quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Para Lazzo Matumbi... O carnaval tem outra face outra versão



“O carnaval tem outra face outra versão,
Todo mundo sabe todo mundo vê
Só não passa na televisão”

Trecho de música de Tom Zé


Para Lazzo Matumbi

Mais um carnaval de tristeza.
A idéia de que podemos resolver questões do carnaval com algum dinheiro, não resolve e nem resolverá. Também ficar acreditando em uma política salvadora por parte do governo para a população negra parece esgotada. Aliás, o modelo é esgotado. Não funciona. É medíocre.

Hoje a tarde conversei com Lazzo Matumbi, aliás, fiquei mais uma vez impressionado com Lazzo Matumbi. Pois é difícil, muito difícil conversar com Lazzo e não ser interrompido a cada minuto por pessoas que querem tirar foto, cumprimentar e fazer todos os tipos de tietagens que grandes personalidades são acometidas.

Mas enfim voltamos a conversar, e novamente no meio da conversa fomos interrompidos por mais algumas pessoas que queriam tirar fotos. Mas antes de Lazzo ir dar a atenção necessária aos seus fãs perguntei-lhe a respeito da saída do importante e reverenciado Bloco Coração Rastafari ao que recebi atônito a resposta de que este ano o Coração Rastafari não vai sair.

Como assim não sair? Como é possível no carnaval da Bahia o bloco de Lazzo não sair. O bloco da nossa alma não sair. O cantor dos nossos amores e de tudo o que tem de dentro de nós não cantar.

Como tem carnaval sem a “Alegria da Cidade”. Sem aquela voz forte, vibrante, doce e intensa quase a sussurrar no nosso ouvido estrofes poderosas como “a minha pele de ébano é, a minha alma é nua” ou “Eu sou parte de você, mesmo que você me negue”.

Como pode Lazzo não sair no carnaval com a infra-estrutura necessária e parecer que está tudo normal. Não está. Temos a obrigação de fazer uma reflexão séria a respeito.

O Coração Rastafari não vai sair porque o valor que se paga para nós negros de blocos afros é irrisório, é uma piada e de péssimo gosto, e olha que melhorou muito nos últimos anos, e nós do CEN tivemos uma grande contribuição para tal, lutamos por um carnaval com critérios, mas o Ouro Negro ainda é de tolo e ainda falta muito. A política cultural nesse Estado não existe. É uma mentira. Embromação. Hipocrisia.

Aqui neste estado o cantor tem que deixar de ser cantor e ser esmole, bater todo dia na porta da secretaria, do parceiro, das empresas, e deixar o sorriso e a alegria da cidade de lado. Tem que se ajoelhar para receber um recurso que chega ou não, que depende das análises dos burocratas, que nada sabem sobre nós negros a não ser em marketing de outdoors com as suas campanhas milionárias a utilizar as peles de ébano das nossas baianas de acarajé de sorriso largo ou do corpo bem feito dos capoeiristas ou os encantos dos terreiros de candomblé.

Mas como estão todos eles, ou cada um dos nossos pedaços espalhados nesta cidade? Estão destruídos pelo crack e pela negligência do Estado, estão a margem de tudo, abandonados a própria sorte em uma estrutura que não dá a mínima.

Vamos lá ver a Praça do Reggae e a luta de Albino Apolinário para sobreviver e manter a tradição frente a toda a perseguição. Dois Mundos desejando um trio que caiba no orçamento, Alaíde do Feijão, mãe preta de todos nós, sustentando o mundo ao seu redor e sem qualquer apoio qualificado a sua altura, vamos olhar o Opó Afonjá e o descaso que existe com o que há de mais sagrado e ancestral para o nosso povo. Vejamos o nosso Mestre Curió e a sua caminhada cotidiana pela defesa da capoeira, Rita e as nossas baianas da ABAM que mesmo tendo o ofício tombado lutam contra os bolinhos de Jesus. Os nossos jovens das periferias atingidos por projéteis pelas costas, os nossos afoxés desesperados com fantasia de morim em alas de dança decrépitas, ou utilizando camisas de tecido sintético. Os blocos afros desesperados para tentar pagar as bandas percussivas, ou vender fantasia para uma comunidade preta, pobre e marginalizada.

Está tudo aí, podre e exposto, mas é tempo de carnaval e não de lágrimas, são milhões de reais movimentados pela festa. Muito dinheiro, muitos camarotes, muitas exibições em televisão de todo o mundo.

Do outro lado João cata lata, Maria faz churrasquinho, meninas e meninos pretos tal qual bichos na multidão, dormindo uma semana na rua, faça chuva ou faça sol acompanhando a mãe, pois o pai. Ah! O pai...


E tem gente que acredita e resiste, combate as DST´s, use camisinha, se for dirigir não beba, se for pipoca não pule, se pular se ligue, se olhar apanha, combata o trabalho infantil.

É Lazzo: “apesar de tanto não, de tanta dor que nos invade somos nós alegria da cidade”, e ainda tem muita poesia dentro de ti e em cada um de nós e tem gente que sente sim, que liga e sofre por saber que está tudo errado. Sem o Coração Rastafari na avenida as nossas vozes, a energia dos nossos ancestrais vai sentir falta. Você é nossa voz, nosso ídolo, nosso representante. É através de ti que os nossos corpos falam.

Como dizia Malcolm X: “A liberdade nunca será dada voluntariamente pelo opressor terá que ser conquistada pelo oprimido”, então cabe á nós mesmos resolvermos as nossas próprias questões.

E foi assim que eu aprendi, bem ali embaixo do trio sem cordas, eu seguindo você e o Coração Rastafari e a certa altura, quando o seu olhar atento me viu e você disse o meu nome em plena avenida com a sua voz dourada metalizada, você meu amigo Lazzo me ensinou naquela noite que: “Ele queria igualdade entre as raças, e batalhava nos palcos de praças, cantando reggae, Ele era o seu povo rasta, falando da dor que fere a negra e oprimida raça, a muita gente que não tem cidade, Ele deixou amor, tristeza e saudades, e uma voz que floresce e invade e fortalece o grito de liberdade, liberdade, eu grito, eu grito Liberdade. Grito aflito, eu grito ao meu coração Rastafari Liberdade, eu grito Liberdade...”

Meu parceiro, amigo, irmão, a bem da verdade, no final, somos todos escravizados cordeiros a procura de liberdade, destes trios negreiros que agitam as águas turvas do Carnaval.

Marcos Rezende.


Marcos Rezende é Ogan do Terreiro de Oxumaré, Coordenador Geral do Coletivo de Entidades Negras (CEN), Conselheiro Nacional de Combate a Discriminação da Sec. especial de Direitos Humanos/PR, Conselheiro Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça e Licenciado e Bacharel em História.

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