terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Quem se diz contra racismo fala muito mas age pouco, sugere pesquisa

Pessoas superestimam sua reação negativa a comportamento racista. Preconceito inconsciente pode estar por trás de passividade.
O que você faria se presenciasse uma cena de racismo explícito? Se crê que a sua primeira reação seria se rebelar contra a injustiça e repreender o responsável pelo preconceito, pense de novo -- porque, em geral, não é isso o que as pessoas fazem, de acordo com um estudo feito por pesquisadores canadenses e americanos. Segundo eles, enquanto na teoria quase todo mundo se diz contra o racismo, na prática bem menos gente toma uma atitude contra a discriminação.

Seguindo uma longa tradição dos estudos nessa área, e a óbvia necessidade ética de evitar situações reais, os pesquisadores liderados por Kerry Kawakami, da Universidade de York (Ontário, Canadá), pediram a ajuda de atores, um negro e um branco. Eram os chamados confederados -- pessoas que fingem ser participantes normais de um experimento de psicologia, mas na verdade são agentes infiltrados pelo cientista.

No experimento, voluntários de verdade que não fossem negros chegavam a um laboratório, onde eram apresentados aos confederados, um negro e outro branco. Em dado momento, o ator negro pedia licença para ir buscar seu celular dentro do laboratório e esbarrava de leve no joelho do confederado branco. Aí, três coisas podiam acontecer: o ator branco não dizia nada; fazia um comentário "moderamente racista" ("Odeio quando negros fazem isso"); ou "extremamente racista" ("Que crioulo desastrado").
Teoria e prática
A chave do experimento é que, em alguns casos, os voluntários só liam uma descrição desse fato ou, no máximo, assistiam a um vídeo da cena; e, em outros, presenciavam a situação toda. Em ambas as situações, tinham de escolher com qual dos confederados iriam participar de um teste, além de preencher um questionário sobre seu estado emocional, negativo ou positivo.

O que aconteceu é que, quando só ficavam sabendo da situação, as pessoas relatavam muito mais sentimentos negativos e diziam preferir quase sempre o ator negro como companheiro de tarefa. No entanto, diante da situação real, tudo se invertia: havia relativamente pouco estado emocional negativo relatado, e o ator branco era o preferido como parceiro.

Os pesquisadores canadenses atribuem o resultado a uma provável falta de interiorização do antirracismo, ou seja, as pessoas conscientemente achariam que o preconceito é errado, mas inconscientemente não se sentiriam tão ofendidas quando o presenciam. Já Eliot Smith, da Universidade de Indiana, e Diane Mackie, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, que comentaram o estudo na revista especializada americana "Science", sugerem uma explicação diferente.

Para eles, o papel de participante num experimento científico pode distorcer as reações naturais das pessoas. Eles citam uma pesquisa clássica na qual as pessoas davam um suposto choque elétrico letal num ator quando o cientista pedia, mesmo notando a aparente dor do confederado. Nesse caso, a pessoa estaria totalmente focada na experiência, sem pensar nas implicações éticas da sua falta de reação ao racismo.
Fonte: G1

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