quarta-feira, 26 de novembro de 2008

MNU se destaca como grupo Afro

Muitos se queixavam (com razão): faltam livros sobre a história do movimento negro. Na verdade, existem trabalhos acadêmicos esparsos sobre o movimento negro, e que, muitas vezes, ficam inéditos nos arquivos dos cursos de pós graduação das universidades.
Este ano, no entanto, parece que nada será como antes, pois, dois livros teorizando sobre o movimento negro - a partir de diversos olhares- foram lançados no Rio de Janeiro (Museu da República e Livraria Kitabu).
O bom nesta história toda é que os seus autores foram lideranças do movimento negro com traços bastantes distintos no olhar para este mesmo movimento, mas apresentando identidades de militância coincidentes, digamos assim: ambos os autores foram presidentes do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), no Rio de Janeiro, que entrou em decadência a partir do final dos anos 1990 em diante.
O primeiro autor, o fotógrafo Januário Garcia, lançou seu 25 ANOS 1980-2005: O MOVIMENTO NEGRO NO BRASIL (Fundação Cultural Palmares, Brasília, 2008) seguida de uma notável exposição fotográfica que enfocava a luta da militância negra, no Museu da República.
Aliás, Januário, na verdade, em seu livro, se encarrega apenas de nos dar uma belíssima contribuição visual de diversas facetas do MN (marcha de 300 anos da morte de Zumbi, presença negra na serra da Barriga, movimento de mulheres negras, resistência quilombola, religiões de matrizes africanas, diásporas, ações afirmativas, passeatas negras urbanas, personalidades negras, a marcha negra de 1988, entre outros).


Livro de luxo
A produção teórica do livro de Januário - edição de luxo, bilíngüe, capa dura, em papel couchê, 176 páginas, design primoroso, patrocinado pela Fundação Cultural Palmares - coube a artigos previamente encomendados a cabeças coroadas do Movimento Negro Brasileiro como Ubiratan Castro (ex-presidente da Fundação Palmares), Zulu Araújo (atual presidente da Fundação Palmares), Sueli Carneiro Carneiro, o próprio Amauri Mendes Pereira, Hélio Santos, Abgail Paschoa, Oliveira Silveira, Arnaldo Xavier, Nei Lopes, Azoilda Loreto, Ana Célia Silva, Zezito Araújo, Carlos Alberto Medeiros, Júlio Cesar Tavares, Adalberto Camargo, Luiza Bairros, Jacques d'Adeski, Luiz Alberto, Edna Roland, Flávio Jorge Rodrigues da Silva, Hédio Silva Jr, João Jorge, entre outros. Além do mais, o livro tem um charme especial: é apresentado pelo então ministro da Cultura, o compositor Gilberto Gil.
Na verdade, Januário pareceu querer exprimir todas as tendências do movimento negro em seu livro ao ceder espaços para reflexões até de personalidades negras que, diríamos, não são organicamente militantes da causa, mas ligados indiscutivelmente ao mundo afro-brasileiro. Seria, então, uma tentativa de conciliação perante os conflitos e divergências marcantes do movimento? Ou uma proposta de unificação dos diversos discursos e dos dramas de construção de um movimento sempre submerso para a mídia convencional?
No artigo " Retrospectiva histórica do movimento negro", o antropólogo Júlio Cezar de Sousa Tavares, professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFF (Universidade Federal Fluminense), mostra o desenvolvimento do movimento negro urbano em três etapas mais ou menos recentes: 1945 ( criação do Teatro Experimental do Negro), 1978( surgimento do Movimento Negro Unificado) e em 2001( Conferência Mundial de Durban).
São estes três marcos que ele julga fundamentais para se compreender o processo de luta negra e sua ascensão nos setores urbanos brasileiros, passando do combate ao racismo à luta pela igualdade de direitos.
No entanto, uma ressalva: Tavares considera 1988, ano do centenário da Abolição, uma data muito especial, pois, ali, no Rio de Janeiro, em 11 de maio, houve a realização da "maior marcha política da História do Brasil Republicano contra a ditadura racial estabelecida". Por que , então, já que faz estas considerações tão determinantes, ele não colocou 1988 como um ano marcante história do MN ?


