sábado, 21 de agosto de 2010

O memorável encontro de sete divindades negras


Por Suzana Varjão

Yèyé significa mãe, em yoruba; yèyé omó ejá[1], mãe cujos filhos são peixes; mãe d´água - ou Iemanjá. Mito africano, reverenciado em quase todo o mundo, Iemanjá nasceu negra, mas foi embranquecendo, na esteira do mimetismo dos negros escravizados com a cultura de seus dominadores. Para reafirmar as origens desta bela lenda, sobem ao palco do Teatro Nacional de Brasília, nesta sexta-feira (20), sete grandes intérpretes negras da Música Popular Brasileira.

Mães D´Água - Yèyé Omó Ejá, o concerto produzido pela Fundação Cultural Palmares para celebrar seus 22 anos de criação, promove um inédito encontro entre Alaíde Costa, Daúde, Luciana Mello, Margareth Menezes, Mart´nália, Paula Lima e Rosa Marya Colin, que, sob a regência do maestro Ângelo Rafael Fonseca, executarão um repertório composto por canções que saúdam a rainha das águas. Como linha-guia do concerto, os sete mais conhecidos arquétipos da iyabá (feminino de orixá) das águas.

O MITO - Reza a mitologia yoruba que o(a) dono(a) do mar é Olokun - deus masculino em alguns países africanos, feminino em outros. Yemojá (yèyé + omó + ejá) é saudada como odò (rio) ìyá (mãe) pelo povo Egbá (subgrupo dos Yoruba da Nigéria), de onde ambas as divindades são originárias. Mas o mito correu mundo, e Yemojá instalou-se em lagos doces e salgados, enseadas, quebra-mares e junções entre rio e mar, assumindo diferentes formas, etnias, vestes, nomes, temperamentos, poderes.

Numa das mais recorrentes versões da lenda africana, Yemojá é considerada a mãe de todas as divindades yorubas. Nascida da união de Obatalá (o Céu) com Odudua (Terrestre), desposa o irmão, Aganju, com quem tem um filho, Orungã. A representação africana de Édipo apaixona-se pela mãe, que, ao fugir de sua perseguição, cai de costas e morre. Seu corpo dilata-se. Dos grandes seios brotam duas correntes de água, que formam um grande lago; do ventre rompido, nascem os deuses e deusas.

Celebrada em vários países, notadamente nos da Diáspora africana, Yemojá (Yemojá/ Iemojá) é quase sempre representada como uma divindade branca, sendo chamada, também, de Yemayá (Yemaya) e de Iyemanjá (Yemanjá/Iemanjá), como é mais conhecida no Brasil. Uma das poucas nações que assumem a etnia original da iyabá é Cuba. Na ilha de Fidel, Iemanjá é negra, governa os mares, usa as cores azul e branca, assume o nome cristão de la Virgen de la Regla e é a padroeira dos portos de Havana.

BRASIL - Em nosso País, Iemanjá também é considerada a rainha do mar, mas sua representação simbólica é predominantemente branca. É festejada em vários estados, mas as datas diferem de um para outro. No Rio de Janeiro, por exemplo, o culto ocorre em 31 de dezembro, na passagem de ano, quando os devotos oferecem presentes à iyabá, na esperança de que ela carregue os problemas para o fundo do mar e faça emergirem dias melhores.

Na Bahia, a celebração ocorre em 2 de fevereiro, dia de Nossa Senhora de Candeias, uma das santas católicas com as quais a divindade africana foi camuflada, para a sobrevivência do culto. Além de Nossa Senhora de Candeias, Iemanjá foi também sincretizada com a Virgem Maria, Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora da Piedade. Entre as oferendas que a vaidosa iyabá mais gosta estão espelhos, pentes, flores, sabonetes e perfumes.

