domingo, 8 de fevereiro de 2009

Benedita e Obama

Eu sei que vou tomar umas bordoadas, mas tenho o direito de expressar minha opinião sobre o assunto. Eu como já estou ficando velho e meio gagá, às vezes confundo datas e situações, mas tenho a mais absoluta certeza que a vaia que Benedita recebeu em 1991, no I Encontro Nacional de Entidades Negras (Enen), no Pacaembu, em São Paulo, se deveu ao fato de ela ter recuado num acordo em que seria vice-presidente ao lado de Lula. Vale lembrar que o vice (pois naquela época o pt era um partido "puro"), foi o senador Bisol, do Rio Grande do Sul, com pouquíssima expressão política. Benedita, ao contrário, era um Lula de saia, era o equivalente feminino do que o PT apregoava e muito se cria à época.

Ao recuar ali, Benedita abriu a porteira para o que se tornou uma prática política recorrente: colocar-se em segundo plano a favor do partido. Isso seria lindo se não fosse trágico para sua biografia. Sua defenestração da MInistério da Ação Social, por causa de sua infeliz predileção por café da manhã portenho, foi a prova cabal de que o partido não tinha por ela a mesma consideração que ela tinha por ele. E a partir daí foi um descer de ladeira constante que culminou com a imagem triste, chocante e lamentável dela em pé, num carro de som, sozinha, repito, sozinha, brandindo uma bandeira de campanha do Eduardo Paes.

Benedita era pra ter sido o Zumbi dos tempos modernos. Ela abriu mão disso. Não se permitiu isso. Se auto-boicotou e deu no que deu.

Portanto, ver agora que ela vai se encontrar com o Obama a mim não causa nenhuma surpresa. Porque ela vai encontrar o Obama, Medeiros vai encontrar o Obama, Edson Santos também irá. O Adami, se bobear já encontrou... Enfim, a questão pra mim é a de menos. Afinal quem está nos espaços públicos, ou se articula em nível internacional cedo ou tarde terá oportunidades como esta e isso é muito bom, sem dúvida alguma.

O que me impressiona é ela dizer "Há muitos anos trabalho com o Congresso dos Estados Unidos em políticas sociais e raciais". Caramba!!!! Qual é o resultado disso? Quantas vezes Benedita se reuniu com segmentos do MN, da intelectualidade negra, das mulheres negras pra dizer: "olha, galera, tô tendo esses e esses diálogos com os gringos e tenho me pautado desta e desta forma. Voces acham que o caminho é por aí? Podemos ampliar isso? Poder fazer dessa articulação algo que traga dividendos para os negros brasileiros" e por aí vai? Neca, nadinha de nada. Nunca se ouviu um ai.

É que nem o clube fechado que hoje está discutindo Durban. É que nem a galera que se fecha nos pequenos consórcios de financimento de projetos e não é muito diferente do povo que larga o MN, vai pra máquina pública e esquece de onde veio. "Agora sou gestor, tenho que olhar as coisas de outra forma". Cacete! O sujeito ou a sujeita vira gestor exatamente porque olhava as coisas como Movimento e quando chega lá a primeira fala é que agora tem que mudar o foco, o olhar. Me poupe, né?

Enfim, penso que realmente o buraco é muitíssimo mais embaixo. Ontem, publicamos no site do Conneb um texto do Reginaldo Bispo, do MNU, de Campinas, reagindo a algumas provocações que lhe fiz via email, sobre termos ou não a possibilidade de construirmos nomes negros viáveis para disputar a presidência num prazo curto de tempo.

Ainda não vi aqui uma análise mais aprofundada dos por quês da vitória do Obama. Mas pra mim a pergunta é: como em 40 anos um país sai da segregação para eleger um homem negro e nós, mal e porcamente elegemos um vereador. Dois mil e dez está batendo às portas e os tabuleiros estão todos armados. Nós estamos ficando para trás. O Conneb está acontecendo e é solenemente ignorado por setores significativos do MN. Mas por outro lado esses setores não constróem nem apresentam outros espaços de discussão interessantes. Então acaba que ficamos na mesma pasmaceira de sempre.

E aí, sou obrigado a ouvir que Benedita, há anos discute questões raciais com os EUA, sem quê, nem pra quê, e nós aqui batendo palma porque ela vai encontrar o Obama. Me poupem, né?




Marcio Alexandre M. Gualberto

Coordenador Nacional de Política Institucional do
Coletivo de Entidades Negras - CEN www.cenbrasil.org.br
Rede Social Religiosidade Afro-Brasileira - http://religiaoafro.ning.com/

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