quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Obama na Casa Branca? Um desafio ao racismo americano


Maria Clara Bingemer

Enquanto as bolsas e o dólar continuam barbarizando as cabeças e corações aflitos, enquanto o futuro da economia mundial permanece uma incógnita, enquanto os orgulhosos e tonitruantes EUA ameaçam escorregar perigosamente para o Terceiro Mundo, uma estrela sobe. O nome da estrela, negra, alta e elegante é Barack Obama.
Deveríamos acreditar mais na sabedoria popular, que com seus ditos proclama verdades inapeláveis e eternas.
Assim é quando diz: há males que vêm para bem. Ninguém é insano a ponto de achar que a crise que hoje acontece é positiva.
Todos percebem os dias angustiantes e difíceis que nos aguardam. Mesmo o Brasil e seu otimista presidente, mesmo os ministros da área econômica o admitem. Os sistemas nervosos parecem gangorras quando ao longo do dia a bolsa sobe e desce; o dólar dispara e o Banco Central leiloa para segurá-lo. Ninguém duvida que tudo isso não contribui para a boa saúde do sistema e, sobretudo, da vida humana sobre o planeta.
E, no entanto, se esse é o preço a pagar pela vitória de Obama, para algo terá servido. Ainda há duas semanas olhávamos apreensivos a ascensão de John McCain, que chegava sempre mais perto da Casa Branca. Parecia quase inevitável ver de novo um republicano sentado na presidência da grande potência. Os números o diziam, as estatísticas não mentiam. E o tumulto armado pela candidata a vice-presidente, Sara Palin, nos debates que chegaram a desestabilizar Obama, aconteciam com preocupante recorrência.
Obama é o primeiro afro-americano a ser indicado candidato a presidente por um dos principais partidos políticos americanos. É também o único senador afro-americano na atual legislatura. Dentro da (ainda) racista América, só isto já falaria em seu favor de forma suficiente. Mas sua trajetória pessoal agrega importância ao simples fato de ter lançado candidatura à presidencia dos EUA. Obama representa a novidade, a diferença que se dispõe a entrar no sagrado templo que há décadas, séculos, domina e impera sobre o mundo ocidental.
Diferente por ser negro, Obama é filho de imigrante africano na intolerante terra do tio Sam. Diferente por carregar em suas raízes a cultura tribal africana, juntamente com a pertença islâmica do avô, misturadas à infancia e juventude passadas no Havaí e os estudos em Harvard, a mais prestigiada universidade norte-americana. Diferente por ser advogado vindo de Harvard que se ocupou, no início da carreira, em defender os direitos civis e atuar como líder comunitário até ser eleito para o Senado.
Com toda a sua diferença, Obama disputou as "primary colors" democratas com Hillary Clinton, cheia de brancura WASP e cacife político, herança do marido ex-presidente... e ganhou. Com toda a sua diferença enfrentava McCain fazendo piada sobre o visual de Sara Palin, falando de batons e porcos. Embora não fazendo campanha brilhante, ia para a frente.
E foi então que o sistema explodiu, o dólar enlouqueceu e as bolsas mais ainda. Os Dow Jones e Nasdaq passaram a ter o mesmo valor que José e Joaquim. Viraram pó. Toda a farsa e a inconsistência do governo Bush escancararam-se diante do mundo e, sobretudo, do eleitorado americano. McCain tentou explicar sem conseguir. Bush esbugalhou os olhos e pediu socorro. E a estrela de Obama começou a subir.
Se para isso tiver servido a crise, bendita seja. Para liberar a América e o mundo de que continue e siga em frente o genocídio do Iraque. Para nos dar esperança de que outros genocídios não aconteçam, já que Obama declara que retiraria as tropas imediatamente. Para nos regalar o olhar que verá um afro-americano na Casa Branca. Para nos convencer de que a violência e a injustiça não duram para sempre e de que temos direito a um suspiro de esperança.
E mais: para mostrar que o racismo norte americano finalmente terá um fim glorioso, com um afro descendente sentado no comando da mais poderosa nação do mundo. É simbólico mais que qualquer outra coisa. É confirmador da democracia antes que nada. É esperançoso, porque nos diz que os preconceitos não são eternos e que a macabra memória do Ku Klux Klan e outros
horrores podem definitivamente ser enterrados pela história.
Esperemos... esperemos em Obama que não conhecemos bem, mas pode surpreender-nos agradavelmente. Apesar da crise... é permitido esperar.

Fonte: Amai-vos

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