sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Cenas e Cenários da Cidade Negra

Eneida Leal Cunha
Universidade Federal da Bahia

Cidade religiosa, cidade colonial, cidade negra da Bahia. Igrejas suntuosas bordadas de ouro, casas de azulejos azuis, antigos sobrados onde a miséria habita, ruas e ladeiras calçadas de pedras, fortes velhos, lugares históricos, o cais (…) tudo pertence ao negro Balduíno…
Jorge Amado


É isso a paisagem: a apresentação atual de um feixe de ações que, num momento dado, se cristalizam num lugar dado e que pode permanecer durante séculos apresentando-se como — ou quase como — no momento de sua instalação, enquanto o espaço vai mudando, ainda que utilizando aquela mesma paisagem, aquele mesmo quadro, aquele mesmo conjunto de objetos. (…) Qual é a discussão que nos preocupa? É a discussão a respeito da paisagem ou é a discussão a respeito do espaço?
Milton Santos

Mendigos, moleques e vadios na Bahia do século XIX, de Walter Fraga Filho, publicado ano passado, é uma história de grupos subalternos construída a partir dos registros de instituições religiosas, hospitalares e jurídico-policiais, além dos jornais da época. Tem como foco os pobres e libertos, um contingente significativo da população da cidade de Salvador no século passado. A composição racial predominante nesse grupo majoritário da população da cidade no contexto escravista é óbvia: negros e mestiços. Mais do que a descrição do funcionamento da mendicância, uma alternativa de sobrevivência mais ou menos instituída e legitimada à época, interessam-nos aqui as informações sobre os moleques e vadios na cidade imperial, ou melhor, sobre os jovens negros e sua distribuição em antigas ou refeitas paisagens, em velhos e novos espaços da cidade do Salvador.
Fraga examina a gama de significações que o termo “vadiagem” recobre[1], recolhendo-as em dois grandes eixos: ociosidade e itinerância.
Numa economia moral do trabalho forjada na perspectiva escravista, a experiência de ser livre ou liberto pode ser objetivada na recusa ao trabalho regular, uma forma de situar-se no exterior da rede de dominação tecida pelo poder senhorial. Os classificados como vadios pelos discursos instituídos, no século passado, sobrevivem de uma gama de ocupações que têm em comum, além da ausência de vinculação senhorial, a irregularidade ou descontinuidade temporais do trabalho: são pescadores, marinheiros, estivadores, ambulantes ou, simplesmente, mendigos. Assim, ao lado da concorrente mão-de-obra escrava ainda disponível e das crises na economia baiana, que tornam rarefeitas as alternativas de sobrevivência para os pobres e libertos, desenvolve-se na cidade uma cultura que, inevitavelmente, articula o trabalho regular à permanência da subordinação ao jugo senhorial.
A segunda componente da vadiagem, a itinerância, confronta com uma “sociedade baseada em relações pessoais, [na qual] pôr o pé na estrada, vagar por vilas e cidades sem laços de dependência significava situar-se fora da ordem estabelecida. Os vadios violavam a ordem patriarcal, segundo a qual todo homem devia ter seu lugar, sua família, seu senhor. A vida itinerante dava ao homem livre pobre um sentimento de autonomia, [que era visto como] inconveniente às relações sociais e de poder existentes”[2].
Ainda segundo Fraga, tanto os arquivos institucionais, como os relatos de viajantes, como ainda a imprensa da época registram as centenas de jovens e crianças que vivem nas ruas da cidade de Salvador no século XIX. Conseqüência da orfandade, do abandono ou da fuga ao convívio familiar, a vida na rua é, por um lado, uma alternativa à ausência de perspectivas para esse contigente que descende de negros pobres e livres, mas é, por outro, a libertação das funções subservientes e serviçais nos sobrados ou da subordinação aos “mestres de ofício”, as duas instituições formativas destinadas aos jovens pobres e negros, as quais guardam completa fidelidade à ordem escravagista: na relação de pertencimento a um senhor, no disciplinamento corporal, na exploração não-remunerada do trabalho. A sobrevivência nas ruas exige estratégias de organização e defesa, das quais surgem os bandos — ou quadrilhas, como então se dizia — de meninos e meninas. O historiador recupera nos documentos policiais os inúmeros registros de prisões e de conflitos entre bandos de crianças, nos arquivos da Santa Casa de Misericórdia os registros da indigência e da morte, nos jornais da época os protestos da sociedade senhorial contra a irreverência, o deboche, a insubordinação e a licenciosidade dos comportamentos dos meninos e meninas nas ruas, ao longo do século XIX.
A geografia da mendicância e da vadiagem na Bahia do século XIX, traçada por Fraga, recorta, numa planta da cidade do Salvador datada de 1894, um espaço retangular que tem por limites as portas do Carmo, o portal de São Bento e a Praça da Piedade, o bairro da Saúde, e o mar — a região do Cais do Porto. São esses os limites primordiais da cidade colonial. Esse é também o recorte atual do que o planejamento econômico e administrativo da cidade denomina Centro Histórico de Salvador.
Entre as décadas de 50 e 70 deste século, a cidade de Salvador multiplicou e dispersou a centralidade — construindo, como afirma Milton Santos, seus centros excêntricos[3]—, modernizou mais radicalmente que a maioria das capitais brasileiras o cenário das moradias e da circulação da classe média, com os recursos e as estratégias excludentes do Banco Nacional de Habitação; definiu e sedimentou suas periferias através de conjuntos habitacionais relativamente pequenos, mas em torno dos quais expandiram-se os densos bairros populares que hoje existem. Ao mesmo tempo, Salvador assistiu à cabal degradação econômica, social e física do centro antigo, já de algum tempo desprovido de suas funções político-administrativas. No presente, a centralidade do espaço recortado por Fraga (o espaço dos mendigos, moleques e vadios) retorna reinvestida por novas funções e reinstalando antigas populações e convivências.
O que hoje é metonimicamente nomeado como área do Pelourinho, o maior empreendimento econômico e o maior investimento simbólico da Bahia contemporânea, volta a ser um espaço compartilhado por todas as classes e grupos sociais[4]. Não só. Reinstala-se, nas ruas do Centro Histórico, nessa paisagem, a “hegemonia dos não-cidadãos”[5]. Se as ruas da cidade colonial e imperial foram habitadas e palmilhadas pelos pobres e libertos, como um espaço onde se lançavam todos os resíduos da sociedade escravagista, o lugar dos desclassificados e despossuídos — dos negros e mestiços —, a mesma paisagem colonial, hoje recuperada pela intervenção estatal saneadora com vistas ao empreendimento turístico, volta a ser o centro de circulação de uma população negra e mestiça de caracterização semelhante à depreendida por Fraga no século XIX: são jovens, predominantemente entre 15 e 25 anos, não têm trabalho fixo ou regular, por força da carência de empregos na economia que se encolhe, mas por força também da recusa a inserir-se no que o antropólogo Livio Sansone aponta como uma das “áreas duras” nas relações raciais na Bahia — o mercado de trabalho convencional[6].
Embora o Centro Histórico não seja hoje um lugar de residência dos negro-mestiços baianos, ou uma área que demograficamente se destaque pelos números da população negra (que chega, em alguns bairros periféricos, a 95%), é, sem dúvida, “o território central numa rede de territórios negros, nessa cidade tão negra que é Salvador”[7]. Talvez mais do que isso. Essa população negro-juvenil, que freqüenta os blocos afros e perambula cotidianamente pelo Centro Histórico, produz hoje as imagens mais circulantes da “afro-baianidade”, alimenta — sem auferir benefícios economicamente significativos ou patenteamento de autoria — a pulsante (e exportável) indústria da diferença cultural baiana. Ou, ainda mais paradoxalmente, essa juventude negro-mestiça não tem, no plano econômico-social, situação ou ocupação muito diversa dos moleques e vadios do século escravista, suas estratégias de sobrevivência precisam continuar, em grande parte, “mágicas ou criminais”, segundo Livio Sansone[8]. Mas, em contrapartida, esses jovens negros — cujos pais e avós, como escreveu Nélida Piñon na República dos Sonhos, foram condenados ao “exílio estético” — são centro de um conjunto de imagens identitárias que vêm atenuando — ou até invertendo — a hierarquia tradicional de valores estéticos e culturais. O orgulho negro, o corpo negro, a beleza negra, um modo negro de vestir-se, de dançar ou de falar, o som negro, para a Bahia contemporânea, não configuram a força de uma comunidade recortada e plenamente identificada, sequer coesa. Constituem, sim, um imaginário comum que vem se disseminando e começa a permear diferentes classes e grupos sociais. Isso que vem se afirmando como a “identidade cultural afro-baiana” — em ambígua convivência com uma ordem social e econômica excludente, em continuadas negociações com uma ordem política anacrônica e autoritária — expõe, acintosamente, o seu estatuto de ficcionalidade, como também é pleno de ficcionalidade a construção do espaço simbólico do Pelourinho.
Entre essas duas emergências da negritude ou dos jovens negro-mestiços no espaço central e histórico da cidade de Salvador, entre os registros do século XIX e as vivências atuais, é que desejamos reler na década de trinta, no romance Jubiabá, de Jorge Amado, o negro Antônio Balduíno e suas deambulações na cidade da Bahia.
As repercussões do lançamento de Jubiabá, em 1935, deixaram em evidência suas duas vertentes imediatas de leitura: o romance do negro (pela imprensa baiana e regional e pela crítica mais institucionalizada, que culmina com “a Ilíada negra”, de Oswald de Andrade); ou o romance proletário (nas notícias, resenhas e críticas com claras mediações ideológico-partidárias, como o Boletim de Ariel, nas quais chega a ser, sintomaticamente, “o romance do trabalho”). Desde a data da sua publicação, Jubiabá vem sendo objeto, quase simultaneamente, de consagrações e repúdios, pelos mesmos elementos seus constituintes — a heroicização do negro, a consagração da cidade negra da Bahia, a apologia do trabalhador-grevista, a natureza folhetinesca (ou romanesca) da narrativa, a sua explícita vontade político-partidária de um romance de formação da consciência de classe no trânsito entre a rebeldia racial anárquico-libertária e a revolta proletária, em coerência com a tese da “assimilação da herança cultural”, defendida pelo Partido Comunista Brasileiro em 1935.
A partir deste momento, entretanto, Jubiabá será aqui apenas um texto onde vamos recolher traços constitutivos de um jovem negro e da vivência da negritude na paisagem central de Salvador — o mesmo espaço descrito por Fraga Filho como território dos moleques e dos vadios, a mesma paisagem que o planejamento urbano atual recorta e nomeia Centro Histórico de Salvador — presente no romance com intensidade, colorido, visibilidade e técnica cinematográficas: espaços selecionados, recortados e montados, por deslocamentos ou condensação, de modo a integrar a estabilidade da paisagem ancestral e a dinâmica do cotidiano que então se modernizava.
O trabalho de construção ficcional e textual da topografia da cidade simbólica — a Bahia de Todos os Santos — se desenvolve acompanhando a trajetória do negro Balduíno no que poderíamos considerar a fração intermediária da narrativa (descido o morro, instalado na cidade, antes do êxodo para as plantações de fumo do Recôncavo e do engajamento no trabalho como estivador). A cidade aí tem os mesmos limites do mapa da vadiagem negra desenhado no século passado, mas mendicância, vadiagem e itinerância se tornaram atributos positivos dos donos da cidade, como reitera à exaustão o narrador. Se a ficcionalização da paisagem foi e ainda é recebida de forma pacífica, o mesmo não acontece com o trabalho — análogo — realizado no romance com o personagem negro, também uma construção simbólica e uma instância ficcional. Sobre este, pairam ressalvas sintomáticas acerca da construção idealizada (com uma implícita exigência de fidelidade a um fundamento ou a uma suposta base real, “o negro” ou “a negritude”), ressalvas acerca da credibilidade e legitimidade autoral (com a explícita restrição à alteridade da voz branca do intelectual de esquerda que fala o negro), acerca ainda da projeção, em Antônio Balduíno, de uma mitologia branca, ocidental e marxista.
No foco desse debate estão o corpo, a sexualidade, os modos de ser, de conviver e de sobreviver, as relações com a tradição negra e com a cidade construídos por Jorge Amado.
A afirmação da beleza e da força plástica do corpo negro de Balduíno é reiterada, pelo narrador e pelas situações narradas, em detalhes de formas e de circunstâncias racializadas, insistindo-se na desconstrução, na inversão ou mesmo na reversão do valor negativo das imagens instituídas. Cabelos crespos, nariz chato, lábios grossos, mãos e pés largos são referidos positivamente na descrições do personagem; a força do corpo ágil, elástico, de movimentos harmoniosos, é narrada nos embates do moleque, no morro e nas ruas, na capoeira, no box, nos enfrentamentos e perseguições. Pois na trajetória do personagem o corpo está sempre exposto aos golpes físicos do cotidiano violento e a vida é conquistada, literalmente, com a força do negro.
O corpo vigoroso do negro Balduíno é correlato de uma sexualidade também vigorosa, que, modo geral, não conhece limites à vontade de “derrubar” as negras no areal do porto. Sexualidade e sensualidade que se expressam desde o riso largo e fácil de Balduíno, reiterado a cada pequena vitória “do coração cheio de ódio” frente à “vida difícil e dura”, a gargalhada negra que explode na cidade e hoje nela ressoa, como um eco. Compõe-se assim a imagem do negro livre, sensual, bom, “puro como um animal e [que] tinha por única lei os instintos” — estamos a citar palavras que muito têm custado a Jorge Amado. A questão é decidir-se se, com tais palavras, o autor afirma o negro Balduíno ao mesmo tempo em que nega fortes paradigmas e valores da cultura e da civilidade ocidentais — a contenção, a racionalidade, a ordem convencionada —, ou, ao contrário, Jorge Amado reitera a subordinação do negro, submetendo-o a estereótipos que o ocidente construiu para demonstrar a sua inferioridade.
A afirmação e o elogio do corpo como lugar da resistência e do desejo é sobremodo relevante para os negros (como o é para as mulheres), que vivenciaram uma subordinação social, econômica e historicamente construída, mas reposta pelos discursos instituídos como inferioridade biológica, justificada a partir da cor da pele, como afirma Paul Gilroy[9]. De outra perspectiva, Cornel West insiste na necessidade da “aceitação plena da humanidade dos negros”[10] (o que deve ser lido com alguma cautela acerca desse universal, de que “humanidade” se está a falar), como insiste na denúncia veemente de uma cultura que põe em dúvida a beleza estética do corpo negro. É ainda em West — uma voz autorizada — que vou encontrar a exposição do crucial dilema de homens e mulheres negros em relação à própria sexualidade, mitificada, considerada ambiguamente como primitiva, obscena e animalesca e, ao mesmo tempo, excitante e atraente nas falas brancas hegemônicas:
Será que existe uma saída para esse impasse em que a sexualidade dos negros ou os libera do controle dos brancos só para aprisioná-los em mitos racistas, ou os confina à respeitabilidade dos brancos, enquanto faz de sua própria sexualidade um assunto tabu.[11]
Bem diversos são os lugares de fala de Jorge Amado e Cornel West, e não só pela diversidade étnico-racial que os separa. Está em jogo ainda o contraste entre uma ética protestante, que transparece em toda a reflexão de West, e a permissividade cúmplice ou complacente, brasileira e de Amado, à exacerbação da sexualidade masculina e do machismo, impregnados na cultura hegemônica nossa e projetados no negro Balduíno.
Mas são essas imagens afirmativas, de beleza, de força, de sensualidade e de potência que alimentam o imaginário afro-baiano e fazem com que os jovens negros de hoje enfrentem a exclusão social e econômica e ao mesmo tempo conquistem, de cabeça erguida — o orgulho negro —, a centralidade na produção simbólica na Bahia contemporânea, protegidos por uma “armadura cultural”[12].
Essa “armadura cultural” — tanto para Balduíno quanto na situação atual de um grande contingente dos negros baianos — tem dois outros componentes fortes, além da afirmação do corpo: a vivência continuada do pertencimento à tradição negro-africana e, às vezes dela derivadas, as estratégias de sobrevivência, que, embora sempre provisórias e economicamente precárias, os resguardam da concretude do lugar subordinado que o mercado de trabalho convencional lhes reserva.
A partir de determinado momento da narrativa, Jorge Amado dilui a diferença racial e despreza o potencial de resistência da afirmação identitária que desestabiliza valores culturais instituídos, potencial que seu herói negro representa (em que pese qualquer ressalva). Jorge Amado traz para o primeiro plano do romance a urgência de transformá-lo em agente no processo revolucionário de mudança da estrutura econômico-social. O romance escrito em 1935 culmina com a preponderância e a apologia — na voz emprestada ao negro Balduíno — da universal solidariedade de classe sobre a diferencial da raça.
Entretanto, não parece ser esse o horizonte possível, nas intensas vozes negras que se fazem ouvir contemporaneamente, seja no Centro Histórico de Salvador, tornado base territorial de alianças e de uma afirmação identitária surpreendentemente expansiva, seja em outras territorializações da afirmação de grupos étnicos em outras cidades do mundo.
A paisagem dos mendigos, moleques e vadios do século XIX — o Centro Histórico de Salvador — é ainda a mesma paisagem, mas um novo espaço para um complexo processo de ‘empoderamento’ étnico-racial, como intuiu — e preteriu — Jorge Amado na década de 30.