O ESPETÁCULO - Sob direção artística de Fábio Espírito Santo e regência do Maestro Ângelo Rafael Fonseca, o concerto Mães D´Água - Yèyé Omó Ejá irá exaltar as qualidades das sete representações mais conhecidas de Iemanjá, por meio do cancioneiro popular brasileiro, reunindo uma gama de compositores que vão de Dorival Caymmi a Lenine, passando por Vinícius de Moraes, e sete grandes intérpretes negras do Brasil, de diferente estilos e gerações.

Reunidas em blocos temáticos, solando ou em dueto, as intérpretes enfocarão a iyabá (o mito, a mulher); e sua morada (os mananciais), uma e outra sob ameaçada de extinção. Mas o mimetismo entre divas e divindades não será linear, ou óbvio. Estará expresso nas canções, nos "climas" visuais (iluminação, figurino, adereços...) e em vídeos, que exibirão ritos ligados a Iemanjá e trechos de uma entrevista com uma mãe de santo, filha de Iemanjá.

É um mimetismo, enfim, tão criativo quanto a idéia geral da programação que comemora os 22 anos de luta em defesa da cultura afro-brasileira. Como se fizesse uso das sete anáguas com as quais a rainha das águas protege seus filhos, A Fundação Cultura Palmares lançou incentivos culturais e interconectou sete capitais brasileiras, formando uma corrente simbólica que expressa a necessidade, o desejo e o empenho em preservar um dos maiores tesouros deste País - seu patrimônio imaterial.

[1] Encontra-se yèyé omó ejá grafado, ainda, como yèyé omo ejá; yeyê omo ejá; yeyé omó ejá ou ainda yeye omo ejá.


Os arquétipos


1. YEMOYO (Awoyó/ Yemowô/ Iemowô/ Iyemoyo/ Yemuo/ Yá Ori/ Ayio/ Bosá/ Odo).
É a Yemanjá mais velha da terra de Egbado. Seu fundamento está no ori (representação do inconsciente humano), podendo curar doenças "da cabeça". Veste verde-claro e suas contas são brancas e em tom cristal. Na África, é a mulher mais velha de Oxalá (criador do homem). Usa os trajes mais ricos e protege-se com sete anáguas para guerrear e defender seus filhos. Vive no mar, repousa na lagoa, come carneiro e, quando passeia, usa as jóias de Olokum (rei dos mares) e coroa-se com Oxumaré (deus do arco-íris).


2. OGUNTÉ (Ogunte).
Sob este nome, é a mulher de Ogum (Ògún Alagbedé / Ogum Alay Bebé), orixá da guerra, e mãe de Ogum Akorô e Oxóssi. Vive perto das praias, no encontro das águas com as pedras. Veste branco, azul-marinho, branco-cristal, ou verde e branco. Vive nos recifes próximos da praia e é a guardiã de Olokum. Amazona terrível, traz, pendurados na cintura, um facão e outros instrumentos de ferro de Ogum. É severa, rancorosa, violenta. Detesta pato e adora carneiro.


3. YEWA (Ewa / Euá / Tuman/ Aynu/ Iewa/ Yemaya Maylewo / Maleleo/ Maiyelewo).
Yewa é, na verdade, o nome de um rio africano, paralelo ao rio Ògún, freqüentemente confundido, em algumas lendas, com a rainha das águas. E de acordo com essas versões, a iyabá Iemanjá vive no meio do oceano, no lugar de encontro das sete correntes oceânicas. Como Oxum (deusa do amor, da fecundação), tem relação com feitiçarias. É tímida, reservada, e incomoda-se quando alguém toca o rosto de sua iaô (iniciada), retirando-se imediatamente da festa.


