quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Parteiras com muito orgulho

Segundo dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS) de 2006, 98% dos partos registrados no país acontecem nos hospitais. Essas mudanças já atingem áreas rurais onde cresce o número de cesarianas fazendo desaparecer a figura da parteira em áreas mais desenvolvidas do país. No Norte e Nordeste, ainda encontramos um grande número de casos de parto normal. De acordo com a Rede de Humanização do Parto e Nascimento (Rehuna) são aproximadamente 60 mil parteiras cadastradas no Brasil, a maioria concentrada nessas duas regiões.

No Rio de Janeiro, a figura da parteira praticamente desapareceu, mas dentro do Complexo do Alemão conseguimos encontrar três senhoras que durante toda a vida ajudaram outras mulheres no nascimento de seus filhos e hoje relembram as várias histórias dos partos que ajudaram a realizar na comunidade.

Argentina Eduarda, Alexandrina Ribeiro e Benvinda Pereira não se conheciam, mas vieram de Minas Gerais para viver no Complexo quando eram adultas. Moravam em zonas rurais e tiveram muitos filhos, como era o costume da época, que nasceram de parto normal em casa.

“Quando me perguntam: o que a senhora faz na vida? Eu respondo que sou parteira”, diz Argentina, que junto com as colegas afirmam que ser parteira é vocação. Na maioria das vezes, esse aprendizado é passado pelas mais experientes, como afirma Alexandrina. "Uma mulher que me ensinou muita coisa foi Maria José de Jesus, parteira muito conhecida na minha cidade. Ela acompanhou o nascimento de todos os meus filhos”.

Hoje, os tempos são outros. Existe mais tecnologia para atender a mãe e o bebê como o pré-natal, máquinas que permitem saber qual é o sexo, além de uma série de outros avanços na medicina que não existiam no tempo dessas mulheres, que ainda mantêm viva na memória alguns aprendizados que desenvolveram durante os anos.

“Na hora que a dor aperta, a mãe não pode abrir a boca”, afirma Alexandrina. “Se for menino, o bebê mexe no terceiro mês de gestação. Se for menina só no sexto”, responde Eduarda. “Na hora de cortar o cordão umbilical deve ter a distância de três dedos do umbigo”, finaliza Benvinda.

Aos 73 anos, Argentina acredita ter realizado mais de 400 partos. Sentada na varanda, ela aponta para as várias casas das mulheres que ajudou na hora do parto. “Graças a Deus nunca morreu nenhuma mulher em minhas mãos e nenhum bebê nasceu atravessado (quando a criança não está na posição correta)”.

Atualmente, morando com o filho, a neta e quatro bisnetos, seu sonho é poder voltar para Minas. “Depois que perdi o meu marido, eu tenho vontade de sair daqui e voltar para a minha terra. Ainda tenho muitos parentes que moram lá, além de ser um lugar mais tranqüilo”.

A história de Benvinda Pereira, também teve o mesmo rumo da vizinha. Casou-se cedo, aos 17 anos, e teve o primeiro dos 14 filhos aos 18. "Todos eles nasceram em casa. Era tudo feito na cama mesmo".

O último nasceu quando ela tinha 45 anos. "Eu tinha muito medo de morrer e deixar ela pequeninha". Hoje, essa filha está com 21 anos de idade e grávida de sete meses de seu segundo filho. "Na minha época não tinha essa coisa de evitar filho e nem pré-natal. Eu nunca usei camisinha", conta.

Alexandrina Ribeiro veio para o Rio em busca de tratamento médico para o irmão de seu marido, Odilon, com quem é casada há 50 anos, e acabou ficando. “Em Minas, eu era professora de três fazendas e já auxiliava nos partos. Depois que me mudei para o Rio ajudei muita criança a nascer aqui no morro. No lugar onde eu morava tinha uma parteira muito conhecida que eu sempre acompanhava”.

Segundo ela, o trabalho da parteira só termina quando a criança passa por uma revisão: medir a cabeça, braços e pernas, verificar o peso. Mas na favela, elas precisaram desenvolver outras habilidades. "Um moço veio aqui me buscar para fazer o parto do filho de um bandido. Tudo deu certo, mas depois a polícia me revistou e foi um sufoco depois". Neste momento da conversa, seu Odilon, que acompanhava de longe, chegou mais perto. "Agora ela não faz mais parto. Tem que sair de casa de madrugada, passar por bandido, quase que tiro pega nela", lamenta.

Hoje, com problemas de saúde e com pedidos cada vez mais escassos, Alexandrina ainda é requisitada por muitas mulheres em busca de ajuda. “Algumas vem até aqui em casa pegar um remédio que alivie a dor ou para agilizar o parto”, conta Alexandrina.

Fonte: Viva Favela

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