Notas

1 Para isso vale-se, principalmente, dos estudos de Laura de Mello e Souza - Desclassificados do ouro (Rio de Janeiro, 1986) e “Notas sobre os vadios na literatura colonial do século XVIII”(In Schwarz, Os pobres na literatura brasileira, São Paulo, 1983).

2 Fraga Filho, Mendigos, moleques e vadios na Bahia do século XIX. Salvador: Hucitec/EDUFBA, 1996, p.79.

3 Cf. Santos, Milton. Centro e centralidade na cidade contemporânea (In Gomes, M. A. Pelo Pelô; história, cultura e cidade, Salvador: EDUFBA, 1995, pp.11-29).

4 Franco, Ângela. Não só de referência cultural (sobre)vive o centro de Salvador. (In Pelo Pelô; história, cultura e cidade, p. 31-46).

5 RISÉRIO, Antônio. Avant-Garde na Bahia. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1995. p.66. O poeta e antropólogo Antônio Risério, escreve “que, usando livremente os conceitos de Gramsci, podemos afirmar tranqüilamente que, na Bahia de hoje, a cultura negromestiça não é dominante, mas é, certamente, hegemônica” - lucidez possível exatamente pela relativização e subordinação à complexidade local do esquema interpretativo por ele apropriado.

6 Sansone, Livio. O Pelourinho dos jovens negro-mestiços de classe baixa da
Grande Salvador. (In Pelo Pelô; história, cultura e cidade, p. 59-70). As demais áreas duras seriam o mercado matrimonial e as relações com a instituição jurídico-policial.

7 Gomes, M.A. e Fernandes, A. Pelourinho: turismo, identidade e consumo cultural. (In Pelo Pelô; história, cultura e cidade, pp.55-6).

8 Sansone. Op. cit., p. 62.

9 GILROY, P. “Urban social movemets, ‘race’ and community”. In Williams, P. e Chrisman, L. Colonial discourse and post-colonial theory. New York: Columbia University Press, 1994, pp.404-420.

10 WEST, C. Questão de raça. São Paulo: Cia. das Letras, 1994, p.19.

11 Idem, p.106.

12 Idem, p.33. A expressão, utilizada por Cornel West, vem após o alerta: “a cultura é uma estrutura, tanto quanto a economia ou a política”.


O QUE SÃO PONTOS DE CULTURA

Os Pontos de Cultura são definidos como iniciativas culturais desenvolvidas pela sociedade civil que estão sendo potencializadas pelo Governo Federal, através
do Programa Mais Cultura, em conjunto com o Governo Estadual.

A Secretaria de Estado de Cultura
do Rio de Janeiro, em parceria com
o Ministério da Cultura, vai liberar recursos para cada um dos projetos culturais selecionados em todo
o Estado.

Esses recursos poderão ser utilizados para a realização
de cursos e oficinas, produção
de espetáculos e eventos culturais, compra de equipamentos,
entre outros.


BENEFÍCIOS

Serão selecionados até 150 Pontos de Cultura, que receberão 180 mil Reais, distribuídos em três anos da seguinte forma:

1º ano: 60 mil reais
2º ano: 60 mil reais
3º ano: 60 mil reais



Saiba mais
aqui.

Plano de Ação Brasil-Estados Unidos de combate à Discriminação Racial é tema de reunião de trabalho

Serão realizadas nos próximos dias 30 e 31 de outubro reuniões de trabalho para tratar dos desdobramentos do Plano de Ação Brasil-Estados Unidos para eliminar a discriminação racial e étnica e promover a igualdade. O documento foi assinado em março deste ano pelo ministro Edson Santos e pela secretária de Estado dos Estados Unidos Condolezza Rice e prevê ações como intercâmbios entre faculdades, programas de liderança e de empreendedorismo. O encontro começará a definir os projetos que serão adotados e seus cronogramas.

Na quinta-feira (30) haverá o encontro do grupo técnico que, em sua segunda etapa, contará com a participação do ministro Edson Santos e do secretário de Estado adjunto dos Estados Unidos para a América Latina, Thomas Shannon. Na manhã de sexta-feira (31) acontecerão painéis sobre temas específicos. O primeiro tratará de educação e cultura, com a coordenação do embaixador norte-americano Larry Palmer e palestra de Sueli Carneiro. Em seguida será abordado o tema justiça e trabalho, sob a coordenação do subsecretário de Políticas de Ações Afirmativas da SEPPIR, Giovanni Harvey, e contará com a participação de Cida Bento. O último painel vai tratar de saúde e terá como palestrante Cristina Torres, da OPAS. Dra. Maria Inês Barbosa fará os comentários.

