domingo, 5 de outubro de 2008

Negras Jovens e Feministas: Nossos passos vêem de longe…

Por Latoya Guimarães*

Rumo ao I Encontro Nacional de Jovens Feministas, por vezes fomos surpreendendidas com questionamentos que interpelava-nos sobre o lugar de onde falávamos. Ouvíamos: de que lugar as Negras Jovens Feministas estão falando? Nossa resposta não poderia ser outra: falamos do lugar das indocumentadas, aquelas de quem a história "oficial" não cita nomes e sobrenomes; as resistentes Mulheres Negras seqüestradas em áfrica e escravizadas no Brasil, as guerreiras quilombolas as sobreviventes do 14 de Maio de 1888.
Muito pouco foi escrito sobre as lutas emancipatórias dessas Mulheres Negras e esse pouco do que sabemos foi nos transmitidos por nossas griots acervo ancestral vivo que com sua sabedoria preservaram histórias e segredos de Yabas, da dialeticamente matricialidade africana de GUELEDES E YALODES; de negras mulheres cujas existências foram profundamente marcadas e diferenciadas pela resistência a opressão de raça e gênero impostos pelo regime escravista, patriarcal e capitalista.
Negras Mulheres CANDACE que se insurgiu contra o status que durante séculos relegou a heróica resistência negra feminista a invisibilidade; Negras mulheres que romperam com o silêncio envolto do "matriarcado da miséria" e tomou para si a responsabilidade de reescrever a história a partir de um novo referencial do ser mulher fundamentada na experiência histórica a qual as mulheres negras estiveram submetidas.
Percorrido boa parte do caminho de perguntas e respostas que não se esgotam temos a compartilhar um pouco das descobertas são registros ainda carentes de reconhecimento oficial, que narram à trajetória de negras mulheres nomes e sobrenomes como o de Rainha N'zinga, Aqualtune, Anastácia, Luiza Mahim, Maria Firmina dos Reis, Auta de Souzas, Mãe Aninha, Mabel Assis, Antonieta de Barros, Laudelina de Campos Mello, Glaucia Matos, Carolina de Jesus, Mãe Menininha, Lélia Gonzáles, Alzira Rufino, Mãe Beata de Iemanjá, Alice Walker, Edna Roland, Luiza Bairros, Matilde Ribeiro, Ângela Davis, Fátima de Oliveira, Mãe Silva de Oxalá, Sueli Carneiro, Vilma Reis, Elena Teodoro, Lucia Xavier, Cida Bento, Mãe Estela, Benedita da Silva, Ivete Sacramento, Jurema Batista - nossa, são tantas que certamente não lembrei alguma importantíssima!!!

Quem não leu as lembranças de Olga de Alaketu, precisa ler, porque, para entender estrelas, as nossas estrelas, é preciso recorrer às suas lembranças.

