domingo, 9 de novembro de 2008

O Negro da Casa Branca


Terça-feira, o tempo meio lusco-fusco, Virgínia, a “ocidental”, metida como ela só, encontra Carolina, a do norte, que “deixou de ser branca pra ser franca”, como ela mesma diz, e manda esta:
– Já viu, Carolina, o crioulo que está se mudando pra aquela casa branca lá em cima, lá do outro lado da pista?

A arrogante joga a bola quicando, e a outra rebate:

– Crioulo não vi, não, madame! Eu vi foi um afrodescendente.

A metidaça tenta botar pra corner:

– E não é a mesma coisa?

Mas Carolina não deixa a peteca cair:

– Não é, não, minha senhora! O vocábulo “crioulo”, quando se re­fe­re a pes­soas, seu sig­ni­fi­ca­do re­me­te ao in­di­ví­duo de qualquer as­cen­dên­cia estrangeira, inclusive européia, nas­ci­do nas Américas. Mas, com relação aos negros, quase sempre é usado de maneira pejorativa.

A “do norte” dá um verdadeiro show de bola. Me lembra a sua homônima, a Carolina Maria de Jesus. Mas a “ocidental” não se conforma:

– “Crioulo”é o modo de se dizer. Ou você preferia que eu dissesse “colored”.

– Não, senhora! “Colored”, “moreno”, “mulato”, “crioulo” é tudo discriminatório. Em todas as Américas, o único grupo que é qualificado de acordo com sua aparência física é o dos afro-descendentes. Por isso é que aqui nós, tanto os de pele mais escura quanto os mais claros, nos identificamos em torno da palavra “negro”.

– Mas... negro é “preto”. E o sociólogo do Globo disse que “raça não existe”.

– Menos, madame! Menos! Aqui, a palavra “negro”, que du­ran­te mui­tos ­anos foi si­nô­ni­mo de “es­cra­vo”, com o tem­po passou a ser um re­fe­ren­te ét­ni­co e principalmente po­lí­ti­co. Nos Estados Unidos os ­afro-des­cen­den­tes rei­vin­di­cam pa­ra si o tra­ta­men­to de afri­can-ame­ri­cans (afri­ca­no-ame­ri­ca­nos), a exem­plo de ou­tros gru­pos, co­mo os ju­deus- ame­ri­ca­nos, íta­lo-ame­ri­ca­nos, his­pa­no-ame­ri­ca­nos etc...

Virginia, a ocidental, não se conforma. E parte pro discurso da mudernidade:

– Você fala tanto em Estados Unidos, minha jovem, mas lá, enquanto o Brasil utiliza a tecnologia mais avançada em suas eleições, nas quais o voto já há bastante tempo é eletrônico, assim como os escrutínios e apurações; (o que condiz com o luxo e o aparato que cercam nossos poderes legislativos, e judiciários também, inclusive na esfera da justiça eleitoral)... Enquanto no Brasil eleição é modernidade, nos Estados Unidos ainda se vota através daquelas anacrônicas tiras de papel preenchidas a mão e depositadas em sacolas; e a contagem de votos ainda é feita ponto a ponto, aritmeticamente, como no tempo da tabuada.

A “ocidental” fala como um ministro baiano da Cultura. Mas Carolina sabe que eleição no Brasil ainda se vence com votos comprados; que ganha quem paga mais, direta ou indiretamente, às massas de eleitores famintos ou interesseiros, nas cidades e no campo. Ela sabe que é por isso que, no Brasil, as eleições dificilmente levam ao poder pessoas oriundas das camadas mais pobres da população, onde se concentra a expressiva maioria de afrodescendentes. E que é por isso que o Brasil quase não tem negros eleitos para suas principais instâncias legislativas, principalmente federais. E, assim, as reivindicações do povo negro (como o Estatuto da Igualdade Racial, por exemplo) são sempre torpedeadas, sobre argumentos discutíveis , como o de que somos “um país mestiço”, que não pode ser dividido por “raças”.

Aí, Carolina, resolve esculachar:

E sabe por quê aquele negro está se mudando lá pra casa branca, Miss Sippi? Não? É porque lá, de onde ele veio, ou é ou não é: não tem esse caô, não, minha santa! E foi através da consciência de sua identidade étnica que ele e seus irmãos vieram abrindo caminho, cada vez mais sabendo que um dia podiam chegar lá. E chegaram.

Virgínia não concorda com uma só palavra do que diz a vizinha. Mas, como boa cristã, bota seu “Livro de Louvor” na sacola de dízimos e vai pregar noutra periferia.

Fonte: Meu Lote

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