Fonte: Ìrohin

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Inscrições abertas para o FSM 2009


-> vá direto ao site de inscrições

1) Amazônia, território protagonista do FSM 2009

De 27 de janeiro a 1° de fevereiro de 2009, a cidade de Belém abrigará o Fórum Social Mundial. Durante esses seis dias, a cidade assume o posto de centro da cidadania planetária e referência mundial no questionamento à desigualdade, à injustiça, à intolerância, à devastação ambiental e ao preconceito.

As centenas de atividades autogestionadas – como acampamentos, oficinas, seminários, conferências, testemunhos, marchas, atividades culturais e artísticas entre outros – que acontecem ao longo desses dias são espaços de intercâmbio, reflexão e elaboração de propostas para a construção de outro mundo possível.

O território onde serão desenvolvidas as atividades durante o Fórum Social Mundial é composto pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e pela a Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), em uma área verde margeada pelo rio Guamá e pela floresta.



1-a) Inscrições para o FSM 2009

As inscrições para o Fórum Social Mundial 2009 estão abertas. De 7 de Outubro a 7 de Novembro estão abertas as inscrições para atividades e organizações. Em breve também será possível o registro de indivíduos, atividades culturais e imprensa. As inscrições podem ser feitas através do site www.fsm2009amazonia.org.br.

Apenas organizações poderão inscrever atividades que farão parte da programação do Fórum. Todas as atividades inscritas serão autogestionadas, isto é, a(s) organização(ões) proponente(s) tem inteira responsabilidade na definição de seu formato, nomes de eventuais palestrantes, e outras necessidades como o registro da atividade desenvolvida após o evento. A organização do FSM garantirá o local para a realização da atividade e se responsabiliza pela divulgação no programa impresso e no site do FSM2009.

Consciente das diferentes condições de pagamento de seus participantes, o Grupo Facilitador responsável pela organização do FSM 2009 estipulou preços diferenciados de inscrição:

Organizações*:
- Norte geopolítico** - US$ 216,00 (com direito a 1 delegado) + US$ 50,00 por delegado extra
- Brasil - R$ 150,00 (com direito a um delegado) + R$ 20,00 por delegado extra
- Demais países - US$ 83,00 (com direito a 1 delegado) + US$ 11,00 por delegado extra

Indivíduos:
- Norte geopolítico** - US$ 83,00
- Brasil - R$ 30,00
- Demais países - US$ 17,00

* Com direito a propor até quatro atividades de 1 turno (3 horas) cada uma.
* Composto pelos países integrantes da OCDE – Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Islândia, Itália, Japão, Luxemburgo, Noruega, Nova Zelândia, Portugal, Reino Unido, Suécia, Suíça (com exceção de Coréia do Sul, México e países Leste Europeu).



1-b) Hospedagem em Belém

Uma série de ações já está em prática para atender as diversas necessidades de hospedagem dos/as participantes do Fórum Social Mundial 2009. A principal delas é a campanha de hospedagem solidária (familiar ou alternativa):

Hospedagem Alternativa: alojamento em organizações, escolas, ginásios e entidades religiosas que poderão ser sem custo ou com pagamento de uma taxa de manutenção do espaço.

Hospedagem Familiar: alojamento em casas de famílias locais
A partir de setembro, estará disponível no site www.fsm2009amazonia.org.br um formulário online para solicitação de hospedagem solidária (familiar ou alternativa). Também no mesmo site, a população de Belém e região metropolitana que queira abrir a porta de suas casas para o mundo poderá oferecer hospedagem por cortesia, sem custo, ou nos valores R$ 27,50 e R$ 38,50 por pessoa/dia.

Mais informações podem ser obtidas junto ao Escritório do FSM 2009, Comitê do Governo do Estado de Apoio ao FSM ou ainda pelo email: acomodacao(em)fsm2009amazonia.org.br

Se você é morador de Belém ou região, participe desta iniciativa! Esta é a hora de conhecer novas pessoas, novas culturas e, sobretudo, praticar a solidariedade, em busca de um mundo melhor e uma sociedade mais justa.

Hospedagem Convencional: devido ao reduzido número de leitos disponíveis na cidade, as negociações de hospedagem convencional devem ser feitas diretamente entre as organizações e a rede hoteleira local ou através das agências de viagens com as quais costumam trabalhar. Não existe nenhuma agência oficial de viagem para o FSM. A listagem de hotéis disponíveis e preços praticados está disponível no site do FSM.



1-c) Acampamento da Juventude

Como nas edições anteriores do FSM, o Acampamento Intercontinental da Juventude (AIJ), além de alojar milhares de participantes do evento, funcionará como um espaço com vida própria, com atividades, programações culturais e políticas.

O AIJ estará situado dentro do território do Fórum, na Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra). Milhares de jovens de todo o mundo se encontram para um período de práticas diferenciadas em áreas como habitação, comunicação, reciclagem, gestão, entre outras.

Informações: acampamento(em)fsm2009amazonia.org.br




1-d) Programação básica

27/01/2009 –Marcha de abertura (tarde)
28/01/2009 – Dia da Pan-Amazônia: 500 anos de resistência, conquistas e perspectivas afro-indígena e popular.
Este dia será dedicado a levar ao mundo as vozes da Amazônia e se constituirá de diversas atividades, como testemunhos, conferências, além de celebrações e mostras culturais.
29 a 31/01/2009 – Demais atividades auto-gestionadas
1/02/2009 – Encerramento do FSM 2009, com ações descentralizadas e auto-gestionadas onde serão apresentados os acordos, declarações e alianças construídos no decorrer do FSM e celebração geral de encerramento.





Fonte: Fórum Social Mundial

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Colóquio África e Diáspora: refletindo sobre o lugar da mulher negra na geopolítica e os desafios da luta contra a pobreza e o racismo - BA






Local: Reitoria da UFBA – Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA
Data de início: 06/11/08, às 18:00
Data de término: 09/11/08, às 11:00

O evento é uma iniciativa da União dos Negros pela Igualdade (UNEGRO), em parceria com a União Brasileira de Mulheres (UBM) e a UNESCO, o qual celebra os 20 anos de existência da UNEGRO e de sua luta contra o racismo, bem como os 120 anos de abolição da escravatura no Brasil, e será um espaço de encontro de idéias, análises, reflexões e troca de experiências sobre a atual condição das mulheres negras na África e na Diáspora.

O Colóquio visa estabelecer um espaço de diálogo intercontinental sobre a situação política, cultural e econômica das mulheres negras na África e na Diáspora, na perspectiva de buscar propostas que favoreçam o enfrentamento dos desafios impostos pela discriminação e pela pobreza. A partir da discussão de temas estratégicos na contemporaneidade, pretende-se redesenhar cartografias de fronteiras da afro-descendência, dando visibilidade a produções, práticas e projetos em que a mulher negra seja protagonista, sujeito e não mais objeto.

O Colóquio representa uma importante oportunidade de refazer e resgatar caminhos e histórias, juntando vozes capazes de fortalecer a presença das mulheres negras como sujeitos políticos nas esferas de poder, em prol de uma ordem mundial socialmente justa, ambientalmente equilibrada e sem opressão de gênero, classe e raça, o que implica estruturar redes de contactos, projetos continuados e intercâmbios que ultrapassem o evento, ainda que se construam a partir dele.

O público esperado é de 300 pessoas, formado por militantes do movimento negro, militantes do movimento de mulheres, representantes de instituições públicas que tratam de políticas de promoção da igualdade de gênero e raça, com inscrições previamente realizadas. Articuladas para participar do colóquio estarão mulheres de Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Estados Unidos, República Dominicana, Benin, Guiné, Gana, Haiti e África do Sul.

A metodologia adotada para a realização do Colóquio África e diáspora - o lugar da mulher negra na geopolítica, refletindo sobre os desafios das lutas contra o racismo e a pobreza, inclui a realização de consultas ampliadas às organizações promotoras do evento e organizações parceiras, sobre os temas específicos a serem abordados relacionados ao tema central do Colóquio.

Durante as exposições dos painéis e na plenária, as pessoas poderão se inscrever e, após o pronunciamento de toda a mesa, fazerem uso da palavra por um tempo previamente estabelecido. Em cada painel haverá uma relatora, que registrará as contribuições vindas dos debates. Haverá também uma coordenadora previamente definida para exercer a condução da mesa e mediar os trabalhos em cada painel.

Todo o trabalho do Colóquio será documentado em vídeo, fotografia e transformado em um relatório escrito. As principais idéias, as experiências significativas, as propostas de estratégias de atuação das mulheres serão registradas em uma publicação, após a realização do evento.

Contatos para mais informações:

Sites:
www.unegro.ogr.br/coloquio
www.winecomunicacao.com.br

E-mails:
wine@winecomunicacao.com.br
nadja@winecomunicacao.com.br
elba.bm@gmail.com

Entendendo um pouco mais sobre Anemia Falciforme






Fonte: You Tube

Colégios ignoram lei que obriga ensino da cultura afro

Ministério da Educação diz que legislação, de 2003, não surtiu o efeito esperado
Lei prevê ensino da história da África, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade

CÍNTIA ACAYABA
THIAGO REIS


DA AGÊNCIA FOLHA Depois de cinco anos e mais de R$ 10 milhões gastos com capacitação de professores, a lei federal que obriga escolas públicas e particulares de todo o país a ensinar história e cultura afro-brasileira -uma das primeiras medidas do governo Lula- não saiu do papel.
São poucos os colégios que hoje têm o tema inserido na grade curricular. Às vésperas do mês da Consciência Negra, o MEC quer mudar o quadro. Diz que vai lançar, em novembro, um plano nacional de implantação da lei, com distribuição de material didático e monitoramento das atividades.
"Não houve um planejamento. Só algumas escolas públicas, em razão de professores interessados, adotaram a lei. As particulares nem sequer discutiram a temática", diz Leonor Araújo, coordenadora-geral de Diversidade e Inclusão do MEC. Segundo ela, o estabelecimento da lei deixará de ser uma iniciativa individual para se tornar institucional. O MEC não sabe quantas escolas já cumprem, de fato, a lei.
Araújo diz que o objetivo é combater a discriminação e dar à escola "uma nova identidade na área didático-pedagógica". "Alunos negros não conseguem se ver na escola, já que não existe nada que os identifique."
A lei 10.639, de janeiro de 2003, prevê a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira" e coloca como conteúdo o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade. Uma nova lei, a 11.645, de março último, mantém as disposições e inclui ainda a questão indígena.
Araújo diz que o MEC capacitou 40 mil professores, mas que não houve o resultado esperado. Afirma ser preciso qualificar também diretores e, coordenadores pedagógicos.
O não-cumprimento da lei fez com que promotores e entidades se mobilizassem no país.
Na Bahia -Estado que abriga uma das maiores populações de negros no Brasil- o Ministério Público instaurou inquérito civil em 2007 e notificou as escolas para que cumpram a lei.
Em São Paulo, o Ceert (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) entrou com representação no Ministério Público Federal para questionar 20 cidades da Grande São Paulo, incluindo a capital, sobre quais ações estavam sendo tomadas. O presidente do Sieeesp (sindicato das escolas particulares de SP), José Augusto de Mattos Lourenço, nega que a maioria das escolas não esteja cumprindo a lei.

