terça-feira, 28 de outubro de 2008

Construção da identidade étnica através de contos e mitos de matriz africana.

Maria Luísa Passos*

No decorrer da humanidade, as obras da literatura universal veiculadas e narradas por Andersen, Charles Perrault, Irmãos Grimm, La Fontaine, entre outros, apenas nos trouxe referências identitárias a partir de um segmento étnico, os europeus. Diante desse fato não estou querendo preconizar a desvalorização ou desmerecimento dessas obras ou da cultura desses povos. O que se pretende ao utilizar os contos e mito de matriz africana é promover uma reparação no que diz respeito aos marcos civilizatórios africanos e seus bens materiais e imateriais que foram e são tão importantes quanto a dos demais povos que contribuíram para a formação da nação brasileira.
É fato inconteste que a população negra é maioria no Brasil. “De acordo com a pesquisa, feita com base nos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil terá a maioria de sua população negra, ou seja, mais da metade dos brasileiros, em 2010. A pesquisa considera negros os brasileiros que se declaram pretos (termo utilizado pelo IBGE) e pardos”.
Apesar deste fato, a maioria das obras literárias sobre literatura infantil e infanto - juvenil veiculada nos sistemas de ensino contemplam apenas valores eurocêntricos (valores referenciados a partir da cultura ocidental). Sendo assim, a criança afro-brasileira não tem acesso a uma literatura que exponha os valores e a história dos seus ancestrais. Por isso concordo com Francisca Sousa quando em seu artigo “Linguagens Escolares e Reprodução do Preconceito”, faz o seguinte relato: “observamos, ainda, que quando os textos, livros ou histórias se referem à pobreza, violência e outras mazelas sociais, geralmente, os negros aparecem nos personagens, nas ilustrações e no conteúdo do texto, não raro como protagonistas. Isto vale também para os programas de TV, jornais e revistas. Já nos livros de contos de fada, com príncipes, princesas e heróis, a presença negra é praticamente inexistente, predominando aí os personagens brancos, não raros loiros”.(SOUSA, 2005, p.110). Essas referências acabam não contribuindo para a auto-estima das crianças negras. Contudo, para que de fato a reparação com relação às mazelas que a escravidão ocasionou aos povos africanos e seus descendentes possam também ser intensificada no âmbito da literatura, recomenda-se a utilização de um estilo literário que promova com muita eficiência as relações entre o eu e o outro.
De acordo com a pesquisadora Marly Amarilha (2004 p.19).
Essa estrutura, portanto, atinge o receptor do ponto de vista emotivo e cognitivo. Nesse processo, o receptor da história envolve-se em eventos diferentes daqueles que está vivendo na vida real e, através desse envolvimento intelectual, emocional e imaginativo, experimenta fatos, sentimentos, realizações de prazer, frustrações podendo assim, lembrar, antecipar e conhecer algumas das inúmeras possibilidades do destino humano. Pelo processo de viver temporariamente os conflitos, angústias e alegrias dos personagens da história, o receptor multiplica as suas próprias alternativas de experiências do mundo, sem que com isso corra algum risco.
Dessa forma a utilização de contos e mitos africanos é de grande importância tendo em vista que os leitores poderão identificar-se com as narrativas que trarão aspectos que condizem com a sua realidade e com personagens que vivem problemáticas semelhantes as suas, podendo assim reelaborar e refletir sobre o seu papel social a partir de uma identidade étnico-racial. A utilização desse modelo textual também irá romper com os estereótipos da literatura dominante que impunham um discurso discriminatório onde as crianças negras eram maciçamente obrigadas a se reconhecerem como: "feia, preta, fedorenta, cabelo duro", iniciando o processo de desvalorização de seus fenótipos individuais, que interferem na construção da sua identidade de criança.
Nesse sentido a educadora e pesquisadora baiana Ana Célia da Silva, (2004, p.57) afirma que:
Ao veicular estereótipos que expandem uma representação negativa do negro e uma representação positiva do branco, o livro didático está expandindo a ideologia do branqueamento, que se alimenta das ideologias, das teorias e estereótipos de inferioridade/superioridade raciais, que se conjugam com a não legitimação do Estado, dos processos civilizatórios indígena e africano, entre outros, constituintes da identidade cultural da nação.
Atentando à observação apresentada acima, diríamos também que a utilização de contos e mitos de matriz africana é um material didático que possibilitará aos educandos negros uma interação com conteúdos que vão despertá-los para uma revisão com relação aos conceitos e preconceitos a cerca do continente africano, compreendendo a importância do mesmo para a humanidade. Esse aprendizado, certamente elevará a sua auto-estima, pois a partir dos conteúdos históricos dos contos os aprendizes vão saber que são oriundos de uma civilização que contribuiu muito para os estudos relacionados à medicina, astronomia, arquitetura, matemática, literatura, entre outros.
Os contos por serem uma obra literária de caráter simbólico e significativo possibilitam uma comunicação dinâmica com as simbologias imaginárias, atuando como desbravadores da conquista de uma auto-estima pautada pela visibilização positiva com relação à cultura dos povos de matriz africana, tendo em vista que, na maioria das vezes, as obras infanto - juvenis literárias veiculadas eram carregadas de textos discriminatórios onde os personagens negros exerciam papéis de subserviência, escravizados, ocupando cargos e funções de menos prestígio no contexto social. As imagens ilustrativas caricaturadas, associando a figura dos povos africanos a animais reforçavam os estereótipos de que em África existe apenas uma referência civilizatória habitada apenas por animais selvagens. E o que fazer acerca dos prejuízos causados historicamente pela negação das heranças culturais afro-brasileiras?
Diante dessas reflexões segue umas das obras literárias analisadas A mesma poderá ser encontarda no livro Ilê Ifé O Sonho do Iaô Afonjá (Mitos Afro-brasileiros) de Carlos Petrovich e Vanda Machado, publicado pela EDUFBA, no ano de 2000.

