quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Memória e visibilidade dos terreiros marcam o primeiro debate

por Paulo Rossi

Duas linhas de raciocínio complementares marcaram as falas dos debatedores no primeiro encontro do projeto Corpo-imagem dos terreiros, em Brasília. A primeira abordou os terreiros como um território ancestral cujo espaço sagrado deve ser preservado. A segunda trouxe para a discussão o papel da fotografia no registro dos espaços e do viver interno e externo dos terreiros, como uma forma de valorizá-los, pelo conhecimento propiaiado pela imagem.

Rafael Sanzio, professor do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília, apontou, nesse sentido, para a falta de projetos para os diversos “Brasis”, especialmente, para o Brasil africano. A terra, que é fundamental para a existência humana, para o africano é uma referência sagrada em virtude da importância ancestral que ela exerce. No Brasil, o terreiro é uma maneira de se referir à terra sagrada. Nela, todos compartilham a mesma sensação de pertencimento. No Brasil rural, Sanzio nos mostrou que os quilombos contemporâneos têm uma organização espacial que remete à forma de sociabilidade e de hábitos das culturas africanas ancestrais. Mas a inexistência de projetos que contemplem o Brasil africano faz que muitas dessas comunidades quilombolas e os vários terreiros no espaço urbano não sejam preservados.

Na contramão da intolerância religiosa, especialmente a que atinge as crenças de matriz africana, como enfatizou o fotógrafo Luiz Alves, e da não preservação dos terreiros, a fotografia pode servir para dar visibilidade às religiões afro-brasileiras, como também pode exercer papel preponderante na preservação da memória dos terreiros e dos rituais religiosos.

Tiago Quiroga, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, propôs que a fotografia se coloque como forma de resistência e de permanência da memória, daí a relevância de trabalhos fotográficos como os de André Vilaron, Luiz Alves e Duda Bentes dentre outros, que foram apresentados nesse primeiro dia.

Cada vez mais a fotografia é empregada como instrumento de pesquisa acadêmica, prática que cresce nas universidades, e onde o tema da religiosidade afro-descendente ocupa lugar de destaque. É fundamental, no entanto, que se desenvolva um aprendizado do olhar sobre essas fotografias para se perceber os elementos da cultura africana.

De certo modo, a fotografia permite alguma visibilidade a essas religiões. A questão que se coloca, entretanto, é que visibilidade é esta e qual visibilidade se pretende alcançar. Jacira da Silva, da Cojira – DF, Comissão de Jornalistas para Igualdade Racial, da plateia, indagou até que ponto a fotografia não estaria contribuindo para o fortalecimento dos estereótipos sociais a respeito das religiões de matriz africana.

Sua preocupação é acolhida por uma das principais características dessa cultura religiosa. O fato de que é a vivência no interior dos rituais que fortalece essas manifestações culturais. Talvez, por isso, ainda, a fotografia seja vista por terreiros tradicionais com negatividade, pois ela não daria conta da totalidade da experiência de vida promovida dentro dos terreiros. O sacerdote Roberval Falojutogun Marinho, em seu depoimento para o debate em São Paulo, em 28 de outubro, pontua esta questão.

Finalmente, vale a pena ressaltar dois aspectos que foram suscitados, mas que ficaram na periferia do debate: a estética fotográfica e a atuação do fotógrafo no registro dos rituais e dos terreiros.

Duda Bentes, fotógrafo e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, foi quem mais avançou sobre este assunto. Ele destacou sua metodologia de trabalho no ato de fotografar os terreiros associando-a à finalidade das fotografias, a saber, responder a um estudo de campo sobre os terreiros, e disponibilizar as fotografias para as casas-de-santo fotografadas, para que fizessem uso delas. Para tanto, foi preciso escapar do “papo de fotógrafo”, ou seja, evitar um olhar esteticizante sobre o assunto. Tiago Quiroga remarcou os aspectos técnicos e estéticos presentes na obra do fotógrafo André Vilaron, e o fotógrafo Luiz Alves destacou certos aspectos técnicos presentes em algumas de suas imagens como forma de valorizar determinados elementos presentes na imagem. Para finalizar, elaborei uma síntese a partir de um trabalho realizado durante a festa de Iemanjá, na praia de Tambaú, em João Pessoa – PB. Por meio delas, acredito, trago um olhar completamente leigo sobre esse orixá, cujas comemorações são muito populares no Brasil, mas compromissado com o ver fotográfico.

Talvez a questão proposta por Jacira da Silva possa servir de provocação para os próximos debates. Pensar a visibilidade e os estereótipos sociais a respeito das religiões afro-brasileiras, por meio de leituras críticas das fotografias nos âmbitos da forma e do conteúdo, pode ser um avanço para a agenda contemporânea que trata destas questões no Brasil.

E mais, poder-se-ia abrir a discussão sobre o modo como tais trabalhos são apresentados e trabalhados junto ao público de dentro e de fora dos rituais. E, quem sabe, ainda, com um pouco mais de dificuldade, pensar a recepção desses trabalhos pela mídia e pela crítica de arte.

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