sábado, 5 de julho de 2008

Saberes e Viveres de Mulher Negra: Makota Valdina


Valdina Pinto ocupa o cargo de Makota (auxiliar direta da Mãe de Santo) do Tanuri Junçara, Terreiro de Candomblé Angola. Professora aposentada da rede pública municipal e Educadora do bloco afro Ilê Aiyê, Valdina Pinto é uma referência para as comunidades negras de Salvador, sendo reconhecida como mestra nos ambientes intelectuais nacionais e internacionais pela articulação entre a prática e a teoria da sabedoria bantu. Makota Valdina é ainda membro do Conselho Estadual de Cultura da Bahia e do Fórum Cultural Mundial. No ano de 2005 foi proclamada "Mestra de Saberes" pela Prefeitura Municipal de Salvador, além de ter sua vida retratada em um documentário financiado pela Fundação Cultural Palmares / MinC.


"Makota Valdina é uma mulher muito lúcida, comprometida e que contribui enormemente com o amadurecimento das discussões étnicas e das discussões acerca da construção de uma sociedade digna. Assim, a divulgação da sua vida, das suas práticas e das suas provocações com certeza é uma forte contribuição para a construção de uma sociedade menos individualista e menos perversa"


Segue abaixo trechos de entrevista para Revista Palmares:
Revista Palmares: Você se considera uma “sábia negra”?
Não, eu me considero uma aprendiz. Dizem que eu sou uma sábia. Na semana passada, fui homenageada com uma placa como mestra de saberes populares. Então eu digo: a negra que eu sou, o ser humano que eu sou, sou porque aprendi com os meus mestres. Meus primeiros mestres foram meus pais. Meus segundos mestres foram os outros negros da comunidade do Engenho Velho da Federação. Na primeira escola que estudei, minha primeira professora escrevia as letras e os números em uma pequena pedra, uma lousa apoiada em madeira. Meu lápis era também feito de pedra. Aqueles negros, aquelas negras, mulheres e homens da comunidade onde nasci, cresci e moro até hoje, foram os meus primeiros mestres. Naquele tempo a família era extensa. A comunidade era uma família. E ali a gente ensinava o que aprendia. Toda criança era responsabilidade de todo adulto. A gente aprendia dentro de casa a fazer as coisas, a cuidar da casa, a cuidar de outros. Como era a terceira filha e a mais velha das mulheres, aprendi também a ter cuidado com outros e com as crianças. A sabedoria que tenho hoje é que me foi passada por eles.

Revista Palmares: Nesta vivência familiar e comunitária, quando a senhora começou a se sentir mulher. Como era ser mulher, ser menina?
Olha, como mulher eu sempre me senti. Hoje quando vejo o movimento feminista, e eu falo em relação às mulheres negras, que muitas vezes incorporam algumas atitudes e algo que não é nosso, que vem de fora, eu fico pensando:
- gente, minha mãe e outras mulheres sempre tiveram voz dentro da comunidade e da família!
Minha mãe nunca esperou meu pai para tomar alguma atitude. Sempre tomou atitudes e quando meu pai chegava e a decisão já estava tomada. Quando era algo que precisava de uma resposta dos dois, sempre ela deixava para depois. Via os dois discutindo para chegar a um consenso, mas tinha coisas que ela decidia e depois meu pai acatava. Enquanto mulher, a gente aprendia a ser mulher sendo menina. Hoje eu sei um bocado de coisas que eu não tomei curso, não paguei para estudar, nem para aprender, porque me lembro que muitas coisas eram ensinadas enquanto
estava sentada na esteira, aprendendo as coisas que davam para tocar. Hoje mesmo minha irmã é professora, mas optou por ser costureira e ela aprendeu a cortar vendo a minha mãe cortar, cortar pijama, cortar camisa. Fazer comida, confeitar bolo a gente aprendia em casa. Eu aprendi a ser mulher com minha mãe, dentro de casa. E digo mais, hoje tem este “negócio de trabalhos sociais”. A gente já fazia isso no Engenho Velho da Federação. Os homens, as mulheres, os pais, as mães e os filhos, todos faziam trabalhos sociais e havia ocupação para todo mundo. Eu não me descobri mulher depois. Posso até ter tido uma consciência. Mas quando eu me remeto à minha infância e à minha juventude, vejo que meus passos foram contribuindo para isso.

Revista Palmares: Qual é a sua visão sobre homem, sobre a natureza, e sobre uma sociedade em equilíbrio?
Minha sociedade do equilíbrio é uma sociedade onde os seres desta sociedade tenham preocupação com a humanidade. A humanidade a partir de cada um, em que todos os seres humanos tenham direitos comuns. Enquanto ser humano, tenho o direito de viver nesta casa comum que é o nosso planeta. Se faltar ar, não vai importar o dinheiro que você tenha, não importa a posição e o poder que você tenha. Você vai morrer. Seja um Bush, um Lula, ou seja lá dos cafundós. Todos tem a mesma importância. Todo o ser humano tem que ter, dentro de uma sociedade, esta ciência, esta consciência. A partir daí, todos serão responsáveis. Não pode ser uma sociedade igual no sentido de criar um modelo único para todo mundo. Você entra no mar e vê diversidade. Entra na mata e vê diversidade. Olha pro céu e vê diversidade. Os seres humanos são diversos. Tem jeitos diversos de ser. Pode haver cores e cabelos diversos. Essa diversidade não pode ser tomada com parâmetros de superioridade ou inferioridade. Somos iguais a partir da ótica que as coisas básicas da vida são iguais para todos. Mas nós temos diferenças, porque nós temos também o direito de pensar diferente, de se relacionar com o mundo sobrenatural de forma diferente, de gostar de comer diferente, de gostar de se distrair diferente, de optar por um viver, em alguns pontos, de forma diferente. A sociedade, para mim, tem que contemplar isso e dar esta liberdade. A liberdade de ser diferente, mas a medida em que você respeite os limites, as diferenças do outro, o direito que o outro tem de ser e viver. Por mais conflitos que se tenha, o que se vê é que não se respeita o direito do outro, por isso há tantos conflitos em nossa sociedade.

Revista Palmares: Alguma mensagem dos mais velhos, dos Inkisis, que estimule este sonho?
São tantas as mensagens! Eu acho que a mensagem que eles dão é pela própria forma como eles existem para a gente. Quando um Inkisi, um Orixá, um Vodun escolhe alguém para ele incorporar, para ele ser através daquele ser, ele não escolhe pela cor, não escolhe pelo dinheiro,
não escolhe pelo saber. Nós não escolhemos o Inkisi, o Orixá, o Vodun, nós somos escolhidos. E eles escolhem. Então, você pode ver uma pessoa que não é valorizada pela sociedade apresentarse tão majestosamente pelo Inkisi, pelo Orixá, pelo Vodun, quando incorporada. Naquele momento, aquela pessoa pode ser um máximo diante a um Papa presente, diante de um político, de um Bush, de um Lula. Então, a mensagem que eles mandam é que você seja, e a mensagem que eu tenho aprendido é que você só é grande quando você sabe ser pequeno. Uma Nengua só é Nengua quando ela continua sempre sendo Muzenza. Um adulto tem que ser adulto, sabendo sempre ser criança.


Para assistir, a trajetória dessa Mulher através do documentário Um Jeito de Negro e de Viver, clique aqui.



Nota: Para ler na íntegra, a Entrevista de Makota Valdinha para Fundação Palmares, clique aqui.

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