sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Consciência Moral e Construção da Paz



“Meu pai era um cientista e em sua juventude, na Inglaterra, gostava muito de caminhar. Levou seu amor pelas caminhadas para o outro lado do Atlântico e, durante toda a minha infância e depois, ele e eu fizemos longas excursões juntos. Não posso imaginar-me sendo o que sou se aqueles tempos de passeios juntos não tivessem acontecido. Neles, meu pai me perguntava sobre minha vida, meus atuais interesses, esperanças e atividades. Compartilhava comigo- ele compartilhava tantas coisas comigo!

Os anos que nos separavam pareciam se dissolver quando andávamos, longas excursões que nos tornavam camaradas embora ele fosse sempre meu pai também...O mais importante é que ele me falou das pessoas que conheceu, quais as que apreciou ou não e por quê. Suas razões para gostar ou não de determinados indivíduos, mais tarde compreendi, foram em resumo seus valores, que me ofereceu inconscientemente, em uma contínua narrativa, enquanto nossas pernas se moviam-uma ajuda, talvez, para a franqueza que lhe acometia e a mim também, porque, como um filho grato que o amava e admirava eu fazia o mesmo, falava-lhe de meus amigos, dos companheiros, de quem gostava, dos caras de quem não gostava e por quê....Suas sensatas opiniões tinham sempre um grande valor para mim- em contraste com toda essa propaganda diária que nos aflige atualmente. De certo modo, grande parte de minha educação moral ocorreu durante aquelas caminhadas- quilômetros e quilômetros de histórias contadas, as idéias e ideais de um pai, seus valores incluídos nelas.”

(Robert Coles)





A paz, tema deste artigo, tem suas mais profundas raízes fincadas no singelo solo das relações interpessoais: o nosso comum cotidiano. Da mesma forma, as grandes guerras têm sua origem nos pequenos embates de crueldade competitiva, intolerância e indiferença, que travamos cronicamente em nossa cultura do dia-a-dia. Infelizmente, na senda da globalização que tudo submete à pressa do mercado, vai se agravando o ritmo da perda de nossa humana capacidade contemplativa, de olhar-nos e olharmos todos os seres e coisas com olhos, a um só tempo, afetuosos e críticos. Assim, gente da superfície, estamos apagando a luz da consciência moral, perdendo qualquer norte existencial, abdicando do desejo de plenitude, afastando-nos da paz que habita dentro e ingressando no jogo infernal e insaciável do poder exterior e das aparências. Para jogar conforme as regras propostas é proibido pensar com autonomia, é proibido propor a ousadia, é proibido crer em utopias, é proibido ser.

O tema da paz, portanto, longe de ser tão somente um macro-tema sócio-político-econômico, que mira a superação dos grandes conflitos históricos de massa, carrega uma gravidade individual, pessoal, nominal, irrecusável e intransferível. É, de tal forma, uma reflexão feliz e, ao mesmo tempo, perturbadora. Feliz porque, como toda reflexão, nos pode apontar alternativas e perturbadora porque estamos, obviamente, diante de um mundo onde não se vive e nem se busca, com real determinação, uma cultura de paz.

A partir deste ponto, peço permissão para escrever um pouco mais sobre a antítese da paz, para deter-me nos espinhos antes de chegar à bela flor. Para que nosso discurso sobre a paz apresente-se com alguma conseqüência, é preciso que tenhamos a coragem de debruçar-nos dolorosamente, copiosamente (por que não?), sem escamoteios, sobre o fenômeno da violência. Aparentemente, estamos muito cansados de ouvir falar em violência. Estamos saturados de tanta conversa sobre isso, de tantas imagens, de tantos testemunhos. Parece-me, contudo, que, como em tudo, estamos superficialmente saturados. Ao abordarmos ou escutarmos abordagens sobre violência, geralmente o fazemos em um patamar bastante rasteiro e muito pouco analítico. Sofremos os efeitos tremendos, é verdade, que se tornam ainda mais tremendos porque não compreendemos minimamente as causas. Por medo, quão pouco desvelamos o que se encontra por trás dos fenômenos que nos causam medo! Contudo, não é apenas por medo que deixamos de incursionar pelos bastidores, onde o importante acontece. Também não o fazemos por interdito de um mundo onde, apesar de todas as declarações em contrário, é cada vez mais subversivo pensar livremente. Assim, em geral, as reflexões sobre o tema da violência se restringem ao discurso horrorizado, condenatório (e meritório, nesse sentido), mas muito superficial.

Para que não caiamos na vala comum de tal visão lírica sobre a paz, precisamos enfrentar cognitivamente, ainda muito mais, ainda que desgostosos, a anti-paz, a violência, a dor que nos assola. Em geral, rejeitamos essa perspectiva que nos incomoda por seu aparente negativismo. Ao final de muitas conferências que realizo sobre a paz há, quase sempre, gente contrariada que “não foi até lá para falar em violência”. Não creio, contudo, que isso ocorra por consciente falta de vontade pessoal de enfrentar a dura realidade. Ocorre, sim, como manifestação de uma espécie de lavagem cerebral coletiva, como processo de negação intelectual internalizado em decorrência da falta de interesse das elites e estruturas que nos dominam. Aprofundando-se criticamente a discussão sobre a violência, muitas máscaras daquilo que genericamente chamamos de “sistema” cairiam, revelando todo o podre esquema de articulação e funcionamento do mundo em que vivemos. Ao caírem tais máscaras, muitos entendimentos seriam obtidos sobre a dinâmica de exclusão, de exploração e de opressão das grandes massas que constroem as sociedades. Assim, uma análise mais profunda sobre a questão da violência não interessa aos estratos sociais dominantes. É por isso que se fala muito no assunto sem que, em geral, se dê a tais falas uma dimensão crítico-analítica.

Na contra-corrente, quero conclamar-nos a fazer uma tentativa, a lançarmos a nós mesmos uma provocação intelectual, a pensarmos nisso, ainda que sem pretensões a sermos os donos da verdade. Paulo Freire dizia que ninguém ensina ninguém. A educação vive esse dilema, ao mesmo tempo assustador e maravilhoso: só podemos aprender sozinhos mas não podemos aprender sem o outro. O outro nos provoca, nos desafia, e nos lançamos pessoal e intransferivelmente na jornada da aprendizagem. Por isso, desculpo-me se algumas das presentes abordagens possam parecer demasiado enfáticas. Essa é a função de um texto: provocar reação intelectual. Lembro que o intento básico