domingo, 1 de fevereiro de 2009

Descentralização é um dos maiores problemas enfrentados pelas comunidades de candomblé para sobreviver


RIO - Um dos maiores problemas enfrentados pelas comunidades de candomblé para sobreviver é a descentralização. Muitas vezes, há divergências sobre o culto e os rituais dentro das próprias nações. Já que as tradições afro, como diz Prandi, não são uma religião só, mas vários cultos, oriundos de diversos povos africanos, que foram trazidos para o Brasil. Confira a segunda parte da entrevista com o pesquisador Reginaldo Prandi:

Às vezes, existem divergências dentro do próprio candomblé...
Você não tem uma religião afro-brasileira, mas várias. Dentro de cada uma, há grande diversidade de nações e ritos diferentes, de acordo com as origens étnicas dos grupos fundadores. Dentro da religião, há grupos que conhecem muito pouco os outros.

A falta de união entre as comunidades gera uma dificuldade de se articular politicamente. Qual a raiz histórica dessa descentralização?
Os terreiros não se unem nem se organizam, o que gera uma fraqueza para se defender. A religião afro tem origem no culto doméstico. As relações são sempre simbolizadas pelo parentesco. Existe o pai-de-santo, filho-de-santo, a casa-de-santo, como se fosse família. Então, ainda segue essa idéia de que cada chefe de família é responsável pela sua família. Não implica responsabilidade com o outro. Cada comunidade é totalmente autônoma.

Como surgiu o candomblé no Brasil?
No século 19, quando os negros já vivem nas grandes cidades litorâneas e trabalham em serviços urbanos, como escravos de ganho, ganhando mobilidade. Na senzala e no campo, eles viviam totalmente isolados, não tinham contato com os escravos de outra fazenda, eram segregados. Nas cidades, passam a fazer os serviços manuais, porque os brancos não trabalhavam. Um dia por semana, o dinheiro de seu trabalho era para seu sustento, nos outros dias, ia para o senhor. Com isso, os escravos começam a se sustentar e morar em bairros negros.

Qual a primeira casa de candomblé?
A que resistiu e perdurou até hoje, conhecida na nação ketum é a Casa Branca do Engenho velho, na primeira metade do século 19. Dali saiu o Gantois, fundado por Maria Julia da Conceição. É comum até hoje, quando a mãe-de-santo morre, quem perde a indicação para a sucessão do terreiro sair e fundar outra casa. Foi assim que a turma de Mãe Aninha e outras figuras importantes fundaram o Axé Òpó Àfonjá. A casa principal foi erguida em 1910. Há quem afirme que o a casa de Mãe Aninha do Rio seja mais antiga do que a da Bahia.

Onde o candomblé começou a se formar?
Em reuniões religiosas que aconteciam dentro da Igreja da Barroquinha. Um incêndio destruiu grande parte da Igreja que reunia a documentação sobre a época. As igrejas são valiosos acervos pois tudo que acontecia era documentado pelos religiosos. A preocupação com esse patrimônio, assim como o arquitetônico, é recente. O Brasil teve um ministro que mandou queimar os arquivos da escravidão para "apagar essa mancha histórica brasileira", que foi Ruy Barbosa. Imaginava-se isso, que se apagava o passado, apagando-se a memória. Ainda bem que tiveram preguiça até de fazer isso e pouco foi perdido.

Fonte: Jornal Extra

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