O QUE DIZ A LEI 10.639, de 2003
Estabelece a inclusão no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira"
Coloca como conteúdo o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, bem como a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à história do Brasil

O QUE DIZ A LEI 11.645, de 2008
Mantém todos os dispositivos anteriores, mas inclui também a obrigatoriedade da temática indígena no currículo
Fonte: Presidência da República

Creche usa "mala da diversidade" para discutir diferenças
DA AGÊNCIA FOLHA, EM SANTO ANDRÉ DA AGÊNCIA FOLHA

Quando uma das professoras da creche Heitor Villa-Lobos, em Santo André, retira uma maleta do armário, as crianças correm em sua direção. Querem os bonecos de pano semelhantes a cada uma delas. "Tem branco, preto e marrom. E os cabelos são todos diferentes", dizem os alunos, de três a cinco anos, todos ao mesmo tempo.
Conhecida como a "Mala da Diversidade", o projeto da creche municipal foi premiado no 4º Prêmio Educar para a Igualdade Racial, do Ceert (Centro de Estudos das Relações do Trabalho e Desigualdades), que reconhece escolas e professores que cumprem a lei 10.639.
Em 2007, após atividade em que os alunos fizeram auto-retratos no papel em tamanho real, os educadores, que passaram por curso de formação do MEC, decidiram elaborar bonecos que as crianças pudessem levar para casa.
Os professores costuraram bonequinhos de pano em branco, marrom claro e marrom escuro. Chamaram os pais dos 197 alunos da creche para escolher os que representavam seus filhos e acrescentar rosto, cabelo e roupa. Alguns pais de filhos negros, conta a diretora da creche, Rosane Arioza, escolheram a cor branca ou a marrom claro para seus filhos.
"Neste ano, depois de toda a discussão sobre as diferenças entre os colegas, notamos crianças que começaram a se queixar e dizer: "minha mãe me fez branca, mas eu sou marrom". A criança não estava se identificando. Chamamos os pais, que concordaram em refazer os bonecos."
A diretora estima que 20% dos alunos sejam negros.
Todas as segundas, um sorteio nas salas decide quem vai levar a mala para casa por três dias. Em um livro de depoimentos guardado dentro da mala, os pais escrevem sobre as experiências dos filhos com os bonecos. "O objetivo é que reconheçam as diferenças e melhore a auto-estima desde cedo", diz Arioza. A creche promove ainda atividades com comida típica, música e dança africanas. (CA e TR)

Fonte: Ìrohìn

Por que analistas políticos bajulam os vitoriosos? - Fernando Conceição


Por que comentaristas políticos profissionais que atuam na imprensa brasileira não denominam Geddel Vieira Lima, ministro da poderosa pasta de Integração Nacional, pelo seu verdadeiro nome? Pela simples razão de que, no Brasil, a tradição que vem da colônia é bajular quem está de plantão no poder. Jornalistas da mainstream media, por instinto de sobrevivência, em geral temem contrariar quem está por cima da carne seca. Isto não apenas na análise política, mas em outras esferas da vida pública.

Um dia o jornal estampa que tal cantora está grávida. No outro ela anuncia que perdeu o bebê, simplesmente assim. Nenhuma suspeita. Simplesmente não se fala mais nisso. Fosse uma babá flagrada seduzida por um vendedor, programas populistas que grassam na tela, a exemplo, em Salvador, de "Bocão" e congêneres, fariam a farra.

Em relação ao tabuleiro político nacional, nas próximas semanas é certo que aquele ministro baiano vai ser citado nas colunas como provável sucessor de Antonio Carlos Magalhães no quarto maior colégio eleitoral do país, onde Lula sempre foi bem votado. A ironia, desde já, ouvindo os profissionais do ofício na cobertura em tempo real do resultado das urnas nos principais veículos de comunicação do país nessas eleições, é perceber a acriticidade dos palpites, a desfaçatez com que se elogia esse ou aquele "vencedor" pela simples vantagem obtida na contagem dos votos. Partindo esses elogios dos chamados "formadores de opinião", ou dos que têm espaço nos jornais, rádio e TV, é a própria opinião deles que merece ser recebida com certo grau de desconfiança.

Carlista de quatro costados

O governador Jaques Wagner declarou já na tarde do dia da eleição que o crescimento político de Geddel se deve à aliança do PT com o PMDB para elegê-lo, a Wagner, governador da Bahia. Foi sincero. A surpreendente vitória de Wagner em 2006, já no primeiro turno, dando também maioria de votos a Lula na reeleição deste, cacifou o governador a articular a indicação de um ministério.

O seu agora derrotado candidato a prefeito, Walter Pinheiro, se apresentava como nome natural àquela indicação. Porém o resultado das urnas forçava a presença do PMDB estadual, principal aliado do PT no governo, nas secretarias locais e ministério. Wagner elogiou e cacifou Geddel, ex-tropa de choque de Fernando Henrique Cardoso, para uma das pastas mais estratégicas e mais bem orçadas do atual federalismo. Pinheiro, que havia se insurgido contra a sua própria bancada na Câmara dos Deputados em votações como a reforma da Previdência e durante o "mensalão", ficou a ver navios.

A sua e a derrota do PT em Salvador nesta eleição municipal são o coroamento de um projeto político tão ou mais retrógrado quanto seria a vitória do ex-governador César Borges nas eleições da capital em 2004, quando o insosso João Henrique Carneiro bateu o já agonizante carlismo. Seja porque o prefeito reeleito, embora um bom-moço, é uma personagem inexpressiva em termos de autonomia política, econômica ou intelectual, seja porque o principal fiador de sua reeleição é da pior estirpe dos antigos mandatários que ainda enxergam a Bahia como uma capitania de donatários. Geddel Vieira Lima, filho e herdeiro de um carlista de quatro costados, defenestrado por ACM, precisa ser impedido de comandar este sofrido estado, como hoje ele imagina vir a governar.

A babação de ovo

O resultado das urnas o credencia a disputar espaços de poder com Wagner, que nesta eleição foi abandonado por aquele a quem serviu na pior fase do "mensalão" e na administração da crise do bispo Luiz Flávio Cappio, que se opõe à milionária "transposição" do rio São Francisco. Lula é um animal político, não aceita tutelas nem concorrências. Mas convém não esquecer que há dois anos Wagner era apresentado nacionalmente, devido à sua vitória eleitoral, como um dos nomes petistas à sucessão presidencial. Lula o mandou às favas agora, permitindo que Geddel fizesse barba, cabelo e bigode em Salvador, além de ter sido por ele "homenageado" com medalhas alguns dias antes do pleito. O mesmo Geddel que desqualificou dom Cappio e todos os estudos que cabalmente demonstram os equívocos e prejuízos da propalada multimilionária transposição do velho Chico.

Uma vez que a partir de agora toma lugar de relevância na política baiana, Geddel Vieira Lima deve ser não apenas investigado, mas ter o resultado de tais investigações publicizado. O teste que o credenciaria como apto a ocupar o vácuo que lhe permitiram Lula e o PT (Wagner, seu patrocinador, incluído) é o nível de respostas que ele der à exposição de seus antecedentes que, para quem convive há algum tempo com os bastidores da política regional, são nada abonadores. Ampla defesa deve ser-lhe oferecida, mas é preciso levantar o volume da herança material que ele herdou do ex-deputado e ex-secretário Afrísio Vieira Lima – denunciado por ACM. Que, apesar dos pesares, provou, diversas vezes, ter bala na agulha quando atirava. Foi assim, por exemplo, quando atacou Jader Barbalho.

Seria uma lástima que, no processo de fortalecimento das instituições que lutam por formas de gestão democráticas do Estado brasileiro, estilos de governança patrimonialistas e na base da intimidação – pelo dinheiro, pela ameaça ou pelo chicote – venham a ser refundados na Bahia, depois da morte dos seus antigos coronéis e oligarcas. A Bahia que hoje sangra com a estimativa anual de 2.000 assassinatos de jovens e adolescentes, a maioria negra e favelada. Geddel, ao se apresentar como principal cacique da reeleição de um prefeito que passou mais de três anos em trapalhadas e vacilações administrativas, representa esta ameaça. Ao menos, o seu histórico a isso remete. Que nos acautelemos, pois. E procuremos meios de nos defender da babação de ovo dos profissionais do colunismo político.

Fonte: Ìrohìn

Governo quer abrir delegacias raciais no país

O governo federal deve liberar recursos para incentivar a criação, em todo o país, de delegacias especializadas no combate a crimes raciais. A idéia é que elas funcionem no molde das delegacias da mulher, com o objetivo de facilitar o registro de queixas por discriminação e reduzir a impunidade que marca esse tipo de delito. O ministro da Igualdade Racial, Edson Santos, planeja abrir, no ano que vem, pelo menos uma "delegacia do negro" em cada estado. Ele vai nesta quarta-feira ao Congresso em busca de apoio para incluir a proposta no Orçamento da União de 2009.

De acordo com a proposta, cada estado que aderir à idéia receberá um auxílio de R$ 100 mil da Secretaria de Igualdade Racial, que é vinculada à Presidência da República. O custeio e os investimentos futuros ficarão a cargo das secretarias estaduais de Segurança Pública. O governo federal também promete ajudar na formação de policiais, psicólogos e assistentes sociais que trabalharão nas unidades.

Além das ofensas contra negros, as delegacias também vão registrar e investigar crimes contra integrantes de outras minorias étnicas, como ciganos e judeus, que também são alvo de discriminação. Segundo o ministro Edson Santos, todos têm dificuldade em registrar queixas por racismo nas delegacias convencionais:

"Há falta de preparo e má vontade dos policiais, que têm dificuldade para registrar os crimes de racismo. Em alguns casos, a vítima que vai à delegacia denunciar uma ofensa acaba sendo processada por calúnia".

Fonte: Ìrohìn

Vereador luta por igualdade racial

Patrícia França, do A Tarde

Gilmar Santiago (PT) elegeu-se para o segundo mandato de vereador com 7.126 votos. Foi ele o autor da indicação feita ao então prefeito Antônio Imbassahy (PSDB, na época do ex-PFL) de criação da Secretaria Municipal da Reparação (Semur), do qual foi um dos titulares durante o governo do prefeito João Henrique Carneiro (PMDB), com quem rompeu em abril deste ano, quando o PT decidiu lançar candidato próprio à Prefeitura de Salvador.