4. ASABA (Assabá/ Saba/ Sabá/ Asdgba/ Soba).
Aquela cujo olhar é insustentável. Altiva, rabugenta, voluntariosa e dada a feitiçarias, escuta apenas virando-se de costas ou de perfil. Mulher de Orunmilá (ou Ifá, testemunha do destino), foi por ele expulsa, por ter usado, em sua ausência, seus instrumentos de adivinhação. Usa uma corrente de prata no tornozelo e manca de uma perna, devido a uma luta com Exu (mensageiro dos orixás). Tem afinidade com Nanã (orixá das chuvas), representa o fundo do mar, está sempre fiando algodão e veste branco.


5. YAMASSÊ (Iamassê/ Iya Masemale/ Iamasse/ Akura/ Akurá/ Akuara/ Ataramogba/ Iyáku).
Mãe de Xangô (deus andrógino, senhor do trovão e da justiça) e esposa de Oranian (rei da cidade de Ifé, Nigéria), foi quem cuidou de Oxumaré. Vive nas espumas do mar, cobre-se de lodo e algas marinhas, e, apesar de muito rica, é pouco vaidosa. Adora carneiro e é muito festejada durante as festas consagradas a Xangô. Suas contas são branco-leitosas, com rajadas em vermelho e azul, sendo cultuada nos rituais de cura da mortalidade infantil.


6. OLOSSÁ (Olossa/ Apara).
Olossá nomeia uma lagoa africana, na qual deságuam os rios Yewa e Ògún. E à semelhança do arquétipo Yewa, é associada à iyabá Iemanjá. Nesta versão do mito, a divindade africana vive na água doce, na confluência de dois rios, onde se encontra com sua irmã Oxum. Muito feminina e vaidosa, ela dança alegremente e com bons modos, cuida dos doentes e prepara remédios. Come com Oxum e Nanã. Veste verde-claro e suas contas são branco cristal.


7. YASESSU (Asesu/ Asèssu/ Assessu /Sesu / Sessu /Susure).
Voluntariosa, séria e respeitável, é a mensageira de Olokum. Vive em águas agitadas e sujas; esquece o que se lhe pede e põe-se a contar, meticulosamente, as penas do pato que lhe foi sacrificado. Caso erre os cálculos, recomeça a operação, que se prolonga indefinidamente. Ligada à gestação. Veste branco e verde-água e suas contas são em branco-cristal.



As divas


1. ALAÍDE COSTA
Alaíde Costa Silveira Mondin Gomide é uma das grandes referências da Bossa Nova, por sua contribuição, como intérprete, para a definição do gênero musical, quando de seu surgimento, em 1957. Nascida no Rio de Janeiro, em 1935, consagrou-se, em 1964, com Onde está você, de Oscar Castro Neves e Lucevercy Fiorini. Seu canto incomparavelmente suave embalou o romance de muitos casais. Tem quinze discos gravados e cinqüenta anos de carreira, salpicada de prêmios e homenagens internacionais.
Contato:
Nelson Valencia
Tel.: (11) 3451-7764 / 9913-5410
nvalenci@uol.com.br


2. DAÚDE
Uma das expressões mais evidentes de nossa herança musical africana, Daúde começou a carreira cantando em casas noturnas e peças teatrais, onde desenvolveu sua forte presença de palco. Nascida em Salvador, aos 11 anos de idade mudou-se para o Rio de Janeiro, onde vive. Passeia, sem sobressaltos, por vários estilos musicais - do samba ao rap, do jongo à MPB. Já com o primeiro disco, de 1995, conquistou o público e a crítica especializada, ganhando os prestigiosos prêmios Sharp de Música e APCA (Associação dos Críticos de Arte de São Paulo).
Contato:
Tel: (11) 3079-4399
falecomdaude@uol.com.br - andre@babelproducoes.com.br


3. LUCIANA MELLO
Aos 31 anos de idade, a paulista Luciana Mello é considerada uma das grandes intérpretes da MPB, surpreendendo pela espontaneidade nos palcos. Começou a cantar e gravar aos seis anos de idade, ao lado do pai, Jair Rodrigues, com quem fez um célebre dueto no disco Dois na bossa, gravado por Jair e Elis na década de 60. Com cinco discos e vasto repertório, passeia pela black music, pelo samba e pela baladas dançantes que compuseram as trilhas do filme Sexo, amor e traição e da novela Da cor do pecado.
Contato:
Tel: (11) 4612-0711
clo.rodrigues@uol.com.br


