sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Intolerância Religiosa - Omissão e Debilidades do MN

Apenas algumas considerações rápidas:
1) Estamos a menos de um mês da Caminhada Pela Liberdade Religiosa no Rio de Janeiro (www.eutenhofe. org.br). Estamos estimando a participação de, no mínimo, 50 mil pessoas. A Rede Globo de Televisão está apoiando e, uma semana antes, soltará chamadas de apoio à caminhada tendo à frente a atriz Mariana Ximenes, entre outros.
2) Organizações de direitos humanos, religiosas, acadêmicas (universidades públicas e privadas) estão apoiando a caminhada. Lançando documentos, mobilizando seus quadros, enfim, o cenário está se fazendo bonito.
3) Neste momento, excetuando-se CEN, Cetrab e Ceap, que são entidades que estão à frente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, e da Casa da Cultura da Mulher Negra, que apóia a Comissão desde o início, até o momento em que escrevo estas mal traçadas, nenhuma organização nacional do MN se posicionou a favor da caminhada, lançou um texto de apoio, entrou em contato para dizer que sua militância estará presente no momento;
4) Nem mesmo a sempre tão combativa "imprensa negra", deu suas caras pretas até esse instante, excetuando-se com louvor e destaque a figura sempre presente do querido Januário Garcia que já se apresentou para estar lá fotografando o evento;
5) Os intelectuais negros até agora neca. Como seria importante, por exemplo, um manifesto, um documento de peso onde a massa da intelectualidade negra que, se não me engano, cresceu, se fortaleceu e ainda hoje bebe da ancestralidade africana e duas remanescências, pudesse afirmar a democracia como a predominância das diferenças e não a padronização de uma igualdade proposta pela maioria.
Logicamente isso tudo me faz refletir sobre o Conneb, sobre nosso posicionamento político diante de algumas questões e sobre nossa debilidade como movimento, com uma lógica de gueto que nos encerra em nós mesmos e não nos faz ampliar o discurso.
Quando organizações nacionais do MN olham uma movimentação como esta da Caminhada e não se movimentam algumas considerações podemos tirar daí: a mais óbvia é a lógica do "não tenho nada com isso, eles que são religiosos que se entendam"; mesmo sabendo que de um tempo pra cá virou moda ser "do santo" e mesmo gente que mal pisou num candomblé anda por aí batendo cabeça e trocando a bênção.
Uma outra consideração válida é pensar que as organizações simplesmente não se atinam - e isso me assusta -, para a realidade dos fatos que estão por trás da mobilização desta caminhada. Não compreendem que a desconstrução religiosa é a parte visível de uma desconstrução muito maior que quer nos fazer, como indivíduos renegar tudo que é preto, tudo que é africano, tudo que é matriz africana, seja isso a religiosidade, seja o samba, seja o simples bater de atabaques nas rodas de capoeiras.
No município de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, algumas escolas que têm aula de capoeira estão proibindo o uso de atabaques. Somente palmas, pandeiro e berimbau! E os professores, em sua maioria negros pobres, precarizados profissionalmente, estão se submetendo a isso para não perder o pão de cada dia. Mesmo entendendo, penso que às vezes é melhor morrer de fome mantendo-se digno do que se rebaixar à traição de sua cultura, mas enfim...
Em Salvador, o Acarajé de Jesus já é uma realidade de alguns anos e a cada dia cresce mais. Do mesmo modo que nos vêem tantas outras informações de apropriação, desvirtuamento e desconstrução de nossa cultura, principalmente pelo viés religioso, mas não só por ele.
Os pentecostais e neo-pentecostais pensam a política desde sempre. Para eles a atuação política não se dissocia da atuação religiosa. Para isso eles têm projetos e um dos projetos que todo grupo político sempre tem é o de tomar o poder, e com eles não é diferente. É o que querem, tomar o poder. E para isso, ao invés de armas, usarão cada vez mais a mídia, o poder de sedução de um discurso religioso que joga todos os problemas do indivíduo na figura de Satã e, principalmente, trabalharão cada vez mais e com mais sofisticação com a ignorância de nosso povo.
É isso que está em jogo. E é a isso que muitos setores estão passivamente assistindo. Simplesmente achando que nao é com eles. No entanto, cada casa de candomblé que é agredida é sinal de que, amanhã, o simples fato de usar uma bata, um colar, ou um cabelo afro, fará com que mesmo uma pessoa que nem religiosa seja, possa vir a ser agredida por um fundamentalista ignorante que acha que apenas o deus dele é real.
E com isso vamos criando entre nós o ódio religioso e a intolerância irá grassando cada vez mais, até que os poucos restantes caiam e os omissos de sempre simplesmente digam "não é comigo" ou pior ainda "eu não fui porque não me chamaram". É dose!!
Marcio Alexandre M. Gualberto
Editor do blog: Palavra Sinistra
Integrante da Rede Mamapress e colunista de Afropress
Membro do Conselho Editorial da revista Raça Brasil

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