quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O sorriso de Marx, o colapso financeiro, a luta de classes... E nós negros e negras, onde entramos?


No meio de todo este caos financeiro e em conversas esporádicas aqui no Rio de Janeiro onde vim passar merecidas férias com a minha noiva, escuto a boa e antiga máxima: Marx já sabia, e mais do que isto, nos informava que a questão do capitalismo se resolveria por si só.
Durante muito tempo, Marx foi um dos pensadores que se preocupou com o fenômeno das crises econômicas, considerando-as inevitáveis e inerentes ao sistema capitalista. Do outro lado boa parte dos economistas insistia na capacidade auto-reguladora do mercado, dando assim, um caráter de segundo plano as crises. Digamos que as colocando como algo casual e externo.
Estive lendo na Folha de São Paulo que a crise aumentou a venda dos livros de Marx em seu país natal (Alemanha) em pelo menos 300%. Certamente porque os capitalistas desejam entender o que deu errado. E esta é uma boa pergunta.
Para os europeus, a culpa é dos banqueiros e ao abuso do capitalismo, este inclusive é um termo que eu li e achei deveras interessante.
A constatação é fruto de uma pesquisa feita em 6.276 pessoas de vários países da União Européia na primeira quinzena de outubro do ano passado em que 80% dos entrevistados disseram que os banqueiros são completamente culpados pela crise, na mesma pesquisa, mais de 70% disseram que os bancos centrais dos seus países também.
Inclusive, imaginei-me em um dos elegantes bistrôs de Paris, saboreando um café com um francês típico, ou seja, um leitor inveterado e intelectual a falar com o seu sotaque característico: "sabe Marcos a culpa não é do capital", então ele para, toma mais um breve e delicado gole de café, depois calmamente limpa o lábio superior com fino guardanapo e conclui: "mas do abuso do capital". Por minha vez, utilizo-me da minha "African-noblesse oblige", e apenas sorrio.
Brincadeiras a parte, Marx revela a emergência da dimensão negativa de um sistema marcado pela contradição. Ao contrário do pensamento econômico tradicional, aqui a crise está intimamente associada à crítica. Mas não a uma crítica subjetiva de alguém que analisa de fora e condena, e sim a uma crítica objetiva: desnudando a dimensão negativa no mau funcionamento do sistema.
Ora, se o capital é valor que se valoriza, os momentos em que ele desvaloriza o valor existente de maneira inevitável, comprometendo assim a base de seu crescimento, são momentos em que ele mesmo se contradiz e nega as condições de existência, e Marx afirma: "O capital é trabalho morto, que apenas se reanima, à maneira dos vampiros, sugando trabalho vivo e que vive tanto mais quanto mais trabalho vivo suga".
O processo é de venda e compra, mas às vezes ele se inverte. Em meio a isto tem a necessidade da utilização do dinheiro e na ausência da harmonia entre o período necessário para a venda e compra e vice-versa, ocorre o que chamamos de crise.
A discrepância ocorre no mercado de trabalho, ou nas compras e vendas recíprocas dos vários setores em que se divide a produção entre os capitalistas, ainda mais considerando que tudo isso se realiza pela concorrência. A discrepância de valores significa então que alguns terão prejuízo, talvez grande, vindo a falir. Parte do capital existente se desvaloriza, negando o próprio conceito de valor que se valoriza.
E em meio a isto tudo tem luta de classes e todas estas outras coisas que todo mundo já sabe, mas como nem tudo é perfeito existe uma lacuna em Marx, Angels e como conseqüência de toda a esquerda, com a questão racial, e esta contradição chamada, Movimento Negro.
Na verdade fomos tratados como subprodutos, na verdade e melhor chamados por "sem história", assim éramos tratados naquele momento. E o Manifesto Comunista de 1848 já dizia que a burguesia arrastaria: "todas as nações, mesmo as mais bárbaras, na corrente da civilização." E quem eram as mais bárbaras? Imaginem! Marx e Engels chegaram a apoiar invasão da Argélia pelos franceses. Engels chegou a afirmar que aquele era "um feliz acontecimento para o progresso da civilização".
Analisando os efeitos da dominação britânica sobre a Índia, Marx escreveu: "Os hindus não poderão colher os frutos dos novos elementos da sociedade, que semeou entre eles a burguesia britânica, enquanto na própria Grã-Bretanha as atuais classes governantes não forem desalojadas pelo proletariado industrial, ou enquanto os próprios hindus não forem bastante fortes para acabar de uma vez para sempre com o jugo britânico. De qualquer modo, podemos estar certos de que assistiremos, em futuro mais ou menos distante, à regeneração deste interessante e grande país". Continuou ele: "Somente quando uma grande revolução social se apropriar das conquistas burguesas, o mercado mundial e as modernas forças produtivas (...) somente então o progresso humano terá deixado de assemelhar-se a esse horrível ídolo pagão que só bebia o néctar no crânio do sacrificado".
Mas cabe lembrar que no passar do tempo e apesar da não resposta oficial comunista às questões raciais tivemos através de pessoas ligadas ao partido opiniões bastante interessantes, a exemplo de Leôncio Basbaun e Astrojildo Pereira que chegou a chamar Zumbi " do nosso glorioso Espártacus", mostrando a superioridade moral dos palmarinos. Basbaun chegava a dizer: "esse preconceito, de fato, expulsa o negro dos trabalhos leves: o negro não pode ser garçom, barbeiro, caixeiro. Poderá ficar na cozinha, tratar do lixo ou carregar peso. Os bons empregos pertencem aos brancos (...) Até a religião do negro é fora da lei. O branco acha que a religião do negro é feitiçaria. Macumba não e religião, mas crime e bruxaria, porque tem certos ritos que os brancos não compreendem".
