quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Balaio de Idéias: Candomblé e Política


Jaime Sodré
A eleição se aproxima e o que se vislumbra são as falas de sempre acrescidas de visitas aos nossos templos onde se faz promessas e juras de tolerância, além de futuro empenho frente às nossas demandas. Parece até que “nesta cidade todo mundo é de Oxum”. Porém, como nos dizem os Caboclos “promessa é duvida meu filho”. Sabedores desta postura necessita-se desde já pensarmos em forte estratégia de cobranças, pressões e diálogo para não sermos parceiros desta farsa, onde a mentira e a enganação é o tom maior, som que não encontra acompanhamentos em nossos tambores sagrados.
A mentira é uma das “quizilas” graves pleiteada por Xangô, Zazi e Sogbô, que reprimem com atitudes rigorosas e castigos vigorosos todos aqueles que falseiam a verdade, pois esta, a verdade, é um potente suporte transmissor de Axé, este na condição de um poder realizador do equilíbrio universal. Afinal, o pouco certo é melhor que o muito duvidoso, deste modo, lembrando Cazuza no que cabe, “mentiras sinceras” não nos interessam.
Neste texto, pretendemos oferecer ao conhecimento de muitos, em especial aos nossos, ações de heróis e heroínas fiéis doCandomblé, onde a passividade e a inércia não vingou, existindo estratégias, ações, posturas e diálogos que nos ensinam no presente. A observação dos exemplos nos mostram que lutar e dialogar é fazer política inspirada nos modelos das contendas enunciadas nos repertórios míticos religiosos das divindades de matriz africana.
Inspirado no que nos conta o Babalaxé Luiz Sérgio, Motumbá Baba, podemos retratar o ambiente do Estado Novo e a sua relação conosco, o povo-de-santo. Nesta época era comandante da VI Região Militar o general Renato Onofre Pinto Aleixo. Estando proibido o uso de atabaques, o general mandou que, por intermédio de Antonio Leão, o Gantois tocasse. Para garantia da sua determinação, mandou uma guarnição comandada por um capitão.
Tempos depois, Jorge Manuel foi a Delegacia de Jogos e Costumes solicitar licença para realizar as suas festas, sendo alertado que não poderia tocar atabaques, no que este retrucou que não estava proibido, pois o Gantois tocara.Recomendaram-lhe então que procurasse o Comandante da VI região. Jorge, que era Ogan, tomou outra providência, conhecedor do prestigio da ialorixá Aninha do Axé Opo Afonjá: foi ao Rio solicitar o seu prestígio para intervir neste caso.
Osvaldo Aranha, chefe da Casa Civil do presidente Vargas, que segundo Baba Sergio gozava do privilégio de ser filho-de-santo de Mãe Aninha, marcara audiência com Getúlio Vargas, à qual a ialorixá compareceu, altiva e imponente. Respeitada e respeitosa conseguiu por decreto a liberação para o uso dos atabaques nos ritos do candomblé.
De volta à Bahia o “Ogan” Jorge Manuel da Rocha trouxera o histórico Diário Oficial, com a publicação do referido decreto, exibindo o mesmo orgulhoso e finalmente tirou a imposta licença” e fez a sua festa ao som os cânticos e atabaques sagrados, reverenciando as divindades com os “orin” que dignificam os movimentos corporais das divindades materializadas.
No “Correio Nagô, ao que se sabe, nenhum gesto de submissão e acanhamento acompanhava as posturas nobres de Mãe Aninha. A audiência com Getulio Vargas era entendida por ela como um encontro de autoridades, cada um na sua dimensão política ou religiosa, atenta à sua representatividade.
Estes fatos nos ensinam que os palácios, assembléias e câmaras são ambientes ao gosto das nossas reivindicações por representação direta ou não. Com altivez, firmeza e personalidade, devemos buscar as nossas soluções justas e historicamente merecidas, sem bajulações ou posturas menores e subservientes, pois afinal, independente de crença religiosa, uma ação individual ou coletiva de fé, somos cidadãos e cidadãs regidos pelo Livro fundamental, onde se dá a sagração de todos, que é a Constituição Brasileira. A sua sacralidade legítima se constrói pela imensa fé que temos em direitos igualitários.
Jaime Sodré é doutorando em História Social, religioso do candomblé, poeta e compositor.

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