terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Combate à Intolerância Religiosa é tema de entrevista no Portal da Cidadania



No dia 21 de janeiro foi comemorado o Dia Mundial da Religião. No Brasil, na mesma data, é celebrado o Dia de Combate à Intolerância Religiosa. Em uma entrevista especial para o Portal da Cidadania, Vondusi-He Pai Neto de Azile abordou o preconceito às religiões de matrizes africanas como uma das chagas sociais mais enraizadas no país.

Confira:

Portal da Cidadania: Quando você pensa em Dia de Combate à Intolerância Religiosa, o que vêm à cabeça?

Vondusi-He Pai Neto de Azile: É importante para se discutir aquilo que é diferente. A maioria das pessoas acha que culto afro é sinônimo de algo ligado a demônios. Nossa tradição celebra divindades africanas, um processo surgido nos quilombos. Foi uma revolução para a época, mas que hoje serve para o fortalecimento e preservação das nossas raízes.

Portal da Cidadania: As pessoas não entendem direito o sentimento e a religiosidade do tambor de mina, que é a sua crença, como foi fazer essa opção?

Vondusi-He Pai Neto de Azile: Não foi uma escolha, nem uma imposição familiar. Em todas as religiões, existe um deus único, mas Deus se manifesta de várias formas. Hoje em dia, percebo que os jovens são resistentes em assumir sua identidade religiosa. Comigo não foi assim.

Portal da Cidadania: Na sua opinião, como nasce a discriminação religiosa?

Vondusi-He Pai Neto de Azile: A idéia da existência do diabo é um dogma oriundo do mito da criação. A fé cristã é um grande entrave porque é imposta até em colégios. Nossa religião busca o contato com os ancestrais, com o sagrado. A sociedade brasileira é pluralista etnicamente, mas a cor da pele ainda é um estigma. Por exemplo, o branco chama de fitoterapia o que a benzedeira faz com ervas para curar doenças. O que existe, essencialmente, é um desrespeito e o maior deles é a expressão “macumbeiro” que remete à rituais satânicos.

Portal da Cidadania: Essa confusão teve repercussão, recentemente, com o caso do menino de São Vicente de Férrer que tinha agulhas pelo corpo…

Vondusi-He Pai Neto de Azile: Esse é um exemplo da ignorância. Fomos à imprensa pois não temos relação alguma com esse caso. Para nós, a criança é divina. É a forma mais pura do ser humano. Nós respeitamos o próximo, a natureza, os mais velhos. Somos a favor da vida.

Portal da Cidadania: Existe uma concepção de que as religiões de matriz africana são condescendentes com a homossexualidade, fato repudiado pelas religiões com base na fé cristã. Há verdade nisso?

Vondusi-He Pai Neto de Azile: Não existe erro em manifestar o amor. Em nosso terreiro todos são bem vindos, principalmente as minorias. Para nós, cada pessoa é um indivíduo especial, independente de suas escolhas ou orientação sexual.

Portal da Cidadania: Falamos muito de diferenças mas, na sua opinião, há algum ponto em comum entre as religiões?

Vondusi-He Pai Neto de Azile: Todo tipo de fé busca dar algum tipo de conforto para a alma humana. Acredito que aí está a solução para as mazelas humanas. Um terreiro, uma missa ou um culto pode servir como terapia ou apoio psicológico. O ponto comum é a conexão, o elo com Deus. Aliás, fazemos muitos rituais ecumênicos com a Igreja Católica. Alguns santos da Igreja personificam nossas divindades. Só mudam os nomes.

*Vondusi-He Pai Neto de Azile é Coordenador de articulação Política do Fórum Estadual de Religiões de Matrizes Africanas, Coordenador Regional do CARMA e Coordenador de religiosidade do CEN-MA.

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