sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Polícia não acha indícios de tiroteio onde garoto morreu no Rio



RIO - A Polícia Civil não encontrou indícios que houve uma troca de tiros na viela onde o menino Matheus Rodrigues Carvalho, de 8 anos, foi morto na quinta-feira com um tiro de fuzil na Favela Baixa do Sapateiro, no Complexo da Maré, na zona norte. "Não havia marcas de outros disparos ou cápsulas deflagradas e há indícios que a outra marca de tiro na porta foi feita pela mesma bala que atingiu a cabeça do menino", afirmou o delegado-titular da 21ª Delegacia de Polícia, Carlos Eduardo Pereira Almeida.
A informação contradiz a versão apresentada pela Polícia Militar de que o menino foi vítima de uma bala perdida durante um tiroteio entre traficantes rivais. No entanto, o delegado foi cauteloso e disse que "nenhuma versão para o caso está descartada" e disse que "ainda é cedo" para acusar a PM.
O delegado disse que vai aguardar o exame de balística nos quatro fuzis e quatro pistolas apreendidas dos policiais que estavam na favela e o laudo da perícia no local do crime cujo prazo para entrega é de 30 dias. "O laudo vai dizer se houve tiroteio e de onde partiu o tiro", afirmou Almeida. Ontem, ele fez um apelo para que as testemunhas do crime compareçam à delegacia.
"Até agora ninguém prestou um depoimento dizendo que viu os policiais atirarem. Podem telefonar, mandar carta ou comparecer. Qualquer informação sustentável será apurada", garantiu Almeida. O secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, declarou que "caso haja qualquer indício de disparo nas armas, os policiais serão punidos e vão responder administrativamente e criminalmente".
Nesta sexta,
no enterro de Matheus, no Cemitério de Caju, o clima era de descrença na investigação. Entre as 200 pessoas, algumas disseram que presenciaram o crime. Segundo eles, os PMs faziam uma operação na favela e estavam atrás de um rapaz que estava com um radiotransmissor.
"Meu marido varria a calçada em frente ao nosso comércio e viu os dois policiais agachados em posição de tiro. Fizeram um disparo. Eu estava na parte de cima e desci preocupada ele. Vimos o PM passando chorando e dizendo 'matei uma criança'", relatou autônoma Alcione Eustáquio, de 56 anos, que assegurou que irá depor.
Ela e outros moradores afirmam que entre os quatro policiais que se apresentaram não estaria a dupla que matou o menino. Além disso o número da viatura apresentada pela PM difere do anotado pelos moradores. No enterro, entre os cartazes de protesto contra a política de segurança, uma mulher segurava um com a frase "o município mata aula e eu é que morro", lembrando que Matheus não estava na escola, porque o professor faltou.
O governador Sérgio Cabral foi alvo das críticas. O Movimento pela Vida e Contra o Extermínio distribuiu camisas com o desenho de um PM sorrindo ao lado de uma criança morta amparada pela mãe e a frase "Cabral, Chega de extermínio".
A socialite Yvone Bezerra de Melo, que dirige o projeto Uerê para 450 crianças traumatizadas pela violência no Complexo da Maré, disse que o crime foi uma execução. "Cheguei dez minutos depois. Tive o cuidado de procurar minuciosamente outras cápsulas e nada encontrei. A única bala no local era a do tiro de fuzil que matou Matheus", disse Yvone.
Moradora da Maré, a socióloga Mariele Franco, de 28 anos, disse que este não foi a primeira criança morta pela polícia no conjunto de favelas. "Em 2006, o menino Rennan Ribeiro, de 3 anos, foi morto pela polícia em situação semelhante. Na ocasião, a polícia também alegou que havia um confronto entre traficantes e até hoje ninguém foi punido. A política de confrontos do governador Sérgio Cabral é uma licença para matar", acusou a socióloga.


Fonte: Ìrohìn

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