CONTO - I
OXUM NA ORGANIZAÇÃO DO MUNDO
Era uma vez, no princípio do mundo, Olodumaré mandou todos os orixás para organizarem a terra. Os homens faziam reuniões e mais reuniões. Somente os homens, as mulheres não foram convidadas. Aliás, as mulheres foram proibidas de participar da organização do mundo. Deste modo nos dias e horas marcadas, os homens deixavam em casa as suas mulheres e saiam para tomar as providências indicadas por Olodumaré.
As mulheres não gostaram de ficar de lado. Contrariadas foram conversar com Oxum. Oxum era conhecida como a “Iyalodê”. “Iyalodê” é um título que se dava à pessoa mais importante entre as mulheres do lugar.
Na verdade parece que os homens tinham esquecido do poder de Oxum para a água doce. E sem a água doce, com certeza, a vida na terra seria impossível.
Oxum estava aborrecida com a desconsideração dos homens. Afinal ela não poderia de forma alguma ficar longe das deliberações para o crescimento das coisas da terra. Ela sabia de tudo que estava acontecendo. Era preciso compreender que todos são importantes para construção do mundo.
Procurada por suas companheiras, conversaram durante muito tempo e por fim a “Iyalodê” comunicou: _De hoje em diante, vamos mostrar os nossos protestos para os homens. Vamos chamar atenção porque somos todos responsáveis pela construção do mundo. Enquanto não formos consideradas, vamos parar o mundo!
- Parar o mundo? O que significa isto? Perguntaram as mulheres curiosas.
- De hoje em diante, falou Oxum, até que os homens venham conversar conosco, estamos todas impedidas de parir. Também as árvores não vão mais dar frutos e as plantas não vão mais florescer, nem crescer. Isto foi dito e isto aconteceu.
Aquela foi uma reunião muito forte. A decisão foi acatada por todas as mulheres. E os resultados foram imediatos. Os planos que os homens faziam começaram a se perder sem nenhum efeito.
Desesperados, os homens se dirigiam a Olodumaré e explicaram como as coisas iam mal sobre a terra. As decisões tomadas nas assembléias não davam certo de forma nenhuma.
Olodumaré ficou surpreso com as más notícias.
Depois de meditar por alguns instantes perguntou:
- Vocês estão fazendo tudo como eu mandei?
Oxum está participando destas reuniões? Os homens responderam: _Veja senhor, estamos fazendo tudo “direitinho” como o senhor mandou. Agora, este negócio de mulher participando das nossas reuniões… isto aí, a gente não fez assim não. Coisa de homem tem que ser separado de coisa de mulher.
Olodumaré falou forte:
- Não é possível. Oxum é a orixá da fecundidade. É quem faz desenvolver tudo que é criado. Sem Oxum o que é criado não tem como progredir. Por exemplo, vocês já viram alguma coisa plantada crescer sem água doce?
Os homens voltaram correndo para a terra e cuidaram logo de corrigir aquela grande falha. Quando chegaram à casa de Oxum, ela já esperava na porta, fazendo jeito de quem não sabia o que estava acontecendo. Aí os homens foram chegando e dizendo:
- Agô Nilê! (com licença).
- Omo Nilé ni ka agô (filho da casa não pede licença).
Desse jeito ela os convidou a entrar em sua casa. Conversaram muito para convencer a Oxum. Eles pediram que ela participasse imediatamente dos seus trabalhos de organização da terra. Depois que ela se fez bem de rogada, aceitou o convite.
