quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

"A gente precisa democratizar a alegria"


O pesquisador Jaime Sodré sabe tudo de Carnaval e fala com gosto sobre a tema. Leia o que ele pensa sobre alguns dos artistas que comandam a festa:

ILÊ AIYÊ
Quando o Ilê Aiyê adota uma estratégia de fazer com que para sair no bloco tem que ter vinculação etnica, durante esse período que ninguém acreditava no Ilê como esse sucesso, nenhum branco se atreveu a sair no Ilê Aiyê. Quando o Ilê passou a ser uma vitrine, aí o branco quer participar. Mas vai participar num momento em que não ajudou a construir. Na hora que tá chupando osso, ninguém tá apoiando. Na hora que vira uma referência, todo mundo quer estar de braço dado com o negão. Quando o Ilê fez essa opção por epiderme, é que eles utilizam temas africanos. E é uma pantomima pública. Ficaria muito difícil um branco representar um escravo africano. É uma aberração histórica. O Ilê procurou coerência e abrir espaço para um grupo que estava excluído. Aí diz que é racismo ao contrário. E se um negão, um tinta forte, sair no chamado bloco de gente bonita? Só tem duas razões pra ele sair ali. Ou o bloco quer dar uma demonstração de que democracia racial, numa relação vergonhosa de 100 contra 1 - mas tem um ali! - ou sai aquele que tem maior poder aquisitivo. Vamos deixar de ser cínicos. Nas sutilezas, cada um procura sair com seu igual. E o Ilê chamou atenção para isso, mas os que criticam, não apresentaram nenhuma solução. Continua tendo escola particular, condomínio fechado, festa privê, arquibancadas e camarotes. E a gente tá onde? Tá embaixo. O Ilê se defende dessa forma. E não é racista porque o próprio Caetano saiu no Ilê. Agora vamos pra Central do Carnaval e determinado sujeito quer comprar uma fantasia de bloco sai do chão. O cara que comprar dois abadás do bloco tal tem direito a um do Ilê. Será que o pessoal vai querer? E o contrário. Quem comprar do bloco afro vai ter direito a um sai do chão. Você vai ver que não vai dar certo. Se morar na Sussuarana ou no Nordeste de Amaralinha, dizem logo que está tudo cheio. A grande habilidade do outro lado é ainda botar o racismo como se fosse coisa nossa. Além de a gente tomar chicotada, ainda é altamente auto-suicida.

FILHOS DE GANDHY
No tempo que eu saí tinha uma unidade que era a dos lanceiros. Eram senhores já idosos que iam com uma lança, uma vara, e se você cometesse qualquer tipo de indisciplina ele batia com a vara e falava "saia". Rasgava sua carteira, tirava sua roupa e você não entrava mais no bloco. Não tinha cachaça nem tinha mulher. Eu tocava em cima do trio, era alabê, mas olhava as meninas que eu não sou de ferro. [Lúcia, sua mulher, interrompe: "Isso foi no passado"]. E os colares que se usava não era para dar pra senhor ninguém, porque os colares eram de santo, cada um com sua religiosidade ali. O que aconteceu? O Gandhy começou a ter uma característica diferenciada: a dignidade do seu traje, o torso bem feito na cabeça, que todo negão ficava bonito. Antes saia com uma tamanquinha, não era sandália. Quando chegava em casa os pés estavam todos estourados. Não era o torso, era um lençol na cabeça, como uma cebola... Depois que mudou. Sabe como é que saía no Gandhy? Se eu, associado, te convidasse. E se essa pessoa se portasse mal, nós dois saíamos. Então qual era o número que Gandhy saía? Mil pessoas, setecentas, mil e quinhentas. Quase todo mundo se conhecia. E se você se portasse mal, ainda vinha a queixa pra sua casa de candomblé. E a casa chamava. Era uma representação da dignidade do povo de santo, que mostrava que podia sair na rua. De repente, o Gandhy começou a atrair pessoas que não são da religião. Essas pessoas não têm disciplina. Alguns velhos fundadores começaram a discordar disso. Mas como negar de uma pessoa sair no bloco? Porque já não era mais aquela história de um apresentar o outro. Aí o conjunto foi inchando, o bloco virou um mito. Tem estrangeiro que pega um avião, sai no Gandhy e volta pra sua terra. Quem saía no Gandhy era uma faixa etária mais coroa, e depois veio o fascínio da juventude, porque as mulheres começaram a ficar [gesticula indicando alvoroço]. O perfil étnico do Gandhy começou a mudar. Artista de televisão, estrangeiros saiam no Gandhy... Os lanceiros foram extintos, muitos morreram, as pessoas mais antigas deixaram de sair... Começou a ter uma juventude que se integrou no carnaval moderno. E a concepção do carnaval moderno é clientela. Tem que pagar os custos. Quanto mais associados tiver, melhor... Nesse momento se abriu a porta. Aí saem pessoas que não têm consciência do que o Gandhy representa como agente da paz e como representatividade das casas de candomblé, mostrando que temos dignidade. Aí as meninas ficam trocando beijo por colar.
Clique aqui para ler na íntegra.

Fonte: A Tarde

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | JCpenney Printable Coupons