quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Bandidos e Mocinhos: Um retrato da guerra urbana carioca

Em plena crise da segurança no estado do Rio de Janeiro, as autoridades foram a público pedir à população que não mude a rotina, que não deixe de sair de casa normalmente, apesar do clima de guerra civil que se instaurou na cidade. Segundo o secretário estadual de segurança, José Mariano Beltrame, e o governador Sérgio Cabral, que fez o apelo em rede nacional ontem (24/11) à noite, “a população não deve se tornar refém dos bandidos, para não fortalecer a ação destes e para não colaborar com sua intenção de espalhar o pânico no Rio”.

Esta seria uma ótima oportunidade de a população fazer justamente o contrário. Não para se render aos traficantes, mas como uma forma de cobrar das autoridades uma ação mais intensa e contínua para efetivar a paz no meio urbano. Se a população, em protesto silencioso ao (des)governo e à falta de segurança — que não é novidade para o carioca — não saísse de casa, não fosse ao trabalho, não levasse os filhos à escola e não utilizasse transportes públicos, talvez os responsáveis por manter a ordem pública tivessem uma visão mais real do que está acontecendo, através da única forma de pressão possível por parte dos cidadãos neste momento.

É uma irresponsabilidade muito grande não só do governo, mas também da grande imprensa, que em nenhum momento questionou as formas com que a política de segurança no Rio vem sendo conduzida, a falta de preparo dos policiais, o sucateamento dos equipamentos, a ausência do poder público nas regiões de miséria da cidade, a falta de uma política de educação e de saúde, o abandono das comunidades carentes que vivem à margem de seus próprios direitos, assegurados pela Constituição.

Foi revoltante ouvir o governador Sérgio Cabral no Jornal Nacional fazendo propaganda de seu governo e das UPPs, sem ser indagado pelos repórteres, sem ser questionado sobre a gravidade do apelo feito por ele para que as pessoas agissem como se nada estivesse acontecendo, enquanto ônibus são incendiados, carros destruídos e civis feridos por balas perdidas. Não seria o caso de se fazer o contrário? Com ruas vazias, ônibus parados, escolas fechadas e carros nas garagens, o que restaria aos bandidos? O que fariam eles, se o alvo de suas ações desaparecesse?

Outra declaração feita pelo governador do Rio soou estranha e falsa. Ele disse que com as UPPs o comando do tráfico havia sido desbaratado e que estes episódios seriam fruto do desespero dos bandidos diante de uma desarticulação provocada pela presença do poder público nas favelas. Não seria justamente o contrário? As UPPs não teriam, destarte, imposto ao tráfico uma rápida e mais contundente reorganização de seus métodos e formas de ação? Será que não previram que com as UPPs os bandidos se reuniriam em algum outro lugar onde poderiam agir livremente e em bando? Não previram que nenhum outro local na cidade porderia ter as condições mais perfeitas para isso do que a Vila Cruzeiro ou o Morro do Alemão?

Nenhum jornalista teve coragem de perguntar isso e a grande imprensa perdeu a chance de encostar o governo do Rio contra a parede, de lhe tirar a máscara e de informar com isenção. Diante disso, ninguém falou que essa reorganização aconteceu de forma mais veloz e articulada do que as medidas tomadas pelo governo. Ninguém mencionou que o poder público, pego de surpresa (?) pareceu ser mais desorganizado do que as facções de bandidos, que deixaram as rivalidades de lado para se unir em uma ação conjunta. Ficou evidente que o governo não tem um plano estratégico prévio para uma situação assim, que age de improviso ou que simplesmente dança conforme a música.

A lenda urbana de que a bandidagem um dia desceria o morro para dominar o asfalto é velha. Tem, pelo menos, três décadas. Três décadas de desgoverno, de ausência, de irresponsabilidade. O mesmo poder público permitiu que a miséria crescesse, que as favelas inchassem, que áreas fossem invadidas, que os pobres vivessem à míngua, que as crianças ficassem sem escolas, que a saúde pública agonizasse, que o cidadão vivesse sempre com medo, que a classe média se cercasse com grades e cercas eletrificadas. A cidade partida sempre existiu. Sempre foi um fantasma a assombrar as classes mais abastadas. E nada foi feito. A corrosão dos instrumentos de gestão pública, a corrupção, a ganância, o oportunismo são igualmente velhos na prática política do país e no Rio de Janeiro adquiriu contornos gritantes.

