terça-feira, 30 de setembro de 2008

Hagamenon Brito: Eu preciso tomar vergonha na cara

Texto publicado no Correio da Bahia em Março de 2008. Salvador 459 anos.
Vale a pena conferir...
Anoiteço, amanheço em homenagem a vocês, meus 2.892.625 filhos. Completo 459 anos dia 29, mas, mesmo ainda bonita, estou triste. Capital da alegria? Tenho minhas dúvidas. Não renego as minhas enormes festas populares e, tampouco, o fato de ser a metrópole mundial com maior número percentual de negros localizada fora da África, o continente-mãe do homem.

Mas estou blue, muito blue. E tenho vários motivos. A começar pelo massacre diário dos meus rebentos negros e pobres, abatidos por grupos de extermínio e esquecidos como meros números estatísticos. Garotos de periferia que crescem na mira desconfiada da polícia. Quem vai pagar por isso? Quem se importa realmente? Os vereadores? O prefeito? Jaques Wagner?

O sangue e as lágrimas parecem comover apenas os parentes dos mortos. A axé music, por exemplo, o gênero musical com maior influência sobre a minha população, nem sequer consegue perceber a importância que teria se os seus principais artistas se manifestassem sobre o assunto em entrevistas, se fizessem um grande show de desagravo. São celebridades ocas?

Artistas não precisam emitir opiniões sobre tudo, é verdade, mas às vezes é necessário. O extermínio dos meus filhos negros e a impressionante escalada da violência na cidade são assuntos urgentes. Diante deles, exige-se atitude. Não sou um paraíso tropical, nunca fui, embora a propaganda oficial diga o contrário. Atualmente, contudo, a violência é maior.

Gosto de ver Caetano se posicionar contra o aumento dos gabaritos na orla, uma estupidez aprovada em tempo recorde pela Câmara e sancionada pelo prefeito João Henrique Carneiro para atender a interesses de empresários e imobiliárias. Com o novo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, hotéis de até 18 andares podem ser erguidos em trechos da orla.

Em 1982, o velho tropicalista já cantava: “A mim me bastava que o prefeito desse um jeito/ Na cidade da Bahia...” (Ele me deu um beijo na boca). Se nenhum deu jeito antes, não será o atual alcaide que vai dar. O seu maior talento é chorar de modo constrangedor em discursos e outras situações públicas, feito um adolescente diante de grandes pressões.

Tom Zé fez uma canção cujos versos traduzem a minha revolta contra o novo PDDU: “Doce suave Salvador Bahia/ Que Caymmi deu à luz um dia/ Ameaçada está pela usura/ De construir torre de toda altura/ Beira da praia, Praça Cayru/ Orla da Barra, Mercado Modelo/ Nada escapa desse aperta-cu...”. Aperta-cu? Não só ele meu caro, mas todos os buracos do corpo.

É, coisas estranhas têm acontecido. O que leva um órgão da prefeitura municipal a mandar seus fiscais demolirem um terreiro de candomblé construído há três décadas, como o que fizeram com o Oyá Unipó Neto, no Imbuí, dia 27 de fevereiro? Ignorância cultural? Racismo em plena Roma negra? Intolerância religiosa? Burrice política? Todas as alternativas.

Irmã Dulce e Mãe Menininha do Gantois, rogai por todos os meus filhos, brancos, negros, pardos... Até quando a maioria deles será tratada com negligência pelos (podres) poderes públicos? Quando chegará ao fim a idéia de que andar de ônibus é coisa de quem não tem grana para comprar um carro? Quando minhas ruas e bairros terão um transporte público do bem?

Autoridades e políticos não são os únicos responsáveis pela minha melancolia. Os meus filhos também não são santos – sei disso desde 29 de março de 1549, quando Tomé de Sousa me fundou. Eles não sabem viver em coletividade, são barulhentos, folgados, não respeitam a intimidade do outro, não lutam muito pelos seus direitos e prestam serviços de modo ruim.

***

Esqueço minha beleza, praias, calor humano, Carnaval, baianas, museus, fortes, igrejas, terreiros... Esqueço Iemanjá, Bonfim, Pelou-rinho, os personagens de Jorge Amado, as canções de Caymmi, os versos de Gregório de Mattos... Esqueço o berço do samba, o acarajé, o bobó de camarão, a água-de-coco, a brisa no final da tarde... Esqueço a luminosidade, os santos, os orixás... Esqueço tudo.

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