Nesse resgate histórico contamos com a solidariedade de quem sabia que precisávamos saber o espaço que o ser Negra ocupava no universo feminista, para, então, poder nos posicionar como sujeitas de um processo, onde, só desejamos estar se na condição protagonistas de pensadoras e executoras; postas as angustias, dadas algumas respostas, e formuladas outras tantas que sabemos teremos que buscar e construir as respostas no espaço e no tempo Negro Feminista; tomamos a decisão de assumir a realização do I Encontro Nacional de Jovens Feministas como um agenda prioritária das Negras Jovens.
Tomada a decisão política, havia muito trabalho a ser feito e precisamos nos organizar para coletivamente garantir nossa presença e influência no I Encontro Nacional de Jovens Feministas, assim, chamamos uma reunião com todas as Negras Jovens Feministas organizadas em coletivos e organizações negras e definimos uma pauta comum rumo ao I Encontro Nacional de Jovens Feministas que incluía a construção de um documento, ter negras Jovens participando da comissão organizadora, Ter Negras Mulheres como expositoras e palestrantes nas atividades do encontro, realizar um grupo focal entre as Negras Jovens presentes no encontro, produzir um fanzine e buscar apoio para garantir a presença das Negras Jovens no I Encontro Nacional de Jovens Feministas.
Em Março de 2008, lançamos uma Carta Aberta que em seu primeiro parágrafo cumprimenta os 20 anos de resistência do Movimento de Mulheres Negras contemporâneo, e dialoga com os feminismos e as juventudes.
A presença Negra Jovem se fez presente em toda a concepção do I Encontro Nacional de jovens Feministas. "Demarcamos nosso espaço político e enegrecemos o debate" nossa cara preta, nosso pensamento negro feminista influenciou toda a proposta política a carta de princípios da Articulação Brasileira de Jovens Feministas, no Dialogo inter-geracional, nos painéis expositivos, nas plenárias, nos grupos temáticos, no grupo específico de Feminismo Negro, onde, criamos um momento nosso para falar de nós e entre nós sobre o sentimento que nos levou até o encontro, nossa participação, nossas perspectivas de atuação e fortalecimento das Negras Jovens Feministas e a definição da realização de um Encontro Nacional de Negras Jovens Feministas, enfim, sobre nossos desejos de construir relações e alianças solidarias e de parceria com jovens feministas que compartilhavam diferentes identidades étnicas e políticas.
Concluímos que o X Encontro Feminista Latino Americano e Caribenho foi um Marco político referencial o despertar de nossa identidade política de Negras Jovens Feministas referendamos dois importantes momentos do X EFLAC como essenciais, sendo, a Reunião "Mulheres Negras Anônimas em Movimentos" & a Oficina "Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas: Santiago +5 e Marcha Zumbi +10: desafios e perspectivas" cuja realização possibilitou uma diálogo entre negras mulheres de diferentes gerações e lugares; as vozes de negras mulheres reafirmando suas identidades Negra Feminista teve efeito autorizativos para que assumíssemos nosso Jovem Feminismo Negro, porque não desejávamos criar nada que fosse destoante da luta negra feminista empreendida até aquele momento, reconhecíamos e nos orgulhávamos da história de nossas heróicas Negras Feministas desejávamos vivenciar a transmissão de conhecimentos inter geracional e compartilhar dessa história Negra Feminista marcada pela dor, pelo abandono, pelas ausências mais escrita com autonomia com rebeldia e verdades que rompem com o mito e inverdades históricas.
A postura política de autonomia e enfrentamento adotada pelas Negras Jovens no I Encontro Nacional de jovens feministas gerou tensões que desafiaram as jovens feministas a refletir a diversidade e as desigualdades do movimento feminista e de juventude, as Negras Jovens trouxeram elementos provocativos ao debate que revelavam a omissão histórica do feminismo com a luta de combate ao racismo e reclamavam outra atitude e relação entre mulheres que se pautasse pela solidariedade e responsabilidade com a libertação de todas as mulheres porque a luta feminista pela emancipação das mulheres é e deve ser uma luta contra toda a forma de opressão que limite a liberdade e autonomia das mulheres.
Um novo livro da história das mulheres está sendo escrito a muitas mãos e versões mão negras, mãos orientais, mãos indígenas, mãos brancas, mãos jovens mãos lésbicas formam uma grande concha de retalhos de versos, de cantigas, de rimas de prosa são as diferentes formas que as mulheres escolheram para contarem suas histórias e nesse livro escrito pelas sujeitos ocuparemos o lugar de SANKOFA para tanto se faz necessário nomear minhas cúmplices nessa caminhada as NEGRAS JOVENS as novas formuladoras do pensamento Negro Feminista, sem as quais essa construção jamais teria sido possível; não poderia deixar de citar: Elenira Oninja, Jackeline Romio, Larissa Amorim, Chindalena Ferreira, Jacqueline Cipriany, Mafoane Odara, Thais Zimbawe, Raquel Quintiliano, Alline Andrade, Carla Akotirene, Lia Maria, Deise Queiroz, Vanessa Becos, Cássia Donato, Marta Almeida, Lajara Janaina, Rebeca Tarique, Janaina REFEN, Lia Lopes, Luana Marley, Fernanda, Flavia, Ranoy, e tantas outras cujos nomes me falha a memória, mais que também estão nessa trajetória.

Sim nossos passos vêm de longe, são passos presentes no ontem, no hoje e projetados para o amanhã, o futuro.

"NOSSO FEMINISMO SE INSPIRA NA LUTA DAS GUERREIRAS AFRICANAS"
* Integrante da Articulação Brasileira de Jovens Feministas e das Negras Jovens CEN.

Latoya Guimarães
CEN - Coletivo de Entidades Negras/SP
Articulação Brasileira de Jovens Feministas
MSN: latoyax@hotmail. com
www.cenbrasil.org.br
www.dialogoj.wordpress.com

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