Embora no Executivo municipal também tenha ocupado a importante Secretaria de Governo – responsável pela articulação politico-institucional e administrativo das ações das secretarias municipais e assessoramento ao prefeito –, foi na Semur que Gilmar Santiago pôde, nos dois anos que esteve à frente da secretaria, avançar nas teses que defende contra a discriminação e em favor da igualdade racial entre os cidadãos.

“Na Semur, propusemos políticas públicas que garantissem a promoção da igualdade racial entre os cidadãos soteropolitanos, já que a maioria da população de Salvador é formada por afrodescendentes, que não desfrutam das mesmas oportunidades, e do tratamento à maioria negra, como comprovam indicadores como desemprego, analfabetismo, mortalidade, saúde, ocupação dos postos de poder e decisão”, assinala o petista.

Vitórias – Em articulação com as outras secretarias municipais, Gilmar Santiago disse que conseguiu algumas vitórias para a comunidade negra, como a parceria na área da Saúde, a partir da criação do Programa de Atenção à Saúde do Negro, e com a Secretaria de Emprego e Renda, com um programa de qualificação profissional de jovens negros. Outra conquista foi a implantação da Lei nº 10.639, que obriga o ensino de história da África e da cultura afrodescendente nas escolas públicas municipais.

Na Câmara, o petista – mais velho de cinco filhos, casado e pai de três filhos – conseguiu a aprovação de duas importantes leis para a luta anti-racista. Uma delas institui o 21 de março como o Dia Municipal para a Eliminação da Discriminação Racial.

A data foi instituída pela ONU (Organização das Nações Unidas) em razão do massacre de 70 jovens negros em Sharpeville, África do Sul, em 1960, enquanto participavam de um movimento nacional contra a lei do passe.

A outra lei cria o Conselho Municipal dos Direitos Humanos. Segundo Gilmar, o conselho será formado por representantes do governo e da sociedade, com a atribuição de acompanhar as ações governamentais, as denúncias de violações aos direitos humanos, as proposição de políticas específicas, além de atuar na luta contra o extermínio de jovens e negros da periferia.

Terreiros – Envolvido com a tarefa de conseguiu a regularização das áreas tradicionais onde se praticam as religiões de matriz africana, Gilmar conseguiu que a Câmara Municipal aprovasse o projeto, de sua autoria, que concede o Título de Utilidade Pública para os Terreiros de Candomblé Ilê Axé Iyá Nassô Oká (Casa Branca) e o Manso Dandalungua Cocuazenza, espaços sagrados de culto e preservação do patrimônio e da religiosidade afro-brasileiro.

O petista também propôs projeto que altera a Lei Complementar 01/1991 e estabelece cotas para negros nos concursos para a administração pública municipal; o projeto que veda qualquer forma de discriminação no acesso aos elevadores existentes na cidade, e o projeto que institui o passe livre ao idoso com idade a partir dos dos 60 anos.

Apesar de reconhecer que muitas batalhas ainda terão que ser travadas, Gilmar disse continuar acreditando na utopia de um mundo socialista, livre de todas as formas de discriminação conta a mulher, negros, homossexuais e de ordem religiosa. “Defendi a candidatura de Walter Pinheiro para a prefeitura, por ser um passo importante nas consolidação de todas estas políticas que Salvador precisa para ser mais justa e igual”, pontuou.

Acusado pelo prefeito João Henrique, durante a campanha eleitoral, de boicotar seu governo nos sete meses em que esteve à frente da Segov, o petista reagiu, dizendo que sempre foi leal ao prefeito. “Essa ingratidão é própria de alguém que está sob o efeito das alianças recentes com o DEM e, lá atrás, quando trocou de partido, aderir ao conceito do bateu-levou”, disse, referindo-se ao ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, principal liderança do PMDB na Bahia, conhecido pela forma incisiva com que ataca os adversários.

Fonte: A Tarde

Palmares: Onde o Brasil aprendeu a liberdade


Onde o Brasil aprendeu a liberdade

Jagas
Jagas - primeiro grupo étnico Palmarino

Considerado o maior estado negro independente das Américas devido à sua extensão, organização e estrutura de comando, o Quilombo de Palmares pode ter surgido na Serra da Barriga, entre Alagoas e Pernambuco, em 1600, de acordo com alguns historiadores, entre eles, Ivan Alves Filho, que redimensionou diversos aspectos estratégicos da resistência negra ao colonialismo português, no livro "Memorial dos Palmares" ( Xenon, RJ, 1988).

Também não há precisão sobre o número exato de escravos fugitivos que formaram inicialmente os primeiros aglomerados palmarinos, mas especialistas no assunto acreditam que as diversas cidades quilombolas de Palmares - podem ter existido mais de 20 - abrigavam entre 20 a 30 mil pessoas, em geral, dissidentes da ordem colonial como escravos, mulatos, mamelucos, índios, brancos sem eira nem beira, que encontraram nestas comunidades oportunidades de serem reconhecidos como cidadãos com direitos.

O primeiro núcleo palmarino foi constituído por 40 escravos bantos que fugiram para a Serra da Barriga, no final do século XVI, após rejeitarem a crueldade do sistema escravista. Ali, com o passar dos anos, o núcleo foi sendo engrossado por outros fugitivos do sistema colônia - baseado no cultivo da cana-de-açúcar - e sendo movido através do férreo controle penal, constituído por castigos, torturas e punições mais diversas para arrancar produtividade do escravo.

Serra da Barriga
Serra da Barriga

Assim, já no primeiro quartel do século XVII, Palmares se constituía numa sociedade antagônica ao colonialismo português, e passou, assim, a enfrentar as diversas tentativas de destruição dos agrupamentos quilombolas que passam a ter vida própria, uma certa autonomia e se constituiu numa ameaça séria ao sistema escravista.

Segundo Freitas (1988: 157-158), os primeiros quilombolas de Palmares eram originários de Angola e pertencentes a tribo dos jagas. Para Freitas, tratava-se de um povo indomável e amante da liberdade que durante muitos anos - especialmente sob o reinado da famosa rainha Nzinga ou Ginga Bandi - deixou os portugueses em constantes sobressaltos durante o processo de colonização de Angola.

Em vista disso, segundo ele, os portugueses, por questões de segurança em Angola, acabaram exportando para a colônia brasileira, no século XVI, os jagas beliciosos, que, só admitiam a "liberdade absoluta" (1988: 159). Já, em meados do século XVII, Palmares toma corpo e se torna um estado negro dentro da colônia brasileira. Deste período, os historiadores só conseguiram reconstituir parte do governo de Ganga-Zumba, o rei palmarino de grande força, poder e capacidade militar.

O meio-ambiente de Palmares

A respeito da região privilegiada que ocupava Palmares, vejamos, neste sentido, como Carneiro (1966: 17-18) descreve esta grande local, entre os estados de Alagoas e Pernambuco, que, naquela época, formava apenas a capitania de Pernambuco:

Rios - meio ambiente de Palmares

"Extrema fertilidade caracterizava essas matas, cortadas por amplo sistema potamográfico, representando principalmente pelos rios Ipojuca, Serinhaém e Uma, em Pernambuco, e pelos rios Paraíba, Mundaú, Panema, Camarajibe, Porto Alvo e Jacuípe, em Alagoas, com os seus afluentes e tributários. Com as primeiras chuvas do inverno esses rios enchiam e, entre maio e julho, transbordavam. A terra era boa e até mesmo montanhas eram de barro vermelho e os vales e as grotas estavam recobertos de uma 'crosta de terra escura, rica em húmus e matéria orgânica', também comum nos rios, nos alagadiços e nas margens de rios e regatos - provavelmente de aluvião.

A floresta estava povoada de árvores frutíferas - e ali se encontravam jaca, laranja, manga, lima da Pérsia, lima de umbigo, laranja-cravo, fruta-pão, cocos de praia, abacate, pitanga, limão, melancia, mamão, ananás, abacaxi, araçá, jenipapo, trapiá, jaracatiá, pitomba, sapucaia...

Tamanduá - meio ambiente de Palmares
Tamanduá - meio ambiente Palmarino

Em meio a essa mata movimentava-se uma variada população animal, desde a suçuarana até a onça pintada; jaguaritica (gatos-do-mato), tanto os vermelhos como os maracajás; antas; guarás; gauxinis; raposas, veados, pacas, cotias, queixadas, caetitus, quandus, coelhos, preás, tatus(tatu-peba, tatu-bola), tamanduás-mirins, quatis, preguiças, cassacos, gambás... peixes de rio, traíras, carás, jundiás, caborges, carapós, piaba, muçus...Nos brejos do Paraíba, encontravam crustáceos como pitus, caranguejos e aruás. Por vezes, avistavam-se as faces dos jacarés. Por entre as matas, arrastava-se enorme variedade de cobras, desde a cobra coral (inclusive a cobra-rainha) até a cascavel, a surucucu, a jararacuçu (nas variedades pico-de-jaca e malha-de-fogo), a jararaca (até mesmo a chamada do rabo-branco), a jibóia, a caninana, a jericoá, a papa-ovo, a cobra verde...Passarinhos de vários cores e tamanhos enchiam com seu canto a solidão dessas matas - sabiás, bicudos, canários, curiós, brejais, papa-capim, cardeais, arumarás (chopins), xexéus, guriatãs... aves de maior porte, aquáticas como socó-boi, o carão, a jaçanã, a sericória, o pato mergulhão, o paturi; galináceas como a nambu, a pomba-três-cocos, a inhacupé, a juriti; aves de maior amplitude de vôo como as aracuãs, as acuãs, as xardigueiras...

Era essa região abençoada o valhacouto dos negros palmarinos.

