domingo, 2 de novembro de 2008

Socialistas pedem compensação por escravidão

Freetown - Socialistas, social-democratas e trabalhistas da África ocidental exigiram dos países que receberam escravos procedentes deste continente o pagamento de compensações por 400 anos de exploração.

Lansana Fofana - IPS
Ismail Rashid, professor de História Africana na universidade novaiorquina Vassar College, afirmou que as nações ocidentais devem pagar pelos “horrendos crimes cometidos contra os africanos submetidos à escravidão e desumanizaçao”.

“Não se trata de um favor que pedimos ao Ocidente. É nosso direito, porque o Ocidente roubou nosso trabalho, nossa dignidade e nossos recursos”, disse Rachid na Conferência Regional da África Ocidental da Internacional Socialista realizada de 20 a 22 deste sem em Freetown. “Trata-se de um pagamento pelo nosso trabalho e nossos saqueados recursos humanos”, prosseguiu. da reunião na capital de Serra Leoa participaram socialistas, social-democratas e trabalhistas da África, e também da Europa e dos Estados Unidos, que discutiram as compensações e a crise financeira internacional entre outras questões.

“As reparações devem ser concretizadas na forma de transferência de tecnologia e recursos financeiros, porque a escravidão destruiu o potencial da África para o crescimento e o desenvolvimento industrial”, acrescentou Rashid. As compensações são alvo de um longo debate em círculos intelectuais africanos. Os participantes da conferência coincidiram que os efeitos da escravidão ainda freiam o crescimento econômico do continente. “O neocolonialismo é subproduto da escravidão”, afirmou Luwezi Kinshasha, representante do Movimento Internacional Democrático Popular Uhuru, de Congo-Brazzaville.

“A europa ocidental escravizou africanos durante 400 anos, traficando nossa gente para que trabalhassem em plantações ocidentais e ajudando no desenvolvimento da Europa. A tendência continuou após a independência de nossos países dos poderes coloniais, porque o Ocidente ajeitou-se com regimes que promoviam seus interesses”, acrescentou. segundo Kinshasha, apenas o socialismo poderá unir as massas africanas para que assumam seu destino e avancem. Os trabalhadores africanos, disse, devem ter acesso ao poder porque é a única forma para que os recursos do continente sejam utilizados para beneficiar os povos africanos.

“Esta conferência foi o ponto inicial. Devemos nos organizar para unir os povos africanos, para que suas reclamações de compensações sejam ouvidas no Ocidente”, prosseguiu. “Falou-se muito no passado sobre este tema. Temos de dar um passo à frente e comprometer as nações ocidentais em nossa reclamação. E, antes disso, devemos cobrar do Ocidente que aceite abertamente suas culpas e peça desculpas aos africanos pela escravidão e, em seguida, avançar para um acordo de reparações”, disse Kinshasha.

A União Pan-africana (Panafu), que também participou da conferência,disse que estudou a questão das compensações e que, inclusive, organizou um grupo de trabalho encarregado de promover a questão em coordenação com outras organizações. Abdul Rashid, da Panafu, disse que sua organização promove as reparações por mais de uma década e que a conferência da Internacional socialista lhe deu um novo impulso a esta causa.

“A reunião aconteceu em um momento adequado. Temos de organizar reuniões como esta em todo o continente periodicamente para criar consciência entre os africanos de que o Ocidente deve pagar as compensações, que se trata de um direito dos africanos e uma obrigação moral para as nações ocidentais’, disse Rashid à IPS. O organizador regional do capítulo africano da Internacional Socialista, Cherinoh Alpha Bah, disse que muitas companhias e indústrias européias se beneficiaram com o tráfico de escravos e que devem ser forçadas a pagar as compensações. “Parte de seus ganhos deve voltar à África na forma de reparações. Inclusive, os artefatos saqueados devem retornar, porque pertencem de pleno direito ao povo africano”, afirmou.

Ismail Rashid, que centrou sua exposição no tráfico de escravos para a América e na questão das compensações, deu uma perspectiva histórica, destacando a colaboração de africanos como uma razão que explica o desenvolvimento dessa prática. “Foi a cumplicidade dos africanos que ajudou a fomentar o tráfico e isto ainda acontece atualmente, quando regimes neocoloniais servem aos interesses de seus amos ocidentais”, disse, dando como exemplo a carga da dívida externa e as injustas práticas comerciais.

Rashid se lamentou pelo fato de pouco se ensinar sobre a história africana nas escolas de ensino superior do continente e pediu urgência aos africanos para recordarem os horrores da escravidão, a exploração de seus povos com objetos e sua sistemática desumanização. A desumanização, acrescentou, ainda continua através do racismo, da perda da identidade e da confiança. Concluiu que a resistência do povo africano pôs fim ao tráfico de escravos e ao colonialismo, reclamando que essa resistência deve continuar se a intenção é fazer o neocolonialismo, subproduto dos dois sistemas anteriores, ser erradicado.

Serra Leoa, sede da conferência, foi um grande centro para o tráfico de escravos. O governo se comprometeu a preservar a histórica fortaleza da Ilha Bunce, onde milhares de africanos foram submetidos à escravidão e vendidos. Também criou uma comissão para identificar outros centros de tráfico, que foram esquecidos e se tornaram pouco atraentes para os turistas. Uma estatua de Sengbe Pieh, cujo nome como escravo foi Joseph Cinque, se encontra em uma importante praça de Freetown e é diariamente visitada por transeuntes locais e turistas.

Em 1839 os escravos a bordo de um barco chamado Amizade se rebelaram para conseguir a libertação enquanto eram levados para de um porto cubano a outro. Seu líder era Pieh, jovem da etnia mende. Os escravos foram capturados em sua maioria nas proximidades de Serra Leoa e levados a navios negreiros espanhóis. Finalmente ficaram livres em 1841, depois de dois anos presos nos Estados Unidos esperando o veredito dos tribunais em relação à sua rebelião. No ano passado, Serra Leoa comemorou o bicentenário da abolição da escravidão no país e a fundação de Freetown (cidade livre, em inglês) como lar dos libertos. Ativistas locais afirmam que pressionarão o governo para juntar-se ao pedido de reparações. (IPS/Envolverde)

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