4. MARGARETH MENEZES
Cantora, compositora, produtora, atriz e empresária baiana, Margareth Menezes é uma das divas da axé-music, da MPB e do samba-reggae. Com 21 anos de carreira, correu todos os continentes, contabilizando 20 turnês mundiais e 12 álbuns lançados, sendo muito bem acolhida pela imprensa internacional - foi capa do The New York Times, Le Monde e Washington Post, apelidada de "Aretha Franklin brasileira" pelo Los Angeles Times. Atualmente apóia o (necessário) Movimento Afropopbrasileiro, patrocinado pela Fundação Cultural Palmares
Contato:
(71) 3237-0066
assessoria@margarethmenezes.com.br


5. MART´NÁLIA
Além de cantora e compositora, é uma grande percussionista. Seu talento chamou a atenção de Caetano Veloso, que assinou a direção artística do disco Pé de samba, e de Maria Bethânia, que produziu Menino do Rio. Tem dois DVDS e sete CDs gravados, sendo que os três últimos foram lançados em Portugal. Carioca de Vila Isabel, Mart´nália começou a cantar profissionalmente aos 16 anos, com o apoio do pai, Martinho da Vila. Mescla, freqüentemente, suas interpretações com humor, arrebatando o público.
Contato:
Márcia Alvarez
(21) 2210-1924
alvarezmarcia@uol.com.br


6. PAULA LIMA
Formada em piano clássico, dona de um swing e de uma potência vocal inigualáveis, a diva negra marcou sua entrada no mundo da música com o grupo Unidade Bop. Já no primeiro disco, É isso aí (2001), conquistou crítica e público. Sinceramente (2006), o terceiro disco da carreira, teve a primeira tiragem esgotada em menos de um mês. É considerada a "menina dos olhos" de Jorge Ben Jor, tendo, no decorrer de sua trajetória, cantado ao lado de ícones da música brasileira, como D. Ivone Lara, Milton Nascimento, Rita Lee e Zélia Duncan.
Contato:
(11) 2183-8383
marcia@agenciaproducao.com.br


7. ROSA MARYA COLIN
Cantora e atriz mineira, Rosa Maria iniciou a carreira musical no Rio de Janeiro, cantando jazz e Bossa Nova, no Beco das Garrafas, local consagrado como ponto de partida do movimento musical que ganhou o Brasil e o mundo. Nos anos 80, conquistou grande popularidade com uma versão cool e despretensiosa de California dreaming, para um comercial de TV. Sua voz potente e grave destacou-se, ainda, na primeira montagem brasileira do musical Hair. Na década de 90, mudou o nome para Rosa Marya Colin, por influência da numerologia.
Contato:
(21) 9604-5942
sioux_213@yahoo.com.br



REPERTÓRIO

- Caminhos do mar (Dorival Caymmi, Danilo Caymmi e Dudu Falcão);
- Arrastão (Edu Lobo e Vinícius de Moraes);
- Pedra e areia (Lenine e Dudu Falcão);
- Quem vem pra beira do mar (Dorival Caymmi);
- Canto de Iemanjá (Badem Pawell e Vinícius de Moraes);
- Conto de areia (Romildo S. Bastos e Toninho Nascimento);
- O mar serenou (Candeia);
- Rainha do mar (Dorival Caymmi);
- Na beira do mar (Mateus e Dadinho);
- Agradecer e abraçar (Vevé Calazans e Gerônimo);
- Lenda das sereias (Vicente, Dionel e Veloso);
- Dois de fevereiro (Dorival Caymmi).

Fonte: http://www.palmares.gov.br/

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