Nas matas os negos encontravam todos os elementos necessários á sua vida. Das plumas das palmeiras, de três metros de comprimento, fabricavam coberturas para suas chopanas, faziam chapéus, esteiras, vassouras, cestos, abanos. Com a imbiriba, faziam imbiras. O canzenze, uma leguminosa de fácil ignição, mesmo quando verde, era usada principalmente como pau de fachear. Podiam utilizar-se também da pininga, cujo miolo, enterrado mesmo em lugares úmidos "dura mais de cem anos", para a fabricação das suas casas. Com a entre-casca das árvores, os negros faziam as suas vestimentas rudimentares, pelo que contavam os holandeses. Provavelmente essa vestimenta era muito sumária, cobrindo apenas os órgãos genitais. Quando a delegação de palmarinos foi prestar vassalagem ao governador Pedro de Almeida, em 1678, os negros traziam "cobertas" as partes naturais, como costumam, uns com panos, outros com peles, de acordo com um documento da época"

As cidades-quilombolas

Mocambo Quilombola

O quilombo de Palmares era formado por mais ou menos 10 povoações perfazendo um total de 30 mil habitantes de diversas etnias. As cidades tinham funções especificas, e muitas delas, duravam pouco tempo, em virtude da ação repressiva das tropas coloniais. Subupira, por exemplo, não era uma cidade-moradia, mas um território de treinamento militar, onde, ali, os jovens aprendiam técnicas de guerra destinadas a enfrentar as tropas portuguesas. Já Macaco, situada na região central de Palmares, era a capital do sistema quilombola, onde, geralmente, ficava o Grande Chefe ou Rei do quilombo. Macaco tinha funções administrativas e políticas. Assim, as principais cidades-quilombolas eram as seguintes:

  • MACACO, situada sobre a serra da Barriga. Tinha mais de 1.500 casas e 8 mil moradores. Era a capital do estado negro por ser estrategicamente inexpugnável.
  • AMARO, ficava a 54 Km a noroeste da cidade Serinhaém.
  • SUBUPIRA Distante 36 Km de Macaco, tinha 6km de extensão. Estava delimitada por três montes. Era a cidade militar, onde treinavam os futuros guerreiros do quilombo.
  • OSENGA. Situava-se entre os rios ribeirinhos Paraibinha e Jundiá. Distava cerca de 20 Km a oeste de Macaco.
  • ZUMBI. Situava-se a 96 km a noroeste da cidade colonial de Porto Calvo. 5.
  • ACOTIRENE. Estava a 30 km ao norte de Zumbi e 180 km a noroeste de Porto Calvo.
  • TABOCAS- Vizinha a Zumbi.
  • DANDRABANGA A 84 km de Tabocas.
  • DOIS IRMÃOS- Perto de Acotirene.
  • ANDALAQUITUCHE- . Ficava a noroeste de Alagoas, 150 Km, na serra de Cafuxi.

A religiosidade

Não há ainda pesquisas mais determinadas sobre o grau de religiosidade praticado nas terras palmarinas. Em geral, os pesquisadores tendem a reproduzir informações dadas em documentos pelas expedições militares, que, ao destruir os quilombos, encontraram, num deles, imagens católicas.

De acordo, então, com Carneiro, os palmarinos tinham uma religião mais ou menos semelhante à católica. No mocambo do Macaco, possuíam uma capela onde os portugueses encontraram três imagens: uma do menino Jesus, "muito perfeita", outra da Senhora da Conceição e outra de São Brás.

Essa casa de oração já tinha sido avistada pela expedição de holandesa de Blaer-Reijbach que tentou destruir Palmares em 1645. "Ensinavam nos Palmares algumas orações cristãs, mas secretamente as práticas religiosas deviam ser uma incrível mistura de catolicismo popular, tingido de todas as superstições da Idade Média, e de invocações de fundo mágico. Não era permitida a existência de feiticeiros no quilombo", de acordo com Carneiro (1966: 27).

Hierarquia/Governo

De acordo com Freitas, o título de "Rei" em Palmares, no início de constituição da sociedade quilombola, não era eletivo, mas hereditário, obedecendo costumes dos jagas (1988: 170). O Rei, cujo título nobilárquico era Zambi ou Zumbi, estabeleceu a capital do governo no centro do território quilombola, para facilitar a relação entre os seus régulos, também ficar próximo de Porto Calvo a fim de manter relações comerciais com as povoações de brancos distantes dos núcleos mais urbanizados da capitania que também era ponto central dos traficantes e negociantes de toda a orla marítima.

Assim, em Palmares, o governo era centralizado na figura do Rei ou Grande Chefe. Todos obedeciam a Ganga Zumba, um dos primeiros grandes líderes, ou a Zumbi, que o sucedeu. Zumbi, no entanto, foi o primeiro líder do quilombo cuja indicação não partiu da linhagem da casta dos jagas, já que era brasileiro e tomou o poder à força, descontente com as articulações de desarmamento e paz empreendidas por Ganga-Zumba, em 1678 (Freitas: 1988).

Desse modo, o Rei quilombola ou o Grande Chefe, era servido pela sua corte de dignitários que se reuniam em conselho todas as semanas para resolução de problemas que se apresentavam na vida coletiva, e também de preparação para a vida futura. Cada cidade tinha um governador ou chefe, e todos faziam parte do Conselho dos Chefes, que se reuniam com o Rei ou Grande Chefe para tomada de decisões importantes, como mudar a estratégia de enfrentamento das cidades-quilombolas.

No entanto, houve conjunturas históricas, nas quais, o quilombo preferiu ser "móvel", isto é, indo se instalar, de lugar em lugar, na fuga da repressão. Em outras circunstancias, o quilombo era "permanente", e por isso, tinha capacidade de enfrentar e domar os ataques das tropas coloniais.

Na visão de Filho (1988: 15-16) , o estado palmarino tinha também suas estruturas pouco democráticas. Sobre as bases materiais quilombolas, erguia-se, segundo ele, um conjunto de instituições, valores, normas e regras de comportamento que devia pautar o modelo de vida de todos aqueles que se abrigavam em Palmares, sob a pena de serem aplicadas duras lições simbólico-políticas nos rompedores das normas implantadas em Palmares.

Ou seja: o regime político palmarino, segundo ele, nada tinha de liberal. Neste caso, punia-se com pena de morte: a deserção, o roubo, o estupro, o homicídio, o adultério e a traição. Este fato, explicou Filho, refletia as contingências de uma comunidade em guerra continua contra o colonialismo.

Sobre a disciplina em Palmares, vejamos Freitas explica a questão (1988: 177-178):

Se não fosse a rígida disciplina implantada pelo soberano negro em todos os sobados , disciplina sem tirania, disciplina consciente em busca da ordem e da coesão coletiva, a federação palmarina teria se tornado um conglomerado de indivíduos madrastos e imorais, de salteadores e de ladrões, pela facilidade que a terra oferecia para a manutenção da vida sob todos os aspectos da fartura. O sistema de governo centralizado, a distribuição de justiça com organização de tribunais regulares, a assistência religiosa, a moralidade implantada pelos capitães de milícia, a proibição da feitiçaria, as penas de morte pelos crimes de roubo, de adultério, de deserção, tudo isso, evitou a fatal regressão das raças aquilombadas em terra tão amena e dadivosa e salubre.

E Filho, por sua vez, detalha (1988:17-18)

A opção pela coesão máxima do grupo já estava expressa desde a segunda etapa de existência do Quilombo dos Palmares, com a instituição de um Chefe, eleito com base numa avaliação de "reconhecimento", de maior valor experiência.

Estrutura militar

Não se sabe muito sobre Subupira, a capital militar de Palmares. Acredita-se que ela ficava numa montanha de difícil acesso para impossibilitar, neste sentido, sua invasão pelas tropas governamentais ao campo de treinamento de guerra quilombola.

Nesta cidade, se destacavam as oficinas dos ferreiros, que produziam os machados, foices, martelos, facas, lanças, arcos e flechas. Estas oficinas abasteciam com armas os exércitos palmarinos, beneficiados pela grande riqueza de ferro em suas terras.

A respeito deste fato, então, é possível recorrer mais uma vez a Filho:

O ferro existia em abundancia em certas partes do território palmarino. (...) A utilização do ferro, a partir dos primeiros anos da década de 1630, contribuiu para dividir caracteristicamente a sociedade em camponeses, artesãos, guerreiros e funcionários. (...) Além da fabricação de foices, martelos e facões do mato, ali se instalaram oleiros e cultores de madeira, cujos trabalhos teriam, objetivo ao mesmo tempo artístico e utilitário. Sabe-se que também se fabricavam utensílios domésticos. (1988:14-15)

Décio de Freitas ( 1978: 219), por seu turno, destaca que nos documentos oficiais a Corte se referia em diversas passagens a uma figura enigmática que estaria ao lado de Zumbi, organizando a defesa de Palmares, depois de 1678. Era um capitão mouro, que, não se sabe como, teria ido parar em Palmares e teria aderido aos propósitos políticos de Zumbi.

Assim, este mouro teria implantado em Palmares a concepção de defesa militar dos mouros, com o sistema de paliçada cercando o quilombo, e até uma espécie de sistema de fosso, para impedir que os atacantes se aproximassem das cercas dos quilombos.

Coincidentemente, assim, os quilombos palmarinos, com a gestão de Zumbi, deixaram de ser " móveis" para serem " fixos", ou seja, passaram a enfrentar com mais segurança e determinação as tropas portuguesas. Foi, dessa forma, impondo dezenas de derrotas aos portugueses, que se Zumbi se tornou uma figura ultra-comentada na Corte e se tornou um ser imortal para os habitantes da capitania de Pernambuco.

A contratação de espiões e de informantes foi uma tática persistente bastante empregada pelas lideranças de Palmares. Praticamente, em toda a capitania, os palmarinos dispunham de escravos, comerciantes ou moradores pobres que informavam ao quilombo quando estava sendo organizada uma expedição militar para destruição dos aglomerados quilombolas.

Em troca destas informações, em muitas oportunidades, os palmarinos deixavam os habitantes cultivarem o solo em determinados trechos da terra quilombola e trocavam as informações por armas, munições, roupas, entre outros quesitos de subsistência.

Desse modo, em diversas ocasiões, as tropas oficiais, antes de se aproximarem dos quilombos, já eram alvos de ataques, de desestimulo e de armadilhas montadas pelos quilombolas.

A surpresa do contra-ataque fora uma das armas mais vitais dos quilombolas, que, desse modo, se aproveitavam da desorientação dos soldados para impor derrotas doloridas.

Grandes lideranças

Embora tenha resistido durante 120 anos - versão de Ivan Alves Filho -, Palmares, no entanto, consagrou para a história duas grandes lideranças, GANGA-ZUMBA e ZUMBI, embora o estado negro tenha tido outros nomes de destaque que não apareciam nos documentos oficiais do colonizador. Depois da destruição de Palmares, a Corte ainda se viu em apuros para conter a continuação do quilombo, e neste momento, outra liderança se destacou, CAMOANGA, citado em diversos documentos como continuador da saga de Zumbi.

Segundo Freitas, o próprio Ganga Zumba dispunha de um conselho de chefes muito poderosos. O próprio nome dos quilombos - Amaro, Aqualtune, Andalaquituche etc - eram os próprios nomes dos governadores destas aglomerações. Freitas diz que Aqualtune era a mãe de Ganga-Zumba. O próprio Rei tinha outros irmãos que gozavam de grande prestigio guerreiro e administrativo no estado palmarino.

Quase nenhum estudo consegue estabelecer o momento no qual Ganga-Zumba se torna o Grande Chefe ou Rei de Palmares. A presença de Ganga-Zumba nos registros em documentos oficiais aparecem muito entre os 1677-1678, quando, ele, adere ao colonialismo português, com o fim de preservar as famílias quilombolas nascidas em Palmares. Ele e seus generais tinham ganho benesses do exercito colonial , o que deixou Zumbi inconformado.

