quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Le Monde: Por que o mestiço Obama se define como negro


Oriundo da união de uma mãe branca americana com um queniano negro, Barack Obama declara-se como sendo o primeiro "candidato negro" à eleição presidencial da história americana. A afirmação poderia parecer incongruente. Mas, nos Estados Unidos, este não é o caso. Neste país, ele é "negro" pela simples e excelente razão de que ele afirma sê-lo: nos Estados Unidos, a identificação racial - ou étnica, uma palavra mais empregada nos últimos tempos - não é apenas codificada no plano institucional, nos formulários de censo e pelas administrações. Ela é também uma questão de vontade individual.
Por Sylvain Cypel, do Le Monde

Cada cidadão identifica sua própria "identidade racial" ou "étnica" numa lista que lhe é submetida, sabendo-se que o termo de "raça" não possui neste país a conotação fortemente pejorativa que ele adquiriu na Europa. Pelo fato de se referir aos Estados Unidos, este artigo emprega, portanto, esta palavra no sentido que lhe é atribuído neste país. De fato, o termo nunca chegou a ser definido pelo censo americano, mas, de maneira alguma ele vem questionar a afirmação da unicidade da raça humana.
Atualmente, o censo americano divide a população em cinco grandes categorias chamadas de "raciais", uma étnica (os hispânicos), uma categoria "Outros" e 63 subcategorias. Contudo, nem sempre as coisas foram apresentadas desta forma. Sobretudo, pelo fato de que essas novas identidades só começaram a ser reivindicadas pelos seus detentores há cerca de vinte anos. E, mais precisamente, desde o período em que a imigração, que havia deixado então de ser maciçamente européia e branca, tornou caducas as antigas categorias.
Durante muito tempo, os Estados Unidos reconheceram apenas duas categorias: os "brancos" e os "negros". Uma terceira - "Outros" - reagrupava no mesmo saco os mexicanos, os ameríndios, os chineses, os japoneses, etc. Em 1907, os brancos estavam divididos em três subcategorias: os "nórdicos" ou "teutônicos", os anglo-saxões, os germânicos e os escandinavos, ou seja, os verdadeiros "caucasianos", considerados como integrantes da "elite"; os "alpinos", também chamados de "eslavos" (da Europa central e oriental) e os "mediterrâneos". Os "judeus" formavam uma subcategoria particular. Até o ano de 1943, apenas os brancos e os negros podiam tornar-se cidadãos americanos.
O primeiro censo (1790) considerou que os negros, quer eles fossem escravos ou livres, seriam contabilizados como "três quintos de uma pessoa". Os ameríndios, por sua vez, tinham valor zero. O censo não levou em conta a sua existência. Foi preciso esperar por quase um século (1870) para que uma subcategoria de "ameríndios" visse a luz do dia.
Em 1912, o Congresso debateu a seguinte questão: os italianos, dos quais muitos, oriundos do Mezzogiorno, tinham a pele "bronzeada", eram mesmo brancos? Até 1967, os casamentos "entre pessoas de raças diferentes" permaneceram proibidos em certos estados americanos. Além disso, até 1970, todo e qualquer cidadão que tivesse sangue negro poderia ser incluído pelo censo apenas na categoria "negro", o que era o caso dos mulatos, dos quadrarões (que tivessem um quarto de sangue negro) ou até mesmo dos oitavões (com um bisavô negro entre oito).
Multiplicação dos casamentos mistos
No espaço de duas gerações, tudo foi transformado por completo. A única coisa mantida foi a utilização de critérios raciais nos formulários do censo. Três categorias com características próprias foram acrescentadas: os "hispânicos" em 1980, os "ameríndios" em 1985, e, por fim, os "asiáticos". Além disso, desde 2000, o recenseado tem o direito de assinalar duas casas. Por exemplo: "Hispânico" e "Negro". Ele pode também identificar-se apenas etnicamente, e não racialmente: foi esta a opção escolhida por 42% dos hispânicos, quer por uma questão de princípios, quer porque as suas origens são múltiplas, quer, para aqueles a quem isso diz respeito, porque eles não desejam se identificar como "negros". Barack Obama, por sua vez, colocou uma cruz numa única casa, a de "africano-americano ou negro". Ele não é o único a ter feito esta escolha.
Por ocasião do censo mais recente, o de 2000, em meio à população que se identificou como oriunda de duas raças, cerca de um milhão de pessoas se declararam como mestiços brancos/ameríndios, 835.000 como mestiços brancos/asiáticos, e apenas 727.000 como mestiços brancos/negros, ao passo que esses últimos são respectivamente 17 vezes e 3,5 vezes mais numerosos do que os ameríndios e os asiáticos.
No total, apenas 2,5% dos americanos se declaram mestiços (oriundos de duas raças ou mais), o que é uma proporção muito aquém da realidade. Além disso, um número sempre crescente de demógrafos vem se referindo à noção de "hibridismo" racial. Isso porque, com a multiplicação dos casamentos mistos e com o aumento das reivindicações de origens múltiplas, a proporção dos "híbridos" vem aumentando sem parar.
Branco, eu? Não, obrigado. . .
Os cruzamentos entre as 63 subdivisões que existem nos formulários do censo permitem atualmente chegar à conclusão de que existem 126 identidades étnicas e/ou raciais diferentes nos Estados Unidos. Mas, por exemplo, a categoria étnica "árabe-americano" não existe. Por enquanto, os cidadãos originários dos países da África do Norte e do Oriente Médio (do Líbano até o Kuait) se declaram como "brancos".
Nos dias que se seguiram aos atentados de 11 de setembro de 2001, alguns grupos ultraconservadores manifestaram o desejo de ver esta distinção ser criada. O objetivo era transparente, e alguns deles nem sequer esconderam sua intenção: a sua proposta se inscrevia como mais uma peça no arsenal das medidas aptas a favorecer a "guerra ao terrorismo". Desde então, eles passaram a contar com o apoio do American Arab Institute (Instituto Árabe-Americano), o lobby árabe em Washington, que também solicita a criação dos subgrupos dos "americanos médio-orientais e dos norte-africanos", mas eles não obtiveram sucesso até o presente momento.
O crescimento exponencial do etnicismo nas identidades, e os benefícios que proporciona o fato de pertencer a uma etnia minoritária (cotas de contratações em empresas, cotas de ingressos nas universidades, etc.) fazem com que um número crescente de lobbies particularistas, tais como o Arab American Institute, vem solicitando a criação de novas categorias. "Muitos membros de grupos identitários que antes faziam lobby para serem declarados como brancos enxergam atualmente uma vantagem em serem identificados como não-brancos", escreveu um editorialista no Wall Street Journal de 12 de junho.

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