quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Jardim das Folhas Sagradas

Por Cláudia Santos*



Se você ainda não ouviu falar sobre um filme brasileiro chamado “Jardim das Folhas Sagradas”, tenha mais alguma paciência. Até novembro - mês previsto para estréia - certamente essa publicidade vai chegar até você. Foi isso o que explicou o diretor do filme, Póla Ribeiro, para representantes de organizações do movimento negro na noite de 17 de setembro, tendo como cenário a Casa do Benin.

Para saber mais sobre o filme que estréia em novembro o melhor caminho é visitar o site www.jardimdasfolhassagradas.com. Lá você pode ler a sinopse, saber sobre atores e personagens, fazer um balaço da mídia gerada até agora, ver o portfólio dos produtores, saber de patrocínios e parceiros, por fim entender a trajetória da carreira do diretor.

E se, pelo nome, você ainda não ficou empolgado para acessar o site para entender o enredo, tenha em mente alguns aspectos: o protagonista é negro, candomblé é parte fundamental do enredo, três terreiros foram usados como locação, e outros tantos convidaram, por solicitação do diretor, suas filhas e filhos de santo a participar voluntariamente, cederam objetos e equipamentos. Há ainda cenas realizadas durante a Caminhada da Liberdade realizada no dia 20 de Novembro, em homenagem a Zumbi dos Palmares e locações no Curuzu/Liberdade, maior bairro negro de Salvador.

Segundo Póla Ribeiro, “Para fazer esse filme foi necessário pedir licença a muitas divindades, mesmo não sendo um filme sagrado. Ainda que a arte tenha uma certa sacralidade, o cinema é uma arte coletiva e, de todas, a mais profana”. O diretor afirmou ainda que não pretende dar conta da cultura afro no Brasil e esse é um momento de afirmação da película. “Só vou saber sobre o que é o filme quando tiver retorno das pessoas”, acrescentou ao responder uma pergunta sobre a presença de rastafáris, já que uma das conversas que rondam o filme é o fato de o ator Antonio Godi, protagonista da trama, ter cortado os dreadlocks que usava há trinta anos em função do roteiro.

Esse processo explica a relação respeitosa do diretor com o movimento negro, especialmente as lideranças e comunidades religiosas. Explica também a reunião para compartilhar com esse conjunto o que já foi feito e os planos para o futuro. Ao analisar o contexto político-cultural brasileiro acerca do cinema, Póla não tem ilusões. Para ele “Jardim das Folhas Sagradas” é um filme normal, com orçamento médio, mas precisa de estratégias para competir a algum número entre 80 e 150 mil espectadores, como imagina o diretor e sua equipe.

Afinal, estamos falando de um terreno em que a Globo Filmes é a maior produtora, e o filme “A mulher invisível”, que tem Luana Piovani e Selton Mello, dois atores projetados através das novelas do mesmo grupo, responde pela maior bilheteria de filme brasileiro em 2009. Dois milhões de pessoas já viram a história nos cinemas.

Os profissionais nesse campo também souberam como indicar ao diretor os percalços do caminho, ele relatou no encontrou o que ouviu de distribuidores: “seu filme é muito segmentado”, “há negros demais no seu filme e negros não vão ao cinema”, “claro, não estamos falando de racismo”. Póla Ribeiro repetiu a resposta que deu aos distribuidores: “Sim, o filme é segmentado. Em Salvador negras e negros correspondem a 85% da população”. O diretor explicou ainda que a primeira semana de um filme nos cinemas é crucial, se não há bilheteria o filme não permanece, sai logo do cartaz. Daí a criação de um formato diferenciado de publicidade e aquisição de ingressos antecipados para fazer o filme chegar mais as pessoas negras.

Na minha avaliação, o encontro com movimento negro é a grande novidade e tem mesmo um caráter respeitoso além de corresponder a uma primeira etapa de um ambicioso plano de divulgação. Póla Ribeiro cineasta já tarimbado, que conta no seu currículo com a experiência de gestão do Instituto de Radiodifusão do Estado da Bahia (IRDEB) considera que nós, pessoas negras, somos um mercado consumidor. Pensa uma estratégia que nos atraia, considerando as nossas especificidades em todo o país. Conta com a ajuda de João Silva, publicitário negro, e sua empresa, a Maria Publicidade.

As outras partes do plano correspondem a uma exibição exclusiva para equipe e elenco; seminários em 5 capitais; exibição pública na rua, para agradar também às entidades da comunicação; exibição em bairros populares; aquisição antecipada e por patrocinadores para distribuição gratuita antecipada de convites pelas instituições do movimento negro. Exibição em canais de TV abertos e fechados, assim como a reprodução em DVD igualmente estão no foco do cineasta: “Algo que custou 2 milhões não pode ser visto apenas por dez mil pessoas”, justifica. Outros produtos também estão previstos, a platéia deverá responder a um questionário que vai gerar dados para uma pesquisa e posterior publicação sobre cinema brasileiro.

No fim do encontro, levei três questionamentos a Póla Ribeiro. Primeiro perguntei se ele não temia a intolerância religiosa dos tempos de agora. Ele respondeu que “quando alguém decide fazer um filme é necessário exercitar o lombo para esperar as críticas e manifestações que podem vir”, em sua perspectiva isso não diminui o potencial do filme, pelo contrário até aumentaria.

Em seguida, perguntei em que medida o filme colabora para combater o racismo. Ele respondeu que o filme é respeitoso, em alguns momentos desmistifica circunstâncias religiosas, mas não há defesa de nenhuma tese. E explica que “O filme não se define por si só, mas pelo acolhimento que tem da platéia e pelo processo de exibição da história. Se o movimento negro pegar o filme pra si, é meu sonho, vai dar outra dimensão à história”.

Por fim, perguntei a Póla Ribeiro se isso, o filme, seria sua conversão religiosa. “Fiz um pacto comigo de que não haveria conversão enquanto o filme não saísse”, sentenciou com suavidade enquanto eu olhava o discreto fio de contas que teimava em escapar do colarinho da camisa.

Não tenho dúvida de que vamos ver nas telas talentos negros, alta sensibilidade artística e qualidade técnica. Torço, junto com Póla Ribeiro, assim como seu elenco e equipe, para que o filme tenha boa bilheteria. Para além do encontro com representantes de movimento negro na Casa do Benin, observei ainda que estamos diante de um novo modelo de promover e comercializar filmes, em que as boas intenções e idéias são fundamentais, tanto quanto patrocinadores e recursos. Mas tem também nossa participação – somos considerados enquanto participantes e mercado.

Contudo, fico me perguntando por que chego ao fim desse texto com a sensação de que falta algo... Temos excelentes atores, diretores, escritores e roteiristas negras e negros. A vida de um estudante que acessa a universidade pela via das ações afirmativas ou de outro cuja família paga uma instituição privada daria um ótimo filme. A dramática saga do estatuto e sua debilitada aprovação poderia ser uma novela de TV. O racismo e preconceito atiçado contra nós todo dia é um épico. Mote não nos falta. Ah! Já sei! É o recurso! Para terminar o pensamento e o texto, só mesmo uma pergunta para os que apóiam filmes e para nós negros: quando e quanto teremos patrocínio para as nossas boas idéias e intenções? Por que nosso patrimônio cultural, todo mundo já sabe – é bilheteria garantida.


Acesse: www.jardimdasfolhassagradas.com


*Professora, mestra em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA).
klaudiasantos8@yahoo.com.br

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