Ganga-Zumba era filho da africana Aqualtune, cujo nome também denominava uma povoação palmarina, e que, segundo Carneiro, o líder palmarino pré Zumbi vivia com três mulheres, duas negras e uma mulata. As duas primeiras eram estéreis, explica Carneiro, mas com a mulata teve muitos filhos - quatro ou cinco, pelo que se sabe. Tinha dez netos. Um dos seus filhos, Toculo, tombou em combate, em 1677; dois outros - Zambi e Acaiene - foram presos por Fernão Carrilho na mesma ocasião. Em 1678, um outro filho do rei, chefiava a embaixada de paz junto ao governador da capitania de Pernambuco, Pedro de Almeida. Este filho de Ganga-Zumba liderara o staff de 12 negros escolhidos a dedo para formar a delegação que iria negociar a paz entre quilombolas e os portugueses, dali por diante.

Em 1678, Ganga -Zumba estava por volta de 65 a 70 anos, cabelos brancos, alto, forte, musculoso, cheio de cicatrizes produzidas pelas intermináveis guerras contra as tropas colonialistas. Tinha muitos filhos e netos, alguns deles, tombaram nas guerras palmarinas.

Carneiro é quem estabelece um perfil mais adequado da figura polêmica e impar de Ganga-Zumba (1966: 35-36):

Parece claro, por tudo isto, que o rei Ganga-Zumba já era homem idoso quando se resolveu a fazer a paz em 1678. Não muito idoso, porém, pois em 1677 o rei e escapou duas vezes, quando Fernão Carrilho assaltou as suas praças-fortes nos mocambos de Aqualtune e do Amaro, sendo que da última vez o chefe negro estava ferido de flecha. Eram idosos, igualmente, todos os auxiliares imediatos na ocasião com a exceção do negro Gaspar. Os filhos do rei já eram casados e os seus sobrinhos Andalaquituche e Zumbi já eram chefes de mocambo e este último com independência bastante para negar-se aceitar a paz, embora o governador lhe mandasse, como parlamentar, o tio Ganga-Zona. Ora, também o título de Gana ou Ganga (em língua quimbundo Ngana, senhor) sugere certa idade, tanto no rei como seu irmão e no comandante-em-chefe, Ganga-Muiça. E significativo que este título não ocorra no caso dos chefes mais jovens

Na verdade, Ganga Zumba é o primeiro grande general de Palmares. Foi ele quem estabeleceu as grandes táticas quilombolas, construiu a cidade-militar, impôs, em muitas ocasiões, ação do quilombo "móvel", rediscutiu o sistema de alianças com os agricultores das povoações próximas à Palmares e tinha derrotado as tropas colonialistas em diversas batalhas sangrentas, com saldo até muito negativo para os exércitos palmarinos.

De origem de uma tribo arda, tinha sido eleito Rei ou Grande Chefe pelos seus próprios méritos, capacidade de lutar, liderança e conhecimento. Há informações segundo as quais sabiam ler e escrever em português, ao contrário de outros milhares d/e quilombolas.

Em 1677, Palmares sofre uma derrota de grande impacto. A expedição de Fernão Carrilho destrói algumas povoações, mata dezenas de quilombolas e impõe uma mudança de estratégia no comando quilombola. Nestas batalhas, tombaram dois filhos e um neto de Ganga Zumba, que, mesmo assim, ainda dar continuidade a reorganização de Palmares.

Sabendo das fragilidades de Palmares, Pedro de Almeida, então governador da capitania de Pernambuco, propõe paz entre os quilombolas e o governo. Dali, por diante, os quilombolas não seriam mais perturbados pelo governo: iriam viver numa região denominada Cacaú, e poderiam manter " comércio e trato" com o moradores. Um das cláusulas mais polêmicas deste acordo é que Ganga-Zumba teria que devolver aos proprietários de terras os escravos que tinham se refugiado em Palmares e passaram a integrar seus exércitos regulares.

Foi por causa deste acordo que Zumbi divergiu de Ganga-Zumba, que, mais à frente, se torna alferes das tropas portuguesas, juntamente com os integrantes de seu estado-maior.

No entanto, Ganga-Zumba não tem tempo para gozar dos privilégios estabelecidos pelo governador Pedro de Almeida. Ele morre envenenado e seu cargo é ocupado por Zumbi.

Ao contrário de Ganga -Zumba, Zumbi não era africano escravizado e fugitivo das fazendas de cana-de-açúcar de Pernambuco. Ele nasceu, em 1655, em Palmares, possivelmente filho de pais africanos, que eram líderes de mocambos. Em alguns livros, Zumbi é dado como sobrinho de Ganga-Zumba, filho de um irmão deste.

Uma expedição portuguesa destrói o quilombo onde Zumbi nasceu e aprisiona homens, mulheres e crianças. Chama a atenção do chefe da expedição comandada por Brás da Rocha a presença um bebê que chora bastante. Este bebê é levado para Recife e entregue ao Padre Melo, que mostra carinho e atenção para com o bebê Zumbi.

Zumbi, então, passa 15 anos no convento, recebendo educação esmerada dado pelos padres, e ali aprende Latim, Português, musica e canto. Torna-se um auxiliar importante nas práticas litúrgicas do padre Melo. O padre o descreve como um jovem muito inteligente e aplicado.

Quando completa 15 anos, estranhamente, Zumbi, numa noite, foge do convento e retorna para Palmares, onde é acolhido por Ganga-Zumba. Ele se um integrante dos exércitos palmarinos, onde galga postos, e se torna, aos 23 anos, no comandante-geral das tropas quilombolas.

Quando assume o cargo de Rei ou Grande Chefe, em 1678, Zumbi leva Palmares a se sentir prospera e feliz, pois, vence inúmeras batalhas e cria dois postulados míticos. Em primeiro lugar, que ele era um guerreiro imortal, ninguém poderia vencê-lo ou matá-lo. Em segundo, que Palmares era inexpugnável, ou seja, era uma fortaleza-cidade incapaz de ser atingida pela ação colonialista.

Expedições antipalmares

De acordo com Carneiro, Palmares teria sofrido 17 tentativas para derrubar sua estrutura de poder e de organização. De acordo , então, com antropólogo, vejamos quais foram estas guerras contra Palmares:

I - Holandesas

  • Rodolfo Baro - 1644
  • João Blaer - 1645

II - Lusos-Brasileiras

  • Zenóbio Accioly de Vasconcelos - 1667
  • Antonio Jacome Bezerra - 1672
  • Cristovão Lins - 1673
  • Manuel Lopes - 1675
  • Fernão Carrilho - 1676
  • Fernão Carrilho - 1677
  • Gonçalo Moreira - 1679
  • André Dias - 1680
  • Manuel Lopes - 1682
  • Fernão Carrilho - 1683
  • João de Freitas Cunha - 1684
  • Fernão Carrilho -1686
  • Domingos Jorge Velho -1692
  • Domingos Jorge Velho -1694

Filho, no entanto, contabiliza, na guerra contra Palmares, cerca de 66 expedições portugueses e 31 ataques quilombolas em 120 anos de combate entre as duas partes.

Vejamos, então, seu esquema investigativo:

  1. 1ª. Fase - 1596-1630 - Os ataques coloniais visavam 4 a 5 quilombos na Serra da Barriga. Foram duas expedições e mais de seis ataques quilombolas aos povoados.
  2. 2ª. Fase - 1631-1654 - Fase da ocupação holandesa, com os ataques coloniais no quilombo de Macaco, nas proximidades de Porto Calvo e Serra da Barriga. Foram quatro expedições e quatro ataques negros.
  3. 3ª. Fase - 1695-1716 - Zumbi morre em 1695. A luta prossegue com a retomada da guerrilha, abandonada durante a defesa de Macaco. Foram 29 expedições e oito ataques palmarinos.

A queda de Macaco

As sucessivas vitórias dos palmarinos ensejou que a Corte se organizasse com mais afinco para combater o quilombo. Nomeado governador da capitania de Pernambuco, em 1693, Caetano de Mello e Castro, decide, então, exterminar os negros de Palmares de qualquer de maneira. Os habitantes da capitania são obrigados a doar parte de seus ganhos para bancar a super coluna repressora - mais de 3 mil homens. Os organismos públicos - como Câmara de Vereadores - são colocados aos pés do governador. Este, contrata o bandeirante Domingos Jorge, que estava descansando no Piauí, para com sua tropa de índios e mamelucos, comandar o exercito hibrido que deveria , de uma vez por todas, acabar com Palmares.

Velho selecionou os melhores e experimentados índios para batedores, formando a ponta da vanguarda da tropa em movimento, os quais foram descobrindo novos caminhos e tomando as precauções para evitar qualquer surpresa como da primeira entrada. Seus índios eram, segundo Freitas, homens acostumados a farejar na mata densa igual a cães perdigueiros. Além disso, viam e ouviam pelos seis sentidos, além da facilidade com que galgavam as árvores mais altas longe para observações (1988: 314-315)

O primeiro ataque de peso do exercito de híbridos comandados por Velho aconteceu em 23 de janeiro de 1694. Velho chegou a Macaco e percebeu as fortificações em torno do quilombo. No entanto, crente no número de homens acostumados com a guerra nos sertões brasileiros, o bandeirante ordenou o ataque a Macaco, a capital, onde ficava Zumbi, o líder máximo da confederação quilombola. Os soldados avançaram contra a cerca e galgaram-na por meio de escadas. Mas antes que atingissem o território inimigo, começaram a ser abatidos a flechadas e a tachos de água fervendo jogados pelas mulheres quilombolas, e também e pedaços imensos de madeira em brasa, que atingiram os atacantes, que soltaram gritos de dor e agonia. "A tropa atacante esmoreceu por um instante e retrocedeu bastante para não ser dizimada pelos negros vigilantes. Os mais afoitos caiam nos fojos, cavilosamente disfarçados, com estrepes de ferro e profundos o bastante para causar ferimentos", explica Freitas.

Segundo ele, Macaco, ao que, indica, parecia inexpugnável porque a fortificação era precedida pela parte de fora, em toda sua extensão, "de fojos, buracos, poços de água, paus de pontas aguçadas e trançados, enfim, toda sorte de empecilhos para os avanços. Duas quatrocentas e setenta braças craveiras mediam as fortificações de cerca contínua, com baluartes e todos os engenhos de morte possíveis que os palmarinos conseguiram arranjar na sua indústria rudimentar, posta á serviço da guerra." (1988: 314-315)

Em vista disso, o português Vieira de Melo, um dos comandantes das tropas, em resolução conjunta com o bandeirante Velho, resolveu construir uma cerca em torno de Palmares durante à noite para melhor posicionar seus homens. Os palmarinos tentaram intervir e não conseguiram impedir a construção da cerca.

