem ao caso.
É justamente diante desse contexto que entendo ser o momento de termos uma liderança como Marcos Rezende ocupando o cargo de ouvidor-geral da Defensoria Pública. Esse órgão que é tão importante para o acesso à Justiça e que, ao mesmo tempo, ainda é uma instituição tão marginalizada na estrutura de estado, merece ter esse moço como ouvidor. A sociedade baiana e, sobretudo, o público pobre que é usuário dos serviços dessa instituição merecem a competência desse jovem para ver seus direitos respeitados.

Não sem razão, publico esse apoio em uma quarta feira, dia dedicado ao senhor do fogo e da Justiça. Que Xangô mesmo, Orixá da Justiça, coloque seus olhos a serviço do seu povo! 
Adupé!

domingo, 5 de abril de 2015

O CEN na construção de Outro Mundo Possível

O CEN na construção de Outro Mundo Possível


Durante alguns dias o coração do mundo futuro palpitou ao norte da África, acolhido pelo povo tunisiano ao longo dos cinco dias, onde percebíamos olhos ávidos por correspondências de afeto e lutas que definiriam um novo mundo como possibilidade de construção coletiva, permitindo um amplo debate no Fórum Social Mundial 2015.
Nesta perspectiva o CEN – Coletivo de Entidades Negras se fez com o lançamento do documentário Mulheres do Axé – Vozes contra Intolerância Religiosa, dirigido pelo historiador Marcos Rezende. Apresentando ao mundo as trajetórias de diversas mulheres do candomblé não somente no enfrentamento a intolerância e ao racismo, mas também na condução das políticas em suas famílias e comunidades.
Percebeu-se em todas as mulheres que acessaram o documentário ou as discussões acerca de seu conteúdo, um misto de prazer e representatividades deste, manifesto em algumas falas como a da antropóloga italiana Dra. Anna Maria Rivera: “Não podemos ignorar a contribuição de um trabalho destes para a humanidade, elas são fundamentais” - se referindo as mulheres do axé.
Naquele momento em meio a Marcha Pelos Direitos Humanos o CEN afirmara de que Outro Mundo é possível ainda que pese todas as atrocidades cometidas neste momento, que seguimos conjuntamente construindo a partir das crenças de que pessoas podem dialogar, minimizando as diferenças, tecendo em suas similaridades vínculos e acordos capazes de instrumentalizar as ditas minorias.
Ter participado das manifestações e debates contra a LGBT fobia permitiu ao CEN a ação efetiva para o fortalecimento destas comunidades na Tunísia, país onde ainda não existe liberdade para vivenciar a sexualidade em sua diversidade, estando sob o pensar hétero normativo, expondo homossexuais, lésbicas, transexuais e travestis a violação dos Direitos Humanos, de forma legalizada e institucionalizada.
A possibilidade de construir junto a representantes do governo brasileiro, como as construções pensadas em parceria com o Ministério da Cultura, ali representado pela Secretária da Diversidade Ivana Bentes numa reunião em que também estava o Eduardo Suplicy atual Secretário de Direitos Humanos da Cidade de São Paulo.
O Fórum Social Mundial convocou a humanidade a refletir sobre a inoperância de qualquer pensar ou atitude pautada no individualismo se desejamos de fato a construção de uma sociedade menos conflituosa e mais igualitária em meio às tantas diferenças possíveis a raça humana. Mas com uma diversidade de recursos capazes de facilitar a conectividades entre povos e culturas desejosos de promover a solidariedade como língua universal, o que se expressou na grande marcha em favor da Palestina ocupando uma das maiores avenidas da capital Tunisiana.
Assim o CEN retorna ao Brasil convicto de ter contribuindo significativamente para a construção de Outro Mundo Possível, que se inicia desde já, em nossa relação cotidiana pelo combate a todas as violações e promoção da autonomia de todos os povos através do fortalecimento mútuo.