Não tardou e tudo mudou como por encanto.
Oxum derramou-se em água pelo mundo. A terra molhada reviveu. As mulheres voltaram a parir. Tudo floresceu e os planos dos homens conseguiram felizes resultados. Daí por diante, cada vez que terminavam uma assembléia, homens e mulheres cantavam e dançavam com muita alegria, comemorando o reencontro e suas possíveis realizações:
“ Araketo ê Faraimará”
O conto Oxum na organização do mundo mostra outra perspectiva com relação ao lugar que a mulher ocupa na sociedade, ele desmonta a ideologia da mulher submissa às deliberações masculinas e traz à tona uma reflexão que nos remete à ancestralidade tendo em vista que as mulheres negras sempre foram guerreiras a exemplo de Rainha Nzinga de Angola, embaixatriz em Luanda, durante o reinado do seu irmão e travou luta sem quartel durante trinta anos contra os portugueses, pela independência/sobrevivência do seu povo. ; Dandara uma das guerreiras do quilombo de Palmares, primeira república democrática do Brasil,mantendo a resistência de um quilombo que sobreviveu por mais de 100 anos; Luiza Mahin mãe do poeta abolicionista Luiz Gama e possivelmente uma das articuladoras da Revolta dos Malês, movimento de 1835 que é assim conhecido,por serem chamados de Malê os negros muçulmanos que a organizaram. A expressão malê vem de imalê, que na língua iorubá significa muçulmano. Portanto os malês eram especificamente os africanos que professavam o islamismo, a religião de Maomé. (Cf ILÊ AIYÊ, 2002, p.12.).
Ao olhar o entorno das comunidades onde as crianças negras residem e estudam, geralmente são comunidades populares, localizadas em bairros periféricos. É possível observar que na maioria das vezes as mulheres são as chefas de família. São elas que sempre vão às reuniões da escola, acompanham os filhos nas festinhas da escola e dos amigos e ao mesmo tempo criam estratégias de sobrevivência, quando não compõem o mercado de trabalho formal, atuando como quituteiras, lavadeiras, comerciantes, empresárias, assim como, Dinha do Acarajé (in Memória), Alaíde do Feijão entre outras. Contudo, dentre as estratégias de luta pela sobrevivência de combate ao sistema escravista e as desigualdades, a literatura também vem sendo um veículo propagador da resistência como explica a pesquisadora Florentina Souza em seu ensaio publicado na revista Palmares:
Os afro-brasileiros já vinham de há muito instalando um desconforto na produção textual brasileira através da produção de textos jornalísticos e literários que debruçavam-se sobre suas histórias e a cultura, dialogando com uma tradição político-reivindicatória(...)Assim os escritores e escritoras de origem afro-brasileira vão falando de si, de suas famílias, da história de seu grupo e rasuram a pretensa universalidade/ocidentalidade da arte literária.(2005, p.72)
Essa arte literária citada pela pesquisadora acima sempre esteve presente nas cantigas de rodas, nos cânticos dos orixás, na musicalidade, nas festas populares, nos versos, prosas e prosas de escritores/as como Luiz Gama, Cruz e Souza, Carolina de Jesus, Solano Trindade e
atualmente na firmeza e dignidade dos poetas dos Cadernos Negros do grupo Quilombhoje.
* Educadora do Ceafro e graduada em Pedagogia (BA).
Fonte: Ìrohìn

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