quinta-feira, 17 de junho de 2010

Palmares: Um grito de esperança, sobre sonhos e a dura realidade



Onde estavam os campos.

Onde estavam?



Onde estavam as belas árvores em que repousaríamos no dia seguinte?

Onde estavam?



Mãe, minha Pátria Amada, onde estava a Senhora no dia seguinte?

Onde estava mãe?



Onde estavam os folguedos?

As comemorações,

As danças,

O Samba,

A roda de capoeira,

O sorriso de alegria estampado na face dos guerreiros que voltaram dos campos de batalha.

Onde estavam? Onde estão?



As boas notícias depois de anos de solidão?

Sete anos depois.

Quem trouxe?

Exú meu pai. Me diga!



Eu clamo e imploro.

Por favor, Exú me diga!

Dê-me toda a sua cachaça.

Ou o suficiente para esquecer!

É necessário esquecer muito do que eu vi e ouvi ontem.



Quem falou? O que falavam? Ou sussurravam...

Gesticulavam talvez...Entreolhavam-se...

Nem lembro!

Eram somente espectros!

Bailando perdidos em um espaço que desconhecem!



Nada sabem do Tempo,

Da ancestralidade,

Das diversas formas de resistência,

Nada sabem.



Sequer dignaram-se entrar em seu quarto Exú!

Você os receberia eu sei.

Mas teriam que descobrir o Caminho.

Que caminho?



Aquele da encruzilhada,

Que fatalmente nos leva para dentro de nós.

Mas isto Exú,

É África demais.

É história demais.

Tudo passado de geração em geração.

Coisa nossa.



Exú meu Pai! Eu clamo por ti!

E em verdade te questiono Exú!

Tenho intimidade.

Sou legítimo!



Me diga como Exú!

Como cobrar, de quem não nos entende?

Quem não nos conhece.

Não pisou devagar no nosso massapé.

Lambuzou-se todo.



Por que diminuir Soweto meu Pai?

Por que meu Pai?

Diminuir aquele banho de sangue derramado do ventre da minha Mãe.

Lá na casa dos nossos ancestrais, dos meus Orixás.

Soweto! Soweto!Soweto!

Por três vezes te falo!

Só eu to!

Leva-me pra Casa!



Lá!

Ah, hoje lá tem festa!

Tem festa, tem honra, tem luta, tem amor.

Lá, hoje?

Nem te digo, tem até Copa!

Tem comemoração de verdade.

Lá tem verdade!



Por que aqui Xangô?

Xangô!

Porquê tão somente aqui,

O dia 14 e 17 parecem os mesmos.



São séculos diferentes,

meses diferentes,

dias diferentes,

Mas são tão iguais.



Acabaram as princesas,

Os contos de fada,

Mas ainda temos reis e déspotas,

Nem tão esclarecidos, mas suficientemente clareados.



Ou anseio de nobreza,

Onde a minoria vale mais do que a maioria.

Aqui meu Pai, 20 vale mais do que 68! 113! 117!

É uma matemática diferente.

Os acordos valem mais que os sonhos!

E quem decidiu isto Exu?





Quem autorizou?

E quem precisa de autorização para decidir sobre as nossas vidas.

O nosso futuro,

O futuro dos nossos filhos.

Quem precisa?

Somos só negros Exú!

Eles decidiram, informaram e pronto.



Qual a diferença Exú?

Das senzalas, dos senhores, dos capatazes, do capitão do mato.



Oxum minha Mãe!

Cadê as festas Oxum?

E todo o ouro prometido após a vitória.

Oxumarê!

Onde está o nosso ouro?

E o seu arco-íris que não apareceu hoje?



O que se espera de nós?

Destes guerreiros esfarrapados.

De cada quilombola, macumbeiro,

Dos falcêmicos, dos afro LGBT, dos cotistas,

Dos sem terra, das trabalhadoras domésticas,

Dos desempregados, dos nossos jovens,

E de toda a juventude que investimos.



O que se espera de nós?

Sabe-se lá!



O que podemos nós?

Tudo!



Somos aqueles que sobraram,

Os que acreditam,

Nós temos direito ao impossível.

Aliás, o que é impossível?

Podemos tudo!

Tem um Sundiata Keita

Com ligação estreita de Nzinga e Zumbi

Dentro de cada um de nós.



Somos belas flores,

Essência de mulher e de homem.

Capazes de transformar

Todo e qualquer tipo de esterco, de merda.

Em energia vital de sobrevivência.



Para desabrochar quimera.

Na realidade de um novo dia.



Marcos Rezende.
Coordenador-Geral do CEN
Ogã do Ilê Axé Oxumarê

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