domingo, 1 de fevereiro de 2009

Padre e pai-de-santo de Belford Roxo provam que a convivência entra religiões não é sonho impossível


RIO - Quando assumiu a Igreja de São Lázaro, em São João de Meriti, o padre José Carlos Francisco, de 57 anos, ficou impressionado com o estado da imagem do santo. Estava deformada. Na crença popular, o problema era "quizila", chateação de São Lázaro por seu templo ter ficado fechado. O padre não teve dúvidas. Ouviu o conselho de uma amiga mãe-de-santo.
- Ela me mandou limpar a imagem com anil, lavar toda a igreja com a água e depois ainda pôr água com flor de laranja. Anil ia tirar a quizila de Omolu, que é sincretizado com São Lázaro. Lavamos tudo e a imagem ficou perfeita, novinha - conta o padre. Religião que une
Amigo das nações de candomblé, o padre José é um exemplo de como a religião pode unir, em vez de dividir pessoas de diferentes credos. Há sete anos, ele também reza missas e ministra os sacramentos na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Belford Roxo.
Construída pelo pai-de-santo Zezito de Oxum, o templo católico fica em frente ao terreiro "Culto Afro Corte Real da Nação Ijexá". Pai Zezito liga pessoalmente para o padre quando tem criança para batizar:
- Graças a Deus, o padre José é uma pessoa muito boa. A gente sempre conversa pelo telefone, fala sobre as missas, ele sempre atende a nossa comunidade.
O padre devolve os elogios do amigo:
- O Zezito é um pai espiritual para mim. Ele sempre me dá muitas orientações. Estou conseguindo reformar a igreja. Com a graça de Deus e dos orixás. Caridade além das diferenças
Pai Zezito mantém uma escola gratuita para crianças de famílias muito carentes da região. A professora Luana Carvalho, de 31 anos, admira o trabalho social promovido pelo religioso, que também distribui cestas básicas para famílias.
- Nós não misturamos a crença com o ensino. Sou católica e nem entendo nada sobre o candomblé. Às vezes, a criança não comeu nada em casa. Ele dá bolo, merenda todos os dias - diz Luana.
Severo, Zezito exige que os estudantes aprendam a cantar o Hino Nacional e saibam rezar o Pai Nosso.
- É uma oração para gente de todas as religiões. Hoje, em dia, as crianças não sabem rezar, por isso que o mundo está como está - diz o religioso. Tolerância
Localizado no terreiro, o Poço de Oxum de Pai Zezito já forneceu água para muitos vizinhos. Respeitado, o pai-de-santo, que abriu sua casa aos 14 anos, ainda em Salvador, ri quando lhe perguntam se sofreu algum tipo de intolerância:
- Eles conhecem a pedra que bolem. Lagartixa sabe onde bate a cabeça.
Padre José também não discrimina ninguém na hora de ser chamado para fazer um batizado ou ministrar qualquer outro sacramento. Sempre envolvido em trabalhos sociais com comunidades carentes, o sacerdote já realizou casamento em terreiro de candomblé.
- Gosto de rezar missa no terreiro. Aqui, não tem hipocrisia, gente olhando um a roupa do outro. É fé de verdade, como deve ser - ensina o padre.

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