O fato preocupou bastante Zumbi e seus generais, pois, através uma estratégia idêntica ao dos palmarinos, os atacantes pareciam querer encurralar Macaco com outra cerca, e assim, terem melhores condições para enfrentar as armadilhas e a fúria dos arqueiros palmarinos.

O segundo ataque a Macaco aconteceu em 29 de janeiro 1694, mas quilombolas resistem, matam diversos soldados e deixam centenas de feridos. Zumbi recompõe suas legiões e determina que os velhos, mulheres, inválidos e crianças, todos, empregassem seus esforços na indústria de guerra, isto é, na confecção de flechas e arcos, de estrepes de toda natureza, para a defesa do mocambo.

Pelo lado colonialista, a situação ainda não é boa. Os assaltos a capital quilombola nas noites de 23 e 29 de janeiro de 1694 deixaram nas tropas atacantes profundas feridas e a certeza de que a tomada da cidadela negra não poderia ser levada a efeito sem artilharia e sem longos preparativos, segundo Freitas ( 1988: 318)

O terceiro ataque, em 6 de fevereiro de 1694, no entanto, é mortífero. As tropas oficiais conseguem levar para próximo da cerca do quilombo seis canhões, arma mortífera que os palmarinos desconheciam. Os tiros de canhão penetram na cerca, abrem crateras e Macaco fica exposta à sanha do inimigo. Vieira de Mello e Velho ordenam o ataque geral ao baluarte quilombola. Os negros resistem, enfrentam cinco ou seis soldados de uma só vez, matam, e morrem. O chão de Macaco começa a ficar coalhado de corpos negros, perfurados a bala, golpes de sabre e espadas. Palmares começa perder a sua aura de cidadela difícil de ser assaltada.

Zumbi e dezenas de seus homens, no entanto, conseguem escapar do ataque, e se refugiam na floresta da Serra de Dois Irmãos, distante do conflito, que eles conheciam bem. Assim, se retoma um antigo processo de luta quilombola na Serra da Barriga: a guerra de guerrilha dos primeiros tempos de Palmares, já que, agora, tinham perdido sua principal cidade, homens importantes e a estrutura de comando dos quilombos, que se desfazem.

A morte de Zumbi

Num dia de setembro de 1694 - sete meses depois da queda de Macaco - um grupo de moradores de Penedo, povoação alagoana, captura o mulato Antonio Soares. Ele era um dos principais auxiliares de Zumbi. Ao reconhecê-lo, os moradores decidem enviá-lo sob escolta a Recife. No meio da viagem, o grupo ele topa com outro grupo, comandando pelo paulista André Furtado de Mendonça. Este, então, se apodera do prisioneiro e o tortura para que confesse o esconderijo de Zumbi. Antonio Soares acaba falando, aceitando guiar a tropa em troca de uma oferta de liberdade proposta em nome do governador.

O novo quilombo de Zumbi, naquela ocasião, se situava na Serra Dois Irmãos, banhada pelo Rio Paraíba. Furtado de Mendonça conhecia bem o local, onde no ano anterior Zumbi conseguira evitar travar um combate com os paulistas. Mas nesse dia Zumbi estava acompanhado apenas por seis guardas, pois os outros combatentes tinham saído para fazer um reconhecimento de rotina pelas redondezas.

A tropa de Furtado de Mendonça aproxima-se prudentemente do quilombo. Uma vez estabelecido o cerco, Antonio Soares se destaca do grupo e vai na direção de Zumbi. Sem hesitar, ele o esfaqueia, dando assim o sinal para o ataque. Aproveitando-se da surpresa provocada pelo seu gesto, Antonio Soares foge imediatamente. Zumbi, mesmo ferido, luta bravamente, mata alguns soldados, mas cai, ferido mortalmente. Era 20 de novembro de 1695. Vibrando com o troféu, Furtado de Mendonça corta a cabeça o líder palmarino, que é levada a Recife e colocada em cima de um poste de um praça, por orem do então governador Caetano Mello. O gesto servia para que a população pernambucana e alagoana não pensasse que Zumbi era imortal, como era apregoado pelas vilas e povoações do nordeste.

No entanto, a morte de Zumbi não desestimulou a continuidade do movimento quilombola em Palmares. Apesar de terem perdido suas cidades, os sobreviventes continuaram criando quilombos e as fugas das fazendas voltaram a acontecer. Como detalha Filho:

(...) os palmarinos tentavam exasperadamente reconstruir o seu movimento. Outros quilombos se formaram rapidamente nos pontos inacessíveis da floresta. De dimensões forçosamente reduzidas, esses quilombos, são, na essência, unidades de autodefesa. Vivendo da caça, da coleta e de pequenos roçados, os palmarinos, consideravelmente, enfraquecidos em termos demográficos, regridem a um nível que pode ser comparado àquele verificado antes de 1630. Contudo, a reestruturação relativa dos quilombos revela alguns novos dirigentes como Quissama, Ouvidor e Camoanga. Muito provavelmente, esses novos dirigentes estavam conscientes da amplitude do desmantelamento da organização social do quilombo e dificilmente poderiam acreditar no restabelecimento da antiga potencia.

Palmares ficcionada

"Os terríveis estrepes - precipícios de defesa ignorados na localização maliciosa até pelos espias de confiança maior - eram dos mais bárbaros engenhos inventados pelos bongos, bantos canibais da África central.

Armadilha cruel, os estrepes consistiam em longos fossos de três a quatro varas de fundo por oito ou de boca. As valas, serpenteando estrategicamente no limite dos quilombos reais e cubatas de mais importância, só deixavam uma passagem manhosa e, assim mesmo, tão estreita que não dava cabimento a mais de um passante de cada vez.

Daí, a precisão de guia sabedor sempre que alguém tomasse chegada para assunto de paz.

No fundo do engenho, em toda a extensão do sulco largo, os uantuafunos - escravos inteiros do soberano - usavam semear milhares de pontas de vinhático, sucupira branca ou maçaranduba, paus que, mergulhados no chão, ainda que dentro d'água, não apodrecem nunca mais!

Os pontaços, bem ocultos na vegetação barba, ficavam apenas dois palmos, se tanto, acima do fundo.

Depois, pronta aquela semeação do Tinhoso, todo o fosso era inundado até meia altura, lodo cobrindo o pescoço de um homem criado, onde mais planta rude dava de ficar boiando suas folhas e raízes.

Cena do Filme de Cacá Diegues

Cena do filme Quilombo de Cacá Diegues

Afundadas, ficavam só aquelas pontas peçonhentas....

Então, no disfarce do oco, os negros entrançavam por cima muitas embiaras e gravetos com bocados de pegados de terra seca ou uma camada fina de grama amarrando ao rés do solo suas artes tenebrosas.

Alguma cobra que aparecesse no desordenado das malocas ou na mata suja de redor era atirada também ao fundo do engenho mais traiçoeiro do mundo.

Então, o bicho só podia quentar um pouco de sol pelas frestas do chão e coisa feia era espiar dentro de uma fresta dessas!

Ora, assim quando acontecia um troço inimigo surgir para qualquer ofensa de guerra ou afronta de força, ouvia-se logo um toque triste, muito à feição de um grito de agouro, vindo dos mistérios do nada.

Esse mesmo toque, porém, rebolado nas alegrias, era ouvido quando se aproximavam comitivas amigas ou forasteiros que vinham negociar coisas com os da terra. Nessas ocasiões, guias de dentro saíam de suas locas para ensinar caminho seguro".

Capa do Livro Ganga Zumba

(Ganga Zumba, romance de João Felício dos Santos, págs.90-91)

Um dia, estava eu consultando alguns livros na Biblioteca municipal Mário de Andrade, de São Paulo, e entre os que havia pedido veio, por engano, uma obra manuscrita do século 17. Notei o engano ao folheá-la. Não me recordo o nome, mas trazia com especial destaque uma carta do então governador da Capitania de Pernambuco, Caetano de Melo e Castro, dirigida ao rei de Portugal. Falava de um certo mouro, construtor das fortificações do Quilombo de Palmares, a quem responsabilizava pelas dificuldades que as tropas reais encontravam para invadir e aniquilar o quilombo

Verificado o engano, devolvi o livro, mas nunca mais esqueci o mouro.

Quem seria ele? Como veio parar no Brasil? E ainda: que desígnios o levaram até as Alagoas (era parte da Capitania Pernambuco), quando se sabe que Salvador era a porta de entrada do Brasil naquela época? E o mais incrível de tudo: como foi parar no Quilombo de Palmares ?

Recuperar a história desse personagem, depois de trezentos anos, não seria uma tarefa nada fácil. Consultei dezenas, centenas de livros e nada. Nenhuma palavra sobre o mouro. Procurei nos arquivos oficiais ( sempre em péssimo estado de conservação, ou desorganizados) em São Paulo, Bahia, Pernambuco e Alagoas. Da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, recebi um microfilme, cujo conteúdo, depois de certa peripécia para copiar, não ajudou muito

Descendentes dos Palmarinos
Descendentes Palmarinos

Já que no Brasil o mouro era um fantasma, resolvi fazer o percurso inverso. Atravessei o oceano até Andaluzia e dali até Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia. Visitei bibliotecas, centros culturais e museus. Tive acesso a carta de emires que apelavam aos reis de Espanha e Portugal pelos seus filhos desaparecidos e que suponham estar escravizados em terras do Novo Mundo. Ofereciam, resgates

De tudo isso consegui extrair bom material, mas o melhor mesmo foram as conversas com os beduínos do deserto e os berberes das montanhas. Sob as tendas do deserto e das khaimas das montanhas ouvem-se as mais fascinantes histórias. Ali, a cultura oral ainda prevalece, o mundo da magia está presente e faz parte do dia-a-dia

E, graças às histórias contadas por essa gente, que as ouviu dos avós e estes avós de seus avós, foi possível entender como o mouro veio parar no Brasil e como se deu sua participação na Guerra de Palmares.

Ressalve-se que houve outros mouros que participaram de outros movimentos libertários, mas isso são outras histórias.

(A incrível e fascinante história do Capitão Mouro, romance de Georges Bourdakan)

Referências

  1. Bourdoukan, Georges. A incrível e fascinante história do Capitão Mouro. Sol e Chuva, São Paulo: 1997.
  2. Carneiro, Edison. O quilombo de Palmares. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro: 1966.
  3. Filho, Ivan Alves. Memorial dos Palmares: o movimento precursor da libertação negra no Brasil. Xexon, Rio de Janeiro: 1988.
  4. Freitas, Mário Martins de. Reino negro de Palmares. Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro: 1988.
  5. Glasgow, Roy. Nzinga. Perspectiva, São Paulo:1982.
  6. Santos, João Felício dos. Ganga-Zumba. Circulo do Livro, São Paulo: 1985.
Fonte: Questão Negras

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