Ele, de maneira pioneira e contra a opinião da maioria dos comunistas brasileiros, descobriu que o racismo não poderia ser extinto "com um decreto nem mesmo que este seja do governo Soviético do Brasil". Por fim, acaba trazendo teses interessantes dos negros brasileiros ao afirmar: "Os negros não possuem governos próprios (...) Na Bahia, por exemplo, onde os negros e pardos escuros constituem maioria absoluta não só não tem governo próprio, que pertence aos brancos, como nem influem nele". Será coincidência o que acontece hoje?
Na época, a Frente Negra Brasileira estava no auge - se constituindo na maior entidade negra criada no Brasil até então. Ela havia sido fundada em 1931 e, em pouco tempo, já organizava milhares de negros principalmente em São Paulo. O seu porta-voz oficioso
O jornal A Voz da Raça tinha como lema Deus, Pátria, Raça e Família. Numa grande alusão ao fascismo e no seu primeiro número um dos artigos afirmava: Não podemos, pois permitir, que impunemente uma geração atual (...) traia a Pátria, quer atirando-se nos erros materialistas do separatismo (...) quer namorando a terra-a-terra socialista na sua mais legítima expressão que desfecha no bolchevismo, pregado pelos traidores nacionais ou estrangeiros, e cuja resposta é e há de ser o aniquilamento violento, seja ele adotado por cidadão do povo, seja ele adotado por governos que traiam a nacionalidade Não dar atenção aos fracos que forem caindo ou desanimando pelo caminho! Os poucos ou muito bravos que restarem das longas caminhadas de sofrimento e conquista serão suficientes para despedaçar a última trincheira dos inimigos da Pátria e da Raça, que são quase sempre os mesmos".
Não podemos esquecer da proximidade da FNB (Frente Negra Brasileira) do fascismo. Mas por que será que esta aproximação aconteceu? Não quero ser fatalista, mas será que a esquerda nos deu o tratamento que merecíamos na época? E atualmente tem nos dado? Como nos sentimos? Deixo esta lacuna para reflexão.
E se alguém perguntar por que eu não falo da direita, vou me poupar de responder, pois só costumo falar do que respeito, ou acho importante, e levo em consideração pois milito neste sentido por anos. Mesmo que sem partido. Ah! E chuto com a esquerda, sento do lado esquerdo do Rei no meu cargo no terreiro e só não escrevo com a esquerda por conta da minha mãe que na antiga tradição preconceituosa não me permitiu ser sinistro.
Ultimamente têm surgido perguntas sobre um partido negro e de idéias que outrora eu joguei nas listas como algo sério e com possibilidades concretas de ser formalizado e eu continuo dizendo que estou amadurecendo sobre isto. Já imaginou se neste exato momento diversas outras entidades e pessoas do movimento negro também estiverem pensando assim? Nunca se tem certeza de nada, a não ser que sempre tem dinheiro para salvar bancos e empresários dos mais diversos em nome do Welfare State de mentirinha. Aliás, com toda a volatilidade que o capital insinua.
O ilustríssimo senhor, Bernard Madoff, ex-presidente do NASDAQ com o seu desvio de bilhões de dólares após vender produtos invisíveis como o ar que o diga. Afinal de contas, ninguém enxerga o ar, mas sabe que ele é vital, e para o capitalismo, este tipo de coisa também é vital para dar sempre a idéia de que estamos crescendo e avançando, como os relatórios anuais do ex-presidente do banco Central Americano, Allan Grespan, e o seu meã culpa.
Na verdade, todos sabemos que a crise é fruto da concentração do capital financeiro, que não tem correspondência com a base real da economia. Ou seja, uns venderam vento, outros compraram e o Estado Brasileiro, que não tem dinheiro para nada arranjou alguns milhõezinhos de reserva para pagar a fatura. Afinal de contas o Brasil é o país do futuro. Ou aquele país que vai fazer o bolo crescer para depois dividir. Cansei de falar do passado, ou do presente?
Ontem a noite, o tema acabou virando um gostoso debate aqui no Rio de Janeiro, em uma conversa com amigos do CEN e do Círculo Palmarino (CP). Falamos muito sobre muitas coisas, e o Márcio Alexandre fez uma colocação importante ao dizer: "a idéia do partido em si não está estagnada, mas ainda não temos o acúmulo necessário". Quando perguntado sobre que tipo de acumulo era este ele respondeu: "Não estou falando de um acúmulo de idéias, isto já temos a partir de diversos formuladores e condições inclusive de sintetizar, mas o que nos falta ainda é sermos de base." Ao que Marcos André do Círculo Palmarino complementou com um questionamento: "qual o olhar da base negra das periferias, das favelas, dos terreiros, das fábricas, dos presídios, tem sobre nós militantes do Movimento Negro? É isto que temos que saber."
Então reflito que pelo CONNEB, pelas razões acima e por outras ainda temos um percurso, mas sei que como os Revoltosos de Búzios, mas em uma escala nacional hei de um dia dizer: "Animai-vos povo baiense, que está por chegar o tempo feliz da nossa liberdade, o tempo em que seremos todos irmãos, o tempo em que seremos todos iguais.


Marcos Rezende
Coordenador Geral do Coletivo de Entidades Negras - "CEN"

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