As ações de segurança só são desencadeadas quando há crise. As respostas são pontuais e localizadas. E a propaganda que os governos fazem sobre suas efêmeras soluções é vergonhosa. Ontem à noite, o governador anunciou com satisfação a instalação de UPPs em outra favela que não a Vila Cruzeiro, epicentro da guerra. Mas hoje (25/11) mudou o discurso e divulgou a instalação de uma UPP na mesma Vila Cruzeiro, como se suas providências fossem tomadas a reboque da urgência de uma realidade. Típico de quem está mais preocupado em não ter a imagem manchada, dias após a reeleição, do que propriamente resolver uma situação grave com seriedade.

Um dia antes, o governo do Rio divulgou não seria necessária a intervenção das tropas federais. Mas mudou de ideia rapidamente ao perceber que apenas com o aparato e o contingente da polícia militar do estado, relegada ao abandono, não conseguiria dar conta. Ainda que o Bope esteja preparado para agir em áreas superpovoadas, em ações cirúrgicas bem treinadas e sem por em risco a vida de civis inocentes, o apoio logístico e moral das forças armadas, em cobertura à retaguarda destes mesmos policiais, é uma estratégia lógica. Assim como a presença do exército nas ruas é a única solução imediata para aumentar a sensação de segurança da população. Para não ser crucificado da opinião pública e, provavelmente, antevendo o insucesso de suas medidas, o governador voltou atrás e aceitou o apoio da Marinha.

O papel da grande imprensa, nesse caso, deveria ir muito mais além do que ouvir passivamente as declarações dos governantes. Mais do que divulgar meramente os informes e comunicados oficiais. Deveria ser mais incisivo do que fazer perguntas vazias que só alimentam o discurso de quem se isenta de responsabilidade. Mas parece que a grande imprensa desaprendeu a indagar, perdeu sua função de pressionar o entrevistado diante de suas declarações genéricas e sem embasamento. Parece que a grande imprensa foi corrompida pelo mesmo poder que contaminou os políticos ou que está anestesiada, acomodada ao exercício de uma profissão que já não cumpre seu papel social maior. Parece, outrossim, que a imprensa tem perguntas ensaiadas para respostas prontas.

Por que ninguém perguntou a eles [governador e secretário] qual outra medida mais contundente poderia ser tomada do que transferir os comandantes do crime para os confins do país? Os mesmos condenados que comandam à distância, por telefones celulares e até pela internet, seus soldados nas favelas. Por que até hoje não existe um dispositivo legal, um decreto que proíba as visitas, que evite o contato direto entre os traficantes presos e seus advogados, mulheres e familiares que, como todos sabem, os ajudam a desencadear ações de dentro dos presídios, levando informações, drogas e telefones escondidos? Não se trata de negar aos presos seus direitos adquiridos por instrumento legal, mas de estabelecer limites mais eficazes nesses contatos, coisa que um vidro blindado durante as visitas poderia resolver.

A cidade está a mercê de bandidos, mas pior que isso: está nas mãos de um governo que não consegue acabar com a constante sensação de insegurança nas ruas e nas casas. Depois de amanhã, quando a polícia voltar para os quartéis, quando os blindados de assalto da Marinha forem recolhidos, tudo voltará a ser como antes. E o carioca poderá respirar aliviado até o próximo episódio dessa guerra civil.

Em tempo: hoje, ao longo do dia, a polícia conseguiu dominar aparentemente a situação na Vila Cruzeiro, mas os bandidos atravessaram o ‘Inferno Verde’ e migraram para o Morro do Alemão. Esse grupo que está em fuga é grande, mas onde estão os outros? Estão nas comunidades ainda sem a presença do poder público(leia-se UPPs). Enquanto os olhos de todos (imprensa, cidadãos e governo) se voltam para os complexos da Penha e do Alemão, os demais traficantes desencadeiam ações pontuais em diferentes locais da cidade para deixar a polícia tonta e a população com medo. A TV Globo fez a cobertura ao vivo das 11h30m até o fim da tarde. Para isso, mobilizou equipes e usou todo seu aparato de câmeras, lentes potentes de longo alcance e helicóptero, fazendo com que a cobertura das outras emissoras parecesse acanhada e amadora. Mas nesse exato momento acabou de interromper a transmissão para exibir mais um capítulo da novela das seis.


Mehane Albuquerque, jornalista.
25/11/2010

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