segunda-feira, 30 de março de 2009

A resistência da Cultura Botânica nas Religiões de Matriz Africana em Salvador

Por Sueli Conceição*

Apresentação

Este texto é o resumo da pesquisa desenvolvida como Dissertação de Mestrado, cujo titulo é: Processo de Urbanização como Imperativo da Reestruturação Espacial e Litúrgica das Religiões de Matriz Africana, no programa multidisciplinar em Estudos Étnicos e Africanos na Universidade Federal da Bahia - UFBA, vinculado à Faculdade de Ciências Humanas. O objetivo principal foi indicar a existência e a necessidade para manutenção das religiões de matriz africana.

As plantas são representadas pela Etnicidade, assumida neste trabalho como uma expressão de identidade, caracterizando uma narrativa de origem, por considerar as folhas e sua manipulação sinais diacríticos de uma identidade coletiva negra de grupos étnicos africanos. Neste contexto, há uma denominação utilizada no trabalho que é a de “cultura vegetal”, mantida pelas religiões de matriz africana, baseada em práticas de comunidades tradicionais oriundas do continente africano e re-significada no Brasil, como forma de resistência através da persistência.

Foi detectado que essas religiões se encontram, portanto, sob pressão de uma crise ecológica instalada na cidade, que tem como base uma alteração social marcada, por um lado, pela escassez de moradia de seus habitantes, que em sua maioria vivem em condições insalubres, e, por outro lado, pelo poder da pressão imobiliária que determina o valor da terra e promove a acentuação da segregação espacial já instalada. Tais fatores exercem influência direta e decisiva nas transformações e re-significações das religiões de matriz africana.

Considerações Gerais

A cosmologia das religiões de matriz africana, com fundamento na natureza, criadas pelas antigas comunidades africanas, determina a sacralização dos elementos físicos, transformando-os em sagrados pelos atributos concernentes às divindades regentes, especialmente dentro dos templos religiosos.

Tais elementos funcionam como demarcadores simbólicos de território religioso, sendo que neste trabalho os templos religiosos são considerados territórios contínuos das religiões de matriz africana, enquanto outros ambientes externos, considerados sagrados, são identificados como territórios descontínuos.

Os templos sagrados possuem uma identidade própria que se reproduz socialmente. Com domínios territoriais demarcados, apresentam variações dentro do espaço da cidade, visíveis e determinadas por relações sociais, harmônicas e tensas. Alguns dos terreiros apresentam a característica da força de agregação de membros legalmente credenciados, simpatizantes ou não, no seu entorno na condição de habitação.

Um dado importante verificado nesta pesquisa é a forma pela qual os templos se instalam na cidade. Revela-se que a exploração de novas áreas para sua implantação tem como um dos critérios a possibilidade de manutenção do espaço verde em suas dependências. Este vem sofrendo, paulatinamente, redução severa, devido à expansão urbana e a dificuldade que experimentam os templos religiosos em manter sua ocupação com amplas áreas no âmbito da cidade de Salvador.

Foi evidenciado na pesquisa, que as nomenclaturas atribuídas aos templos sagrados são decorrentes da sua estrutura espacial. A ebome Cidália do Gantois reitera o que foi dito pelo antropólogo Fábio Lima sobre a denominação dos templos sagrados. Segundo ela, os templos localizados em áreas densamente urbanizadas, que não apresentam área verde, não podem ser chamados de terreiros ou roças porque os seus espaços não apresentam tais características. Então ela os chama de Ilê Axé, ou casa de Candomblé.

A análise demonstra que, apesar dos terreiros apresentarem espaços físicos diferentes, a persistência da “cultura botânica” é evidenciada nos rituais sagrados e nos discursos sobre a relevância do meio natural preservado para a religião. Os discursos nesse sentido são todos convergentes, independente da procedência dos terreiros –Ketu, Jeje e Angola - visitados para esta pesquisa.

Com a hegemonia do capitalismo, a troca simbólica que era uma pratica constante nas religiões de matriz africana deixa de existir e surge a troca mercadológica. Foram saindo de cena os atores que protagonizavam os processos de colheitas e preparos das plantas para os rituais, na tradição ioruba são os babalossain. Essas atividades passaram a ser atribuídas às zeladoras, zeladores, ou pessoas que têm um grau hierárquico elevado dentro dos templos sagrados, situação atualmente comum na maioria dos terreiros. E surgindo os fornecedores, mateiros, comerciantes e motoboys, atores sociais que compõem as novas formas de aquisição.

As novas alternativas de aquisição foram descritas em três cadeias: 1) cadeia tradicional, sendo composta por: mato, babalossain, templo sagrado e usuário; 2) cadeia das feiras, representadas por: mato, mateiro, comerciante, usuário e templo sagrado; 3) cadeia virtual: mato, mateiro, comerciantes, telefone/internet, usuário e templo sagrado. Foi identificado nesta pesquisa que a diversidade de fornecedores está diretamente relacionada com a variedade das plantas comercializadas.

Considerações Finais

O histórico da legislação ambiental e o das políticas públicas ambientais de caráter participativo também compuseram a pesquisa, visando desmistificar o conto de que não existem leis ambientais ou políticas públicas ambientais em Salvador. Foi demonstrado que a Constituição Federal brasileira de 1988 tem leis para atender as demandas ambientais em diversas modalidades.

Mas presume-se que exista a falta de técnicos mais competentes dentro das especificidades exigidas para as questões ambientais. Estas devem ser tratadas de formas particularizadas, considerando-se as regiões, os grupos étnicos envolvidos no processo, assim como as formas que os mesmos se instalaram e vivem na região. Baseadas nessas especificidades surgem as políticas públicas participativas, nas quais órgãos do governo – SEMUR, UFBA, MIC, IPHAN, IPAC etc. – promovem projetos para atender demandas específicas direcionadas aos grupos étnicos envolvidos no processo.

Mesmo as leis ambientais não sendo imperativas para a manutenção de áreas verdes nos espaços públicos e de terreiro, o trabalho mostrou que existe uma persistência da Cultura Vegetal nas religiões de matriz africana, tendo o meio natural como essencial para a sua sobrevivência. As alternativas para aquisição, apontadas nesta pesquisa, não são um mero modismo, mas sim formas para continuar resistindo dentro da seara do progresso. Como foi informado por ebome Cidália, em uma das nossas conversas:

Ah, minha filha, para o progresso chegar teve que fazer aquilo com o candomblé. O candomblé era dono daquilo tudo, ali era tudo roça, caminho ia ficar na roça? Mato de um lado, mato do outro com o caminho no meio? A gente paga pelo progresso...” (Ebome Cidália, 21/10/2008).

Em suma, mediante as experiências vividas durante o processo de investigação, as longas conversas com os interlocutores que tiveram a maior boa vontade de colaborar com a pesquisa. Fica registrado que as religiões de matriz africana são ecologistas e tem o meio ambiente como elemento componente indispensável da sua vida espiritual. Ao passo que se reconhecessem as plantas que são manipuladas dentro dos templos sagrados como sendo elementos importantes para a cura de doenças, se alcançaria um desenvolvimento mais equilibrado social e ambientalmente. Vale lembrar que toda esta persistência é pautada no sentimento de pertença. Mediante as observações feitas ao longo da pesquisa fica constatado neste trabalho que o vegetal é um patrimônio religioso, cultural e social para a população afro-descendente, levando-se a crer que deve ser protegido e preservado para garantir a permanecia das religiões de matriz africana sem tensões externas, com relações harmônicas.

Referências Bibliográficas

BASTIDE, R. O Candomblé da Bahia. Companhia das Letras. São Paulo, 20001.

BULLARD, R. Enfrentando o racismo ambiental no século XXI. In: Justiça Ambiental e cidadania/ organizadores, Henri Acselard, Selene Herculano e José Augusto Pádua. – Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Ford, 2004.

LUHNING, E. A. Ewé: As Plantas Brasileiras e seus Parentes Africanos. In: Faces da Tradição afro-brasileira: religiosidade, sincretismo, anti-sincretismo, reafricanização, práticas terapêuticas, etnobotânica e comida CARDOSO, Carlos, BACELAR Jéferson.. Rio de Janeiro: Pallas: Salvador, Ba: CEAO, 1999

OLIVEIRA, R. S. de e REGO J. (org). Candomblé: diálogos fraternos para superar a intolerância religiosa. 2ª ed. rev. e ampl.- Rio de Janeiro: KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 2007.

PARÉS, L. N. A formação do Candomblé: história e ritual da nação Jeje na Bahia.- Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2006.

*Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Católica do Salvador, especialista em Gestão Ambiental pela Faculdade de Ciências Econômicas da Bahia –FACCEBA, mestra em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia. Educadora da Associação Cultural e Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê.


Fonte: Jornal Irohin

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