quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Liberdade para escolher



Fabiana Oliveira

Cerca de 10 mil representantes de diversas religiões e povos historicamente discriminados se reuniram nas ruas de Copacabana, Zona Sul, para mostrar que quando há respeito é possível sim haver diálogo. O movimento que culminou na “Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa” teve início ainda em janeiro, após publicação no portal Viva Favela da reportagem
“Liberdade Religiosa”, denunciando a discriminação sofrida por adeptos de religiões de matriz africana em comunidades do Rio.
Segundo o coordenador nacional do Coletivo de Entidades Negras (CEN), Marcos Rezende, a matéria serviu como um elo de ligação entre os diversos casos de intolerância religiosa ocorridos no Brasil, que vão desde ofensas de todos os tipos à depredação e derrubada de templos. Além disso, foi base para um dossiê encaminhado ao governo federal pelo CEN.
“Essa matéria cir
culou entre os adeptos de religiões de matriz africana e fez com que as pessoas começassem a perceber que o que acontecia não eram atos isolados. Começamos a sentir a necessidade de juntar, de fazer uma mobilização que serviu para pautar a solicitação de uma CPI de combate à intolerância religiosa“, lembrou Marcos Rezende.
Membro da Congregação em Defesa das Religiões Afro-Brasileiras do Rio Grande do Sul (Cedrab), Baba Dija de Iemanjá, veio de longe para denunciar as freqüentes perseguições sofridas pelos adeptos do batuque - o mesmo que candomblé aqui - no Sul. Segundo o sacerdote, criar leis que defendam os cultos religiosos pode ser uma saída para o fim das violações:
“Em Porto Alegre é comum jogarem sal na porta dos terreiros, sofrermos com abordagens agressivas. Temos que vencer esta situação por meio das leis”.
Além da discriminação, os adeptos das religiões de matriz africana enfrentam outras dificuldades. No ano em que se comemora 100 anos de Umbanda no Brasil, o morador da Comunidade Santa Marta, em Botafogo, Zona Sul do Rio, Antônio Guedes, 45 anos, não tem muito a comemorar. Ele conta que dos cinco centros existentes no Santa Marta, atualmente não há mais nenhum.
“As pessoas responsáveis pelos centros da comunidade foram falecendo, as igrejas evangélicas, que normalmente associam nossa religião a coisas ruins foram crescendo e com isso, aos poucos, eles acabaram aqui. Normalmente esses centros enraízam mais nas Zonas Norte e Oeste e na Baixada Fluminense”, lamenta.
E parece que não só os centros têm mais espaço no interior do Rio. O povo cigano, cuja maior concentração está na Baixada Fluminense, juntamente com adeptos do Movimento Hare Krishnas também estiveram presentes na caminhada.
“Os ciganos são uma nação dentro de outras nações por isso sempre fomos discriminados”, diz a advogada Mirian Stanescom, primeira cigana a ter diploma universitário no Brasil. E completa: “Atualmente estou no Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial. È a primeira vez que o governo está olhando para o nosso povo”.

Unindo religião e cultura
Reunindo diversos elementos da cultura afro-brasileira, mensalmente o pároco da cidade de Rio Novo, em Minas Gerais, Guanair da Silva Santos, 46 anos, celebra o que convencionou chamar de missa afro:
“Quando celebramos a missa, a partir da experiência cultural, usamos o atabaque, agogô, o colorido, muita folhas e a partilha da comida, todos elementos da cultura africana”.
O padre da Paróquia Nossa Senhora da Conceição é o único da cidade, que tem cerca de 8500 habitantes, e segundo ele, antes de começar a celebrar as missas afros, foi necessário toda uma preparação com os católicos do local. Para ele, estar presente na caminhada teve um motivo todo especial.
“Embora já tenha 120 anos do fim da escravidão no Brasil, ainda temos muito preconceito. O que me motivou estar aqui é o trabalho que há 20 anos realizamos por meio do instituto Mariama, sobre estudo das tradições afro-brasileiras no contexto da ação pastoral da igreja católica no Brasil”.
A caminhada também teve espaço para os grupos de dança. Maria Isabel, 21 anos, é católica e há cinco anos participa de um grupo de afoxé em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. A jovem acredita que é possível aprender a respeitar e conviver harmoniosamente com diferentes religiões.
“Gosto muito do afoxé. No grupo cada um tem a sua religião. Mas já fui discriminada porque as pessoas acham que dança afro é macumba, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Inclusive tem uma moça evangélica que sempre participa das apresentações do grupo e adora”.
Confira mais fotos na galeria
"Juntos contra a intolerância".
Fonte : Viva Favela

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