quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Nosso Lar: Uma colônia espiritual brasileira apresentada ao mundo

O filme Nosso Lar, além da beleza cenográfica e do interessante enredo jornalístico, sem dúvida leva-nos à reflexão sobre um mundo paralelo para onde todos desejam ir após a morte do corpo.

É uma referência interessante do mundo dos espíritos e, exatamente por isto, por ser uma colônia brasileira, compreendo que deveria “ter a cara” do Brasil.

Dados do IBGE demonstram que 49,5% da população brasileira são afrodescendentes que certamente chegarão com este aspecto ao mundo espiritual. Entretanto, naquela imensa população, raros eram os negros. Apenas um era destaque e apenas uma família habitava a bela colônia.

O que acontece com os negros brasileiros no mundo espiritual? Mudam de cor? Será que cor é uma questão de evolução? Será que aquele chavão preconceituoso “preto de alma branca” é procedente? Ou será que no mundo dos espíritos o preconceito é tão gritante e negado quanto no mundo dos encarnados? Será que também no mundo dos espíritos é preferível não se falar deste assunto com a desculpa de que somos todos iguais, embora no dia a dia brancos e negros recebam tratamento diferenciado e os brancos sejam sempre privilegiados?

Foram esquecidos também os amarelos, os índios e seus descendentes (eles ainda não têm cota obrigatória).

Na verdade, a Nosso Lar apresentada no cinema mais parece uma colônia européia, ou melhor, poderia ser também uma colônia da classe dominante do nosso país se não fosse numericamente tão habitada.

Não quero, em absoluto, diminuir o brilho do projeto (aliás, quem sou eu para isto?), mas sinceramente, quando o filme começou a ser anunciado imaginei que veria na tela uma colônia brasileira, com a “cara” do povo brasileiro.

Ao final do filme, tive o cuidado de olhar a platéia e fiquei pensando naquela esmagadora maioria afrodescendente (80,9% - estou na Bahia) que não se viu na tela.

Você que é branco ou você que nega/esquece a ascendência africana pode achar tudo isto uma bobagem irrelevante, o que é sem dúvida mais confortável, afinal na próxima encarnação todos podem mudar de cor. Mas, se a doutrina espírita o ajudou a ser alguém que tem os pés no chão, que não tem medo de olhar o mundo (este de encarnados onde estamos agora) e se sente responsável pela construção de uma sociedade com mais justiça e reverência, com certeza, como eu, vai sair do cinema envergonhado e, de alguma maneira, também vai fazer a sua parte.


Ivone Leão Ladeia Cirne (assistente social, psicoterapeuta, integrante do CEN)

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