quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Desabafo: dor da intolerância

O que é para uma filha perder a sua mãe? É antes de tudo uma dor que não sara nunca, é algo de uma complexidade imensa pois você sente que rompeu-se um vínculo anterior, o que te ligava ao passado, pois quando se olha para um filho, para uma filha, só se vê o presente, mas a referência ao passado está na mãe, está no pai, no avô e na avó.

Agora imagine perder a mãe num caso extremo de agressão. Pior ainda, agressão por questão religiosa, por simples desrespeito, pela não aceitação da fé do outro? Pois foi assim que num belo dia vi minha partir do Ayê para o Orun, da vida terrestre para a vida espiritual, pelo simples fato de ter se tornado vítima preferencial das agressões religiosas da dita "Igreja" Universal do Reino de Deus.

A morte de Mãe Gilda de Ogum, minha mãe, provocou muita dor, mas teve o efeito benéfico de transformar a dor em ação. Pessoas do país inteiro se mobilizaram. A solidariedade foi se avolumando e o que era para se tornar uma data triste virou um momento de afirmação e de luta em torno da nossa religiosidade quando, o dia 21 de Janeiro, dia do falecimento de minha mãe, se transformou no Dia Nacional de Luta Contra a Intolerância Religiosa.

Essa data, que começou aqui na Bahia, já se expandiu para o restante do país e agora rompe as fronteiras do Brasil e ruma para tornar-se uma data oficial do Mercosul, pois países como Argentina e Uruguai realizarão também no dia 21, atividades de afirmação das religiões de matrizes africanas.

Essa é uma grande vitória. É uma vitória, antes de tudo, dos nossos Orixás que nos permitiram lutar e vencer cada etapa deste combate. É uma vitória de Mãe Gilda, que do Orun nos acompanha a cada passo que damos. É uma vitória de pessoas e organizações do movimento social que confiam em nossa causa e conosco somam forças. Enfim, é uma vitória de todos nós que acreditamos num mundo melhor onde a palavra tolerância seja substituída por respeito, pois não queremos que ninguem nos tolere, mas exigimos que nos respeitem, a nós e à nossa fé.

Axé

Mãe Jaciara de Oxum
Ialorixá do Terreiro Abassá de Ogum/CEN
Publicado em 21/01/08 na coluna Opinião / Jornal A Tarde.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | JCpenney Printable Coupons