quinta-feira, 28 de outubro de 2010

'Tropa de Elite 2': quem puxa o gatilho?

Antonio Engelke*

A julgar pelas críticas das revistas Carta Capital e Veja, toda a expectativa em torno de “Tropa de Elite 2” não se justifica. “Carta” acusa José Padilha de ser um cineasta com muitas certezas e nenhuma dúvida, e afirma que o filme não faz mais do que buscar a reconfortante anuência do espectador. Veja chega a dizer que “Tropa 2” é “cinema de primeira”, mas isso apenas em função de suas qualidades estéticas (“um filme vertiginoso, um thriller ágil e envolvente”). Em ambos os casos, o leitor não encontra nenhuma análise ou comentário mais aprofundado sobre o conteúdo do filme. Para além de um breve resumo da trama, nada é dito sobre suas questões implícitas ou implicações políticas. Uma omissão e tanto, se levarmos em conta que estamos diante de duas das publicações mais politizadas da imprensa brasileira.

“Tropa 2” é de fato um filme explicado demais, e nele há pouco espaço para nuances. Mas criticá-lo em função do dogmatismo que supostamente o anima não diz nada acerca do essencial. Um filme feito sobre certezas pode acabar suscitando dúvidas, e vice-versa. O problema é saber que tipo de questionamento as certezas destiladas em “Tropa 2” levantam. É aí que a crítica de Carta Capital erra o alvo. Padilha não investiu “apenas nas certezas de seu público”. Fez o contrário: desconstruiu as certezas que ele mesmo havia ajudado a criar. Quem em 2007 aplaudiu a truculência do Capitão Nascimento deve agora sair do cinema com um gosto amargo na boca. Terá aprendido, com o filme, que a demanda popular por uma política de segurança pública baseada exclusivamente no confronto está na raiz da engrenagem que gerou não apenas as milícias, mas também a perversa lógica eleitoral a elas associada.

Curiosamente, essa é a mesma razão pela qual Veja elogia em “Tropa 2” apenas o verniz estético. O primeiro filme foi saudado nas páginas da revista por haver colocado “os pingos nos is”, mostrando que “bandidos são bandidos, e não vítimas da questão social". Isso importava porque, segundo Veja, o Brasil seria “um país de ideias fora do lugar por causa da afecção ideológica esquerdista que inverte papéis, transformando criminosos em mocinhos e mocinhos em criminosos.” Mas, na esteira da denúncia da realidade mafiosa das milícias, “Tropa 2” implodiu o tosco binarismo interpretativo que atravessa as páginas de Veja. O Capitão Nascimento que inicia o filme zombando do personagem Diogo Fraga, então mais um “esquerdista defensor dos direitos humanos”, só chega ao final da trama como herói por haver reconhecido nele a única voz lúcida em meio ao caos de corrupção e violência. Fraga decifrou, antes de todos, o funcionamento do “sistema”.

É sintomático que o “sistema”, personagem principal do filme, tenha sido ignorado por ambas as críticas. A questão do “sistema” havia sido colocada no primeiro “Tropa”, mas acabou ofuscada pelo espetáculo glorificador da violência dos “Caveiras”. Não é o que acontece desta vez. “Tropa 2” é antes de tudo uma aula de sociologia: a intervalos regulares, somos lembrados pela narrativa em off de Wagner Moura que o “sistema” opera por uma lógica própria que, quando ameaçada, refaz-se a fim de garantir sua perpetuação. Transcende a mera vontade dos indivíduos, e exerce sobre eles pressão incontornável. Constrange inclusive atores políticos poderosos, como a imprensa. Tudo é parte de um cálculo eleitoral que tem a pólvora por unidade básica de medida: se os governantes derramarem sangue de bandido em quantidades suficientes para dar à sociedade a (falsa) sensação de segurança, terão o reconhecimento nas urnas, e a continuidade no poder assegurada. Não sem razão, Nascimento diz ao final do filme que o policial não puxa o gatilho sozinho. O que ele não diz, mas deixa subentendido, é que bandidos também não puxam gatilhos sozinhos. Todos são peões de um jogo social e político que os engloba, escraviza e mói. Só então Nascimento entende aquilo que dizia quando era um soldado do Bope – que o “sistema” não trabalha para resolver os problemas da sociedade, mas sim os problemas do próprio “sistema.”

Veja e Carta Capital não discutem as lições que se podem extrair de “Tropa de Elite 2” porque as obrigaria a fazer algo que a rigidez típica dos dogmatismos não permite: rever opiniões e, quem sabe, mudá-las. Seria preciso reconhecer que Padilha, afinal, não era fascista. E que os “esquerdistas” têm razão quando dizem que o crime não é apenas um desvio individual, mas um problema estruturado socialmente, e que portanto uma política de segurança pública exclusivamente belicista jamais poderá dar conta de solucioná-lo.

*Doutorando em ciências sociais pela PUC-RJ.

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