terça-feira, 7 de abril de 2009

Unidade na diversidade, isso é possível?

Quando em meados dos anos de 1940 o Movimento Ecumênico Internacional começou a ganhar força a concepção ecumênica era de que o máximo onde se chegaria seria no diálogo entre os ramos protestantes, o ortoxo e o católico romano. Nada além disso. Mais tarde, avançou-se na idéia de que era possível um diálogo entre cristãos e muçulmanos, entre cristãos e budistas e outras tradições religiosas asiáticas. No início dos anos de 1990 a União Brasileira de Juventude Ecumênica (Ubraje) - da qual fiz parte - começava a pensar em ampliar este diálogo, no Brasil, para outras tradições que não estas citadas acima. Marco disso, foi a realização da I Jornada Ecumênica, promovida por Koinonia - Presença Ecumênica e Serviço, onde, pela primeira vez, representantes das tradições dos Orixás, participaram de um evento ecumênico de grande porte.

Estudante de Teologia no Instituto Metodista Bennett de Ensino, em meados dos anos de 1990, participei em São Paulo da I Encontro de Teologia Afro-Latino Americana e Caribenha, onde tive a hora e o prazer de conhecer o Babalorixá Robson Lage, também conhecido como Robson de Ogun, que hoje, 15 anos depois, tornou-se meu zelador, meu pai, meu amigo e guia nesta bela jornada que é conhecer a religiosidade de matriz africana.

Estes momentos ecumênicos sempre se referiram à possibilidade de encontrarmos unidade na diversidade. Ou seja, o fato de sermos diferentes, de adorarmos o sagrado de formas distintas não deveria nos opor como inimigos, como seres que visam cada um seu Deus, mas, pelo contrário, compreender que Deus em sua magnanimidade poderia, como gosto de dizer, manifestar-se de diferentes formas a diferentes culturas, nunca deixando de ser Ele apenas um, apenas Deus, apenas o Criador. Deus pode, portanto, ser chamado de Iahweh, como chamam os judeus, de Krishna, de Buda, de Alá ou de Olodumare, como chamamos nós e mesmo assim continuar sendo um único Deus.

Essa compreensão, que para algumas tradições religiosas é tranquilamente compreensível é, no entanto, difícil de ser assimilada pela maioria dos cristãos. Na concepção original, criadora da igreja, afirmar o Evangelho (a Boa Nova do Cristo Ressurreto) é, antes de tudo rejeitar qualquer outro elemento religioso como pagão. Se isso estava na pregação original de Cristo, pouco importa, o que importa é que isso propagou ao longo dos séculos e hoje, quando vemos o Papa Bento XVI chegar em Angola e afirmar que os católicos devem combater a bruxaria, percebemos que muito pouco se avançou no diálogo ecumênico desde o iníicio do século passado até os dias atuais.

Vivemos tempos interessantes em que o combate a todas as formas de intolerância, desrespeito, preconceito e discriminações devem ser combatidas. No entanto, precisamos pensar no arco de estratégias que criamos e no que queremos com estas alianças. Quando nos aliamos a uma instituição que de um lado compõe politicamente conosco e no outro nos discrimina, na verdade estamos sendo usados como peso e contrapeso em disputas e querelas internas dessa instituição.

A afirmação de Bento XVI merece um posicionamento da Igreja Católica brasileira. Seus representantes devem vir a público dizer se a fala de seu líder é a fala desta igreja em nosso país, pois caso seja, como sempre foi ao longo dos anos, talvez esteja chegando a hora de pensarmos que a intolerância e o desrepeito religioso estão cada vez mais vivos e não somente naqueles pequenos grupos de pentecostais ignorantes, mas também nos doutos e vetustos senhores da alta hierarquia católica.

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