Gabriel Teixeira - Psicólogo

Representante do CEN no Fórum Social Mundial

domingo, 29 de março de 2015

Sobre essa mania chata que as pessoas negras tem de se vitimizar

Nós pessoas negras nos vitimizamos mesmo! Gostamos tanto de nos vitimizar que quando entramos em um estabelecimento comercial somos nós que pedimos para os seguranças nos seguirem, eles não desconfiam de nós apenas pela cor de nossa pele, afinal não existe um velho estereótipo de que todo preto é ladrão.
Quem nunca ouviu: “Vocês negras/negros se vitimizam sim. Nós somos todos iguais!”? Se para a sociedade essa igualdade é verdade, alguém avisa isso para a polícia, que eu acho que ela não entendeu, afinal 73,83% da população carcerária é negra. O que gera uma proporção de 11 presos negros, para um 1 branco. E porque será que há tantos pretos presos? Racismo!? Claro que não! É vitimismo! Nós, pessoas negras, temos uma compulsão por sermos vítimas, por isso até pedimos para que os policiais nos prendam, nos deem enquadros e nos batam.
Cláudia da Silva, por exemplo, é um caso preto de vitimismo, faz um ano e pouco mais de uma semana, que ela foi arrastada 900 metros por um carro de polícia. Cláudia, com absoluta certeza, pediu para os policiais fazerem isso, já que são muito amigos das pessoas pretas, (pode perguntar pra todas/todos suas/seus amigas/amigos pretas/pretos, que irão confirmar o que acabei de escrever). Isso porque ela queria ter seus 15 minutos de fama, sair na imprensa nacional e internacional. Vimos que isso efetivou-se visto que hoje, todo brasileiro conhece a história de Cláudia da Silva.
Talvez o silêncio da mídia “oficial” em relação a esse caso se dê pelo simples fato de que é comum, ou melhor é desejada a morte de pessoas negras. O racismo é estrutural, mas mesmo assim vivemos em um país tropical de democracia racial, né?!
E se eu for falar de educação então? Como nós pessoas negras nos vitimizamos! Tanto que 45,2% de nós conclui o ensino médio e desses apenas 35,8% de nós conclui o ensino superior.
 Quando não terminamos o ensino médio é porque não queremos, nenhuma pessoa negra jamais precisou parar de estudar para complementar a renda de sua casa.
Sem contar que na escola aprendemos muito sobre nós, quer dizer, sobre como o nosso foi povo foi escravizado. Aliás, quando aprendemos que fomos escravos, nossos colegas de classe – tão divertidos – tiram sarro de nossa cara preta por isso, achando tudo muito engraçado. Porque, com certeza, pulamos de alegria quando ficamos sabendo do sofrimento de nossas/nossos ancestrais, como se não bastasse vivenciarmos a estreita relação desse passado com os lugares que ocupamos atualmente na sociedade.
Também na escola, aprendemos tudo sobre nossa cultura e nossa história. Não porque foram necessárias duas leis para isso, a 10.639/03 e 11.645/08 para isso. Aliás, duas leis que ainda não são cumpridas, mesmo a primeira já estando há mais de uma década em vigor.
O ensino superior, então… nos é muito receptivo! A universidade está de portas abertas pra nós - quase uma mãe. Nunca nos sentimos sozinhas/sozinhos, porque vemos pretas/pretos para todos os lados, nossas/nossos colegas, professoras/professores. A gente se sente praticamente na África quando entramos na universidade. Isso pra não mencionar que é muito fácil para uma pessoa negra entrar na universidade, a maioria paga um colégio particular e um cursinho ao mesmo tempo só pra entrar, afinal que família negra não tem condições de fazer isso? Só a sua, obviamente.
Para pessoas negras universitárias fica a pergunta: quantas pessoas negras existem na sua sala e na sua faculdade? No circuito acadêmico parece esquizofrenia acreditar que 51% da população é negra. E professoras/professores negros? Existem na sua universidade? Quantas/quantos são?
E no mercado de trabalho, onde ganhamos 57,4% do que ganha uma pessoa branca?! Uma diferença que fica ainda maior, se colocarmos em questão o gênero, pois as mulheres negras ganham apenas 67% do que ganham os homens negros, e 34% do que ganham os homens branco, desta forma são elas a base da pirâmide social. Claro que isso não acontece porque também há um forte racismo institucional. É vitimismo. Só pode! É tudo culpa nossa. Sempre. E o pior é que o nosso “vitimismo” incomoda. Ouvir gente preta falar de racismo incomoda. Que pena, porque continuaremos falando, gritando e incomodando, com todo esse nosso “vitimismo”.
P.S.: Quando falamos de racismo não queremos o paternalismo babaca que muitos brancos nos dão, quando falamos de racismo não pedimos abraços ou caridade, pedimos justiça!

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