quarta-feira, 22 de abril de 2009

Leci Brandão: Negros merecem cotas "mais felizes"

Thais Bilenky

A sambista Leci Brandão defende a criação de cotas para negros. Para a cantora, carioca, criada na Mangueira à luz de Martinho da Vila, são bem-vindas vagas reservadas a negros por determinação da lei em universidades ou desfiles de moda.

- Não tem que ter vergonha de nada. Eu já cansei de ganhar as cotas das cadeias, as cotas do analfabetismo, as cotas do desemprego. Eu quero ter umas cotas de coisas mais felizes. Por exemplo da Fashion Week, que é uma coisa maravilhosa.

As cotas para modelos negros e negras na semana de moda em São Paulo, ideia da promotora Débora Kelly Afonso, do Ministério Público Federal, geraram polêmica na semana passada. Estilistas posicionaram-se a favor, outros, nem tanto.

"Na Fashion Week já tem muito negro costurando, fazendo modelagem, muitos com mãos d eouro, fazendo coisas lindas, tem negros assistentes, vendedoras, por que têm de estar na passarela?", disse Glória Coelho ao repórter Paulo Sampaio, no jornal Folha de S. Paulo.

É a "reafirmação do preconceito", na opinião de Leci. "Principalmente porque eles (negros) costuram, porque eles bordam, e porque eles varrem os salões, e porque eles são os serventes do evento, principalmente por isso eles têm de estar na passarela! Porque o negro faz parte da sociedade brasileira como um todo", avalia a sambista.

A estilista, em resposta à polêmica que sua declaração gerou, nega ter preconceito, "mesmo porque seu avô é negro".

Cotada para substituir Matilde Ribeiro quando esta deixou a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Leci Brandão afirma dedicar a carreira à questão política. "Sempre tive um compromisso de fazer com que minha arte fosse um instrumento de defesa de qualquer tipo de minoria. E evidentemente por eu ser uma cantora negra, eu sempre defendi a minha etnia", alega.

"Quando você fala em democracia, você tem que permitir que estas pessoas que varrem e costuram tenham o direito (de desfilar). Até porque existem modelos negros e negras. Se não existissem, tudo bem, mas existem! (...) Aqueles negros que conseguiram se formar, que fizeram curso, que têm seus books, que são pessoas lindas e maravilhosas, e que têm perfil para desfile, por que eles vão ser boicotados disso aí? Não pode, não!", chacoalha a sambista.

Leci apoia a promotora Déborah Kelly Affonso, por julgar que sua iniciativa dá fôlego a uma batalha que não é de hoje. "Sabe o que acontece? Ano passado discutiu-se e nenhum negro desfilou. Como os negros não puderam entrar na passarela, entrou a promotora. É por isso que estou batendo palma para ela. Se o negócio é: vamo tirar a negrada! Então a promotora: não, vamo ter que botar a negrada. Para mim tá lindo", justifica.

Atacando um preconceito "contra tudo", não apenas contra negros, Leci avalia que o sistema de cotas pode aos poucos emancipar os beneficiados:

- Eu não estou aqui a favor do negro que não tem condição, que não tem estudo, não tem ensinamento, entrar na universidade porque ele tem a pele negra. Não é isso que eu estou falando. O que eu quero é que sejam dadas condições às pessoas para que elas futuramente não precisem de cotas.

Impulsionada pela própria história, Leci conta que o preconceito que enfrentou serve de combustível. Na semana final do festival da Globo em 1980, a sambista acompanhava sua mãe em uma visita à casa de uma amiga. Chegando no edifício na Tijuca, o porteiro indicou a entrada de serviço. Leci conta que, à época, usou sua imagem pública e botou o caso "à baila". Desde então segue na luta: "O negro tem que deixar de ser visto sempre como empregado."

Fonte: Ìrohìn

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