sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Dicotomia na Cidade do Axé: Água benta no Povo de Santo?


Na manhã do domingo, dia 23 de novembro, aconteceu a IV Caminhada pela Vida e pela Liberdade Religiosa, onde algo significante foi presenciado por todos/as os/as participantes. Ao se aproximar da Ladeira Manuel Bonfim (Ladeira do Bogun), um fotógrafo, tentando localizar um melhor ângulo da belíssima caminhada, foi surpreendido por uma mulher evangélica, que além de molhar o profissional, também começou a lavar as escadarias da sua casa e jogar água nas pessoas que estavam na citada caminhada. A senhora utilizava água como símbolo de aspergir as pessoas que ali estavam presentes - uma forma desrespeitosa, que simboliza o poder do cristianismo deturpado que é pregado no rol dos atuais centros religiosos (Igrejas Neo-pentencostais, Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça, Segmentos da Igreja Católica e etc).

A Caminhada saiu do Busto de Mãe Runhó (final de linha do Engenho Velho da Federação) e passou pela Avenida Vasco da Gama até o Dique do Tororó. Religiosos/as do Candomblé, amigos/as, moradores/as locais e curiosos/as aderiram à chamada para participar da Caminhada do Povo de Santo, que esse ano levou às ruas não só o pedido de respeito, mas também o convite a todos/as os/as praticantes das religiões de matriz africana a denunciarem toda e qualquer discriminação da qual sejam vítimas.

É importante salientar que na Constituição Federal de 1988, no seu artigo 5º parágrafo VI expressa que

É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e à suas liturgias (BRASIL, 1988).

A atitude da citada senhora está relacionada com todas as formas de preconceito que o povo negro, o povo de santo vem sofrendo ao longo da história, por todos os segmentos da sociedade. É com indignação que lembramos o fato que aconteceu no dia 27 de fevereiro deste ano quando técnicos da Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município (SUCOM) demoliram parcialmente o Terreiro Oyá Onipó Neto, localizado na Av. Jorge Amado no bairro do Imbuí, há 28 anos.

A demolição já era aguardada, quando o Jornal A TARDE divulgou a denúncia de perseguição religiosa feita pela mãe-de-santo do terreiro, Rosalice do Amor Divino, Mãe Rosa, contra Sílvio Roberto Bastos, vizinho do terreiro e funcionário da SUCOM. Sílvio estaria entre os denunciantes no processo encaminhado ao órgão e, segundo a religiosa, ele estava “influenciando a superintendente a derrubar tudo”, alegou a Mãe de Santo.

Como se pode compreender que, em uma cidade onde a maioria expressiva de sua população, “[...] cerca de 82,1%, estes entre pretos e pardos” (IBGE, 2006), pode conter gravíssimos casos de intolerância religiosa referentes às Religiões de Matrizes Africanas?

Antônia Garcia, na época Secretária Municipal da Reparação (SEMUR), em entrevista ao jornal A Tarde, avaliou a demolição como “lamentável” e disse que:

O ato da SUCOM demonstra que não há sintonia dentro da prefeitura para combater a intolerância religiosa. Enquanto mapeamos terreiros para preservá-los, a SUCOM toma uma medida unilateral e os destrói. (GARCIA, 2008)

É preciso que mais iniciativas como a IV Caminhada Pela Vida e Liberdade Religiosa realizada no dia 23/11, promovida pelo Coletivo de Entidades Negras e a IV Caminhada Contra a Violência, Intolerância Religiosa e pela Paz realizada no dia 15/11 pelos Terreiros de Candomblé, Grupos Culturais e Comunidade do Engenho Velho Federação, sirvam como forma de garantir a Liberdade Religiosa do povo de santo e de manifestação e mobilização social para o enfrentamento à intolerância religiosa.

Em Salvador, hoje cerca de 1.165 terreiros foram catalogados em uma grande pesquisa sobre religiões de matrizes africanas na cidade, pesquisa essa que foi realizada pelas Secretarias Municipais da Reparação e da Habitação, em parceria com o Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA.

É preciso caminhar tantas vezes forem preciso para que nossos direitos sejam de fatos respeitados. Que isso sirva de denúncia para que esse crime seja combatido de forma enérgica. É inadmissível que ainda hoje todo o povo de santo tenha que passar por essas injúrias. Força para o Povo do Axé e que todos e todas as Orixás nos protejam. Axé


REFERÊNCIAS
VIVAS, Fernando. SUCOM inicia demolição de terreiro na Av. Jorge Amado, Salvador. Fev 2008. A Tarde On Line, disponível em Acesso em: 26 nov 2008.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da Republica Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal. acesso em 26 nov 2008.
Acesso em 26 nov 2008.

** Josafá Araújo é Pedagogo, formado pela Universidade Católica do Salvador, esteve presente na IV Caminhada pela Vida e pela Liberdade Religiosa, de onde flagrou tal episódio, estando munido de fotos que possam contribuir para qualquer eventual processo.


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