Papel da Seppir
Outra afirmação polêmica de Tavares: "Mas o maior desafio, depois destes 25 anos, encontra-se na possibilidade de se realizar o efetivo amadurecimento político dos movimentos negros através da elevação da consciência racial articulada à construção de um projeto nacional. Nesta articulação, a Seppir poderá ser o embrião de um organismo vivo e ativo de reconhecimento das múltiplas tendências, olhares e expectativas do Movimento Social Negro. Mas somente se se aprender a lidar com as diferenças internas sem que se reproduzam os modelos clássicos dos jogos de poder." (pág.15). Aqui, Tavares parece esquecer que a Seppir, embora resultante da mobilização afro-brasileira, é um aparelho ideológico de estado sujeito às todas as injunções/contradições políticas dos grupos que chegam ao poder. Nas listas de discussões raciais da internet, fala-se abertamente hoje que a Seppir - Secretaria Especial da Presidência da República de Promoção da Igualdade Racial - trabalha contra as comunidades negras brasileiras.
Mas continuemos no objetivo central do livro de Januário, que é a documentação histórico-visual, que é deslumbrante, magnífica e competente. Poucas vezes temos repórteres-fotógraficos que manipulem a linguagem visual de forma a produzir amplos significados sobre o real que se apresenta diante da lente. Januário une os dois ângulos; profissionalismo e a militância, que dá amplos ganhos para os dois lados.
Assim, ao irmos folheando o livro, ele nos transfere para as ruas. E surge uma indagação: porque este esplender de negros protestando nas ruas, com faixas, cartazes, gritos, não são estudados aprofundadamente? Estas imagens mostram que existe um Brasil apartado querendo desesperadamente se tornar cidadãos, pois, eles, os militantes negros que passam pelas lentes de Januário, sabem perfeitamente que não podem ser mantidos eternamente como serviçais de uma sociedade que os discrimina sem aparentes motivos, a não ser a ideologia da superioridade racial. Há uma foto histórica: a presença de Stokely Carmichael, fundador dos "Panteras Negras" dos Estados Unidos, na Serra da Barriga, Alagoas, nordeste, onde Zumbi se tornou mito, ao lado de militantes negros como o sociólogo João Romão e a antropóloga Caetana Damasceno. Um pan-africanismo em Palmares?
Pelo lado cultural, há imagens dos blocos afro, das festas de beleza negra, das escolas de samba, dos terreiros da religião afro, ou seja, há uma tentativa de não deixar "nada de fora". Quer dizer, Januário, através desta documentação, talvez queira mostrar que suas lentes sempre se preocuparam em registrar as mais diversas manifestações de sua comunidade, nestes 25 anos de militância.
Neste sentido, Januário dá uma bela contribuição à história do movimento negro brasileiro, pois, não quem não se reconheça nesta seleção de fotografias do Movimento Negro Brasileiro.
A importância do MNU
Outra contribuição interessante é a do cientista social Amauri Mendes Pereira, Phd da Universidade Estadual da Oeste do Estado do Rio de Janeiro (Uezo), também ex-militante histórico do movimento negro e ex-presidente do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN).
Em seu livro TRAJETÓRIA E PERSPECTIVAS DO MOVIMENTO NEGRO BRASILEIRO ( Nandyala, Belo Horizonte, 2008, 128 páginas), Amauri busca outros horizontes de referências metodológicas. Lá tudo é diferente do livro de Januário. Trata-se de uma edição modesta, em papel off-set, onde sua grande contribuição é desenvolver uma certa teoria do movimento negro a partir de momentos históricos marcantes para a luta negra. Assim, é o prioritário para o autor discorrer sobre a militância negra, sem chamar outros companheiros para complementar o trabalho, pois, ele, como antigo militante, tem muito para contar e refletir. Isso torna seu trabalho intrigante, original, palpitante. Agora, tudo indica, estamos assistindo a teorização do movimento negro pelos próprios militantes. Este fato se constitui em situação alvissareira para academia e para a militância em si mesma.
Ao contrário do antropólogo Tavares, aqui, Amauri, que explica emergência e fundamentação do movimento negro no século XX no Brasil, delimita como seu primeiro marco de referência a década 1930, com o advento da Frente Negra Brasileira, em São Paulo. Já Tavares, dá a primeira referência em 1945. Para Amauri, o segundo impulso histórico do MN, foi o surgimento do Teatro Experimental do Negro (TEM), de Abdias do Nascimento, e o Teatro Popular Brasileiro (TPB) , de Solano Trindade, em meados dos anos 1940/50). O terceiro marco foi a criação do MNU (Movimento Negro Unificado), em 1978.
Neste sentido, o MNU sai resgatado em ambos livros como a tendência negra que mais marcou a emergência de um novo conceito de militância nos anos recentes. Aqui: Tavares, no livro de Januário, não cita diretamente o MNU, apenas dá 1978 como ano-histórico para o movimento negro, que foi, efetivamente a data na qual esta agremiação surge e se consolida nacionalmente.
Amauri é co-fundador do MNU, mas sua trajetória toda foi feita no Rio de Janeiro, e se destacou como liderança nos encontros, seminários e congressos de debates raciais e na presidência do IPCN, uma entidade mais ou menos eclética, onde todas as tendências tinham espaço para freqüentar, debater e discutir os destinos da comunidade negra fluminense e brasileira. Neste sentido, ele não tem pejo em reconhecer a importância do MNU - que completou 30 anos, em julho passado- para a disseminação de uma estratégia de luta do movimento brasileiro ainda na ditadura militar. Vejamos como ele descreve a criação do MNU:
Foi uma noite memorável, a de 7 de julho de 1978, nas escadarias do Teatro Municipal, frente à praça Ramos, no centro de São Paulo! Aquela manifestação, fazendo história, desencadearia não apenas a criação do MNU, mas uma guinada de extrema importância no desenvolvimento do Movimento Negro, na forma como ele passou a ser visto pelos meios de comunicação e pelas demais forças políticas da sociedade brasileira (pág.61).
Segundo Amauri, o MNU não foi apenas um momento de explosão emocional da militância negra. Para ele, "foi o momento em que se tornariam visíveis o imenso potencial do Movimento Negro ao mesmo tempo em que a diversidade de perspectivas dos militantes e as profundas debilidades estruturais que comprometiam o seu pleno desenvolvimento".(pág.62)
Até aquela data, o MNU não era MNU, era Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial (MUCDR). Segundo Amauri, apesar da a iniciativa e comando da criação do movimento serem de negros, havia a presença de não negros como judeus e brancos de esquerda, que "chegaram junto". Numa segunda reunião do movimento, em 23 de julho, em São Paulo, colocou-se depois a palavra "Negro" e sumiu as palavras "Discriminação Racial", surgindo assim Movimento Negro Unificado (MNU), que acabou se espalhando por diversos estados. Amauri dá mais detalhes desta euforia:
O MNU foi uma idéia que empolgou aos militantes em geral. A unidade que todos desejavam. Mas ela foi rompida pela radicalização no discurso dos mais politizados/atuantes, frente à insegurança ou discordância da maioria quanto ao 'tom', ao ritmo que eles pretendiam imprimir e aos aspectos ideológicos subjacentes ao seu discurso. (pág.63).
O MNU acabou se destacando no revisionismo da história brasileira ao re-analisar o Quilombo de Palmares e sua importância na história brasileira. Assim, o MNU, a nível nacional, embora possa ter havido iniciativas anteriores em outras cidades, torna, então, o 20 de novembro, data da morte

de Zumbi, em DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA. O fato se espalha e influencia o Brasil. Aproveitando a onda, o Rio de Janeiro sai na frente quando o Movimento Negro consegue erguer um Monumento a Zumbi dos Palmares, em 1986, na Av. Presidente Vargas, e mais á frente, em 1999, torna esta data em feriado municipal e depois em estadual.
Enfim, ambos os livros resgatam admiravelmente parte da história do MN, e esperamos que surjam outros militantes;/autores, nos presenteando com o potencial e a riqueza do MN.

Fonte: Questões Negras

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