terça-feira, 7 de outubro de 2008

Obama apóia políticas para os negros latino-americanos

Henry Mance - Bogotá - Fonte: BBC Londres

A candidatura de Barack Obama nas eleições presidenciais para os Estados Unidos começa a ser vista como histórica não somente nos Estados Unidos, mas também por alguns líderes negros da América Latina, que esperam que sua corrida pela Casa Branca possa encorajar mudanças em outros países.

Não é a primeira vez que os afro-latino americanos tem olhado em direção ao norte buscando inspiração.

“Obama é um grande ponto de referência para nós”, diz o afro-brasileiro, Senador Paulo Paim.

“Na América Latina, o racismo sempre foi meio disfarçado. Sempre foi dito que ele não existe, enquanto que ao mesmo tempo os negros têm sido mantidos fora das esferas do poder”

Acredita-se que ao menos 110 milhões de latino americanos sejam descendentes de africanos, comparados a uma estimativa de 40 milhões de afro-americanos nos Estados Unidos.

O Brasil nunca teve um presidente negro, a despeito do fato de que os africanos e os descendentes de uma mistura de raças sejam praticamente metade da população.

Além do Haiti e da República Dominicana, que tem maiorias negras, somente a Venezuela e Cuba tiveram líderes negros durante o século XX.

Inspiração realista

Assim, estão os eleitores latino-americanos preparados para eleger presidentes negros?

“Claro, quando eles têm candidatos negros com qualidades e carisma”, diz Epsy Campbell, líder do Partido de Ação dos Cidadãos.

“Os obstáculos não estão nos eleitores, mas nos meios de comunicação e estruturas partidárias que você tem de enfrentar para se tornar um candidato”

O senhor Paim oferece uma visão semelhante: “O dinheiro gasto em uma campanha eleitoral de um candidato negro é muito menor que o dinheiro gasto em uma candidatura de um branco. Meu caso foi uma exceção – foi como eu entrei para o Senado”.

Um atual presidente latino americano que quebrou com esta tradicional prática política é o venezuelano Hugo Chávez.

“Na avaliação de muitas pessoas, Chavez não é considerado negro, mas um descendente de ancestrais multi- raciais”, diz George Reid Andrews, professor de História da Universidade de Pittsburgh.

O senhor Chávez mostrou a si mesmo como um representante da maioria não branca da população venezuelana, contra a elite branca e a classe média, ele assinala.

Aspirações

Embora a identidade racial não seja tão explícita na América Latina como é nos Estados Unidos, comparações entre afro-americanos e afro-latino americanos residem no fato de que ambos os grupos são largamente descendentes de escravos.

Assim, quando afro-americanos pressionaram pelos direitos civis e as ações afirmativas iniciaram em 1960, os líderes negros da América Latina se apressaram em tomar isto como aviso.

“O exemplo dos Estados Unidos e o movimento pelos direitos civis mostraram-nos como eram as questões de consciência coletiva e de geração de oportunidades”, diz a ministra da Cultura Colombiana, Paula Moreno.

Recentemente o US Black Cáucus – o grupo de membros afro-americanos do Congresso – tem promovido avanços por parte dos afro-latinos americanos, ampliando seu perfil internacional e quem sabe até influenciando muitas decisões políticas importantes.

A nomeação da Sra. Moreno como ministra, em 2007, foi vista por muitos como um movimento do governo colombiano para apaziguar os Cáucus à frente de um debate sobre um acordo bilateral de comércio livre.

“A candidatura de Obama marca um novo estágio no reconhecimento e na participação política. Gera a esperança de que nós, como afro-descendentes, podemos aspirar à presidência”, diz o Sr. Campbell, que é visto, ele próprio, como um competidor em potencial à presidência da Costa Rica em 2010.

É no Brasil que os políticos negros tiveram maiores incursões em anos recentes, tendo sido eleitos como governadores de estados e prefeito da maior cidade do país, São Paulo.

“Como o nível de consciência das relações de raça melhorou, porque nós não podemos eleger um presidente negro em um futuro não muito distante?” questiona o Sr. Paim.

Contudo, a Sra. Moreno acredita numa espera significativa por um presidente afro-colombiano. “Eu penso que irá levar muitos anos e quem sabe até décadas, antes que isso aconteça”, ela diz.

Mesmo sem presidentes negros, os afro-latinos americanos irão continuar a exercer uma significativa influência eleitoral.

“Em países como o Brasil, Venezuela e Colômbia, eles tem sido uma parcela muito importante dos movimentos populares de esquerda”, diz o professor Andrews, que compara seu papel ao de afro-americanos no Partido Democrático dos Estados Unidos.

‘Todos Obama’

O Sr. Paim gastou dez anos tentando impulsionar a legislação anti-discriminação através do Congresso Brasileiro, e também é um pioneiro em iniciativas de ações afirmativas.

Paradoxalmente, um dos países que fez maiores progressos no sentido da igualdade racial, Cuba, fez isto depois de depor o Presidente Fulgêncio Batista, que era de ascendência mista africana e européia, na revolução de 1959.

“As posições baseadas em políticas, sob Fidel Castro, beneficiaram grandemente a população negra, pois ao mesmo tempo em que beneficiaram os cubanos pobres, elas beneficiaram os afro-cubanos”, argumenta o Professor Reid.

“Por exemplo, o bom acesso ao cuidado médico para todos imediatamente iniciou a redução das diferenças raciais na expectativa de vida”.

Haverá celebrações pelos afro-latino americanos se o Sr. Obama vencer em novembro.

Mas, não há garantias de que, uma política no sentido da presidência de Obama, em direção à América do Sul, seria influenciada por qualquer desses sentimentos de solidariedade.

Fonte: Senador Paulo Paim

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | JCpenney Printable Coupons