domingo, 7 de dezembro de 2008

Chegou a hora... Jardim das Folhas Sagradas



Prestes a definir a data de lançamento de Jardim das Folhas Sagradas, o cineasta Pola Ribeiro faz um balanço do processo de realização do filme, e fala sobre a estratégia de divulgação montada para o seu primeiro longa-metragem.


Quando Jardim das Folhas Sagradas vai chegar às telas?
Em 2009. Vamos definir quem será nosso parceiro na distribuição nos próximos dias e logo teremos uma data. A atividade audiovisual se intensificou, mas o cinema brasileiro passa invisível pelas salas. A comunicação é fraca, conservadora. É restritiva, não atinge as pessoas que deveria atingir. Tenho a responsabilidade de informar e criar nessas pessoas o desejo de ver o filme. Queremos desenvolver uma estratégia de comunicação para o público que não têm o hábito de ir ao cinema. Então, como primeiro passo, quero tocar estas pessoas. Criar através do site, uma camada de interesse que vá se expandindo.

O que o público pode esperar do filme?
Jardim é um filme de orçamento médio, mas feito com cuidado de produção, uma fotografia linda e coerente com um universo diferenciado da cidade, mais ligado aos seus matos do que ao mar. Tem um elenco que aos poucos foi se tornando bem conhecido ao longo dos últimos dois anos. A começar por João Miguel, e muitas revelações e caras novas do Bando de Teatro Olodum. Mas também conta com a participação de veteranos como Sérgio Guedes, Haydil Linhares, Wilson Mello, Lia Mara, Meran Vargens, Harildo Deda e Antonio Godi, que faz o personagem principal, Bonfim, e agrega uma coisa muito forte.
A história com Godi é um processo longo. Meu desejo de tê-lo como protagonista vem desde o primeiro momento em que pensei em fazer o filme.
E ele se dôou de maneira extraordinária. Nos permitiu cortar os dreadlocks de seu cabelo, fez um ritual religioso para isso porque entendeu que esse gesto, de fato, iria somar muito para a composição do personagem. O que acabou gerando, inclusive, uma música que o Jorge Papapá fez.
Esperamos mostrar um pouco de Salvador e suas contradições entre o tradicional e o moderno, o conhecimento espiritual e a tecnologia material, as fronteiras de pele e os vínculos disso com a espiritualidade. Nesse ponto, acho que vamos trazer alguma novidade por tratar de assuntos pouco tratados, pelo menos em termos de mídias como o cinema e a televisão.

As filmagens foram realizadas em 2006. Por que tanto tempo para finalizar este seu primeiro longa-metragem?
Fizemos o esforço de rodar duas longas em quatro meses com a estrutura muito pequena da Studio Brasil. Então foi natural que viesse uma certa ressaca do processo, com acertos de contas, pagamento de passivos. Em novembro (de 2006) acabamos de rodar Jardim e, em janeiro, eu estava dirigindo o Irdeb (Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia). Era uma tarefa nova e inesperada, em um órgão para o qual faltava meta, rumo e projeto.
Com isso, passei 2007 sem tocar no filme, apenas decantando e acertando arestas. Retomamos, em 2008, com o processo de montagem e finalização com esse delay de 2007. Mas agora o processo caminha normal, fizemos um teste de audiência no mês de maio, em Brasília, com resultado bem satisfatório. Em seguida, o Estúdio Base finalizou a mixagem de som, fizemos as correções de cor na Teleimage, agora, estamos produzindo as computações gráficas e a Cinecolor trabalha no teste de cópia.

Do ponto de vista da mise-en-scene, da constituição de uma dramaturgia, como você lida com a representação das manifestações afro-religiosas?
Trabalhamos com humildade e deferência com o desconhecido. Meu pai falava: enquanto você constrói a casa, é a casa que está fazendo você. Isso quer dizer que o projeto foi sempre se alterando. Sei que identifico, desde o início, uma área de interesse onde claramente há limites. É preciso saber relacionar-se com o segredo. Tenho a consciência de que sou alguém de fora fazendo o filme. Cada vez que eu conhecia um pouco mais de uma coisa, percebia que meu desconhecimento era ainda maior – fosse no roteiro, na ocupação dos espaços para levantar o set, na manipulação dos objetos sagrados, no acesso aos terreiros de diferentes vertentes. Tivemos a missão de congregar, de pedir permissão para as pessoas trabalharem. Sem falar no privilégio de ter colaboradores como Júlio Braga, Raul Lody e diversos técnicos e atores que carregavam elementos, histórias, gestos.
A pesquisa não parou quando fomos para o set, o filme foi se enriquecendo de informações. Não foi à toa que partimos para a produção de um documentário sobre o assunto, interprogramas de TV e acumulamos 100 horas de making of. Esperamos passar a dignidade que se estabelece nessa relação. Pedimos agô o tempo inteiro e está chegando a hora de devolver ao público imagens que são a comunicação deste conhecimento.

Agora, com o filme quase pronto, você pode avaliar se o enredo mudou muito em relação ao argumento inicial?
O enredo cresceu muito antes da filmagem. A criação do roteiro foi um processo de escuta. Vários dos diálogos são falas quase que literais dos cidadãos das ruas ou colhidas em terreiros, palestras, entrevistas. Então o roteiro engordou muito e foi para umas quatro horas. Houve o encantamento com a escrita. Depois o roteiro foi enxugado com a consultoria de Orlando Senna, que ajudou a mim e ao roteirista Henrique Andrade a encontrar um foco mais preciso. A partir daí não se alterou muito, já sabíamos qual era a intenção. Algumas seqüências mudaram de posição do primeiro para o segundo corte. Mexemos no quebra-cabeça, na estrutura, mas não no conceito. E, no saldo geral, apenas uma seqüência ficou de fora.

João Miguel estourou com vários filmes e prêmios, o elenco do Olodum via Ó Pai Ó estreou com sucesso nos cinemas e emplacou um seriado na Globo. Você considera bom ou ruim o fato de o elenco ter adquirido visibilidade ao longo desses dois anos?
Como o ator principal, embora veterano no meio teatral, é um rosto novo na tela, considero essa visibilidade importante. Engrandece, é bacana, não chega a ser um excesso. E o ator principal está resguardado. Rostos conhecidos aproximam, não criam distância. E, no filme, eu diria que cada personagem se sobrepôs ao ator. Aproveito para lembrar também da visibilidade das estrelas da música que estão atuando no elenco de Jardim – Mariene de Castro, Virgínia Rodrigues, Lazzo.
A disponibilidade dos atores e demais participantes do elenco me deixa comovido. O elenco ESTÁ no filme, seja na frente ou atrás das câmeras. Os movimentos organizados ligados ao tema reagiram com uma aceitação bem bacana. Simulamos um 20 de Novembro na Ladeira do Curuzu, reduto do Ilê, e reunimos grupos que tradicionalmente se opõem dentro do movimento negro. Eram duas mil pessoas caminhando, integrantes de vários blocos carnavalescos, como Olodum e Os Negões, de grupos como o MNU (Movimento Negro Unificado) e Unegro. Isso deu solidez ao projeto. Foi aí que percebi que estávamos fazendo um filme maior que a gente.

Como vai conciliar o cargo de diretor do Irdeb com a tarefa de divulgar Jardim das Folhas Sagradas?
Como conciliei em 2008. Estou trafegando em espaços muito próximos, então tenho que ter cuidado. Mas sem boicotar o filme. Minha empresa está finalizando o processo e vamos manter nossas parcerias, mostrar o filme a possíveis novos parceiros. Quero comprovar na prática com Jardim o que prego como gestor público do audiovisual. O mercado é duro, temos que utilizar ao máximo os meios disponíveis. A política pública, o apoio da ABD (Associação Brasileira de Documentaristas), do Conselho Nacional de Cineclubes. Queremos potencializar o apoio dessa associações, que, afinal de contas, estão em todos os estados do país, e trabalhar também com a Abepec (Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais), a Arpub (Associação das Rádios Públicas) e a Ancine.
É um momento de grande exposição, mas cinema, por outro lado, envolve muita gente mesmo e também recursos públicos. Queremos implementar maneiras de dar esse retorno à sociedade, criar a oportunidade de o público ver o filme.
Jardim das Folhas Sagradas / Ascom


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