segunda-feira, 4 de maio de 2009

Afinal, que Movimento Negro somos nós?



Depois de algum tempo retomo com grande alegria minhas tarefas como colunista de Afropress e, sendo assim, já quero começar respondendo a algumas perguntas que me foram feitas pelo seu editor, Dojival Vieira, alguns dias atrás.

Antes de tudo devo dizer que para construir algumas respostas às perguntas a mim formuladas, tive que olhar muito para trás, mas, também projetar uma série de olhares sobre o futuro para tentar construir um cenário que não seja apenas razoável mas que, também, nos propicie falar a outrem além do que simplesmente dialogamos entre nós, editor e colunista.

Dois fatos foram importantes para provocar em Dojival e em mim esse momento dialogal que agora transformo em texto. O primeiro foi uma manifestação pública de apoio ao Ministro Joaquim Barbosa que, construída por dentro do Coletivo de Entidades Negras, resolvemos colocar nas listas de discussão como um posicionalmento político do conjunto do Movimento Negro.

O segundo fator foi eu ter participado na sexta à noite de uma palestra na OAB de Santos onde, convidado a falar sobre o racismo na era Obama, usei o gancho da palestra para colocar alguns posicionamentos políticos que considero ser os grandes desafios para o Movimento Negro no século XXI.

Quando Dojival me diz que Joaquim Barbosa nunca precisou do Movimento Negro e não precisará agora no confronto com Gilmar Mendes, e ao mesmo tempo me questiona a que MN me refiro e lista uma série de movimentos possíveis, me obriga, de certa forma a pensar que estamos no limiar de uma nova era de construção, ou mesmo refundação do Movimento Negro brasileiro.

Nao vou, logicamente, me ater aqui a temas que já escrevi antes como, por exemplo, considerar as várias perspectivas que colocam o MN, mesmo com todos os seus erros, como um dos segmentos do movimento social mais vitoriosos na história do país. Ainda assim, penso que afirmar isso, coloca, se não as coisas em seus devidos eixos, pelo menos gera algum tipo de reposicionamento sobre o qual temos que nos colocar para tentar fazer uma análise isenta do macro-cenário que estamos discutindo.

Não há dúvida que com o passar dos anos para algumas pessoas e setores, ser militante virou questão de sobrevivëncia política e financeira. Não há dúvida que tem gente que tenta se cacifar nos partidos políticos colocando-se como interlocutor da questão racial, sem ser necessariamente reconhecido como tal no âmbito da militância negra. Não há dúvida que tem gente que usa da religiosidade de matriz africana para se colocar como liderança política quando na verdade já estão completamente desgastadas. Não há dúvida que temos os mais diferentes tipos de aproveitadores, chapas-brancas, vendilhões, capitões-do-mato no campo da militância negra brasileira.

Eu posso, como articulador político, como dirigente nacional de uma grande organização, como observador da realidade e como jornalista perceber tudo isso e tenho duas alternativas, ou transformo isso num dilema, ou posso simplesmente dar de ombros e perguntar: e daí!

Para cada consideração negativa que possamos fazer, temos que pensar nas milhares de pessoas, Brasil afora, que fazem da militância seu modo de vida, que resistem nos terreiros de candomblé, nas rodas de capoeira, nas escolas de samba, nas igrejas, nas pequenas ongs que nunca conseguem recursos, nos milhares de centros sociais e culturais, enfim, não basta apenas considerar o aspecto negativo mas ter a certeza que os aspectos positivos são muito mais poderosos e são eles que fazem a real diferença.

Um novo Movimento Negro para um novo século

Quando no seminário de Santos me questionaram sobre o por quê da vitória de Obama, várias poderiam ser as respostas, escolhi falar de apenas duas: o uso revolucionário das tecnologias de informação e comunicação e uma fala ampla que tocou corações e mentes de toda a sociedade americana.

Quando Obama diz "nós podemos", ele coloca um desafio para todos que ouvem essa frase. Eu posso, tu podes, eles podem, nós podemos!!! Não são apenas os negros que podem, não são apenas as mulheres que podem, somos todos nós: nós podemos!

No caso brasileiro, infelizmente, o MN perdeu a possibilidade de diálogo com a própria população negra. Somos homens e mulheres que estamos na militância mas que não conseguimos amplificar nossos campos de diálogo e isso se dá por dois motivos. O primeiro, a meu ver, é a falta de desejo mesmo. Há setores do MN que se sofisticaram tanto, que se acostumaram de tal maneira às poltronas dos aviões e aos ares-condicionados dos escritórios que perderam a vontade pôr o pé na lama, de subir favela e sentir cheiro de esgoto aberto.

No entanto, estes setores são minoritarios e aí há que se questionar então porque os outros setores não ampliam esse diálogo, e aí penso que caímos na nossa efetiva incompetência em falar a língua de nossa gente, em ir aonde o povo está.

Precisamos trilhar novos caminhos

Sou do tipo de pessoa que acredita em articulações entre redes. A minha vida inteira fiz política de diálogo. Mesmo quando forcei confrontos, o fiz apenas para poder solidificar pontes de dialogo mais à frente. Obtive muitas vitórias e também dolorosas derrotas. Faz parte do processo. No entanto, à medida em que a idade chega e com ela a maturidade que nos faz ser menos impulsivos e mais racionais, tendo a perceber que temos a obrigação de começar a pensar que legado deixaremos para as gerações futuras.

Talvez o primeiro grande desafio que tenhamos que superar entre nós seja algo que é muito caro a cada negro e cada negra brasileira que é sua vaidade. Infelizmente, a vaidade, seja ela pessoal, ou institucional (mas uma quase sempre vem acompanhada da outra) tem sido uma das nossas grandes tragédias como movimento político.

No MN ninguem quer ser liderado. Todos e todas colocam-se o tempo todo como lideranças mas, efetivamente, vemos que lideranças temos pouquíssimas. Liderar é antes de tudo ter a coragem precursora de abrir os caminhos, de abrir novas trilhas e trazer o grupo junto. Poucos e poucas têm tido essa coragem política, mas na hora do frigir dos ovos, ninguém quer servir, mas, sim, ser servido.

Precisamos mudar essa mentalidade, precisamos trabalhar em redes, precisamos conversar mais entre nós e precisamos tirar a palavra "eu e meu" do nosso cotidiano. A lógica de que as coisas só acontecem se eu estiver lá tem sido destruidora de uma série de possibilidades políticas que agora, não dá mais pra aceitar. Precisamos avançar e para avançar, infelizmente, às vezes temos que atropelar quem está no caminho.

É fato que para que o novo emerja é necessário que o velho se apague. E é chegada a hora de um novo MN emergir nos rincões do pais, nas pequenas cidades, nas periferias dos grandes centros urbanos. Um MN que tenha cara de povo e vontade do povo em sua condução. Apenas com essas condições nos tornaremos efetivamente um movimento capaz de não só influir na agenda política do país mas tomar essa agenda na mão e conduzi-la de acordo com nossos desejos.

O MN negro que somos hoje pouco importa, o que importa na realidade, é saber que movimento queremos ser; o que queremos para este país e para o nosso povo. Com estas respostas, olharemos o futuro e sentiremos renascer em nós a utopia, mola propulsora da esperança, que nos projeta à frente e nos coloca diante de nossa verdadeira responsabilidade perante a história.
É Coordenador Nacional de Política Institucional
do Coletivo de Entidades Negras - CEN - www.cenbrasil.org.br
Rede Social Religiosidade Afro-Brasileira - http://religiaoafro.ning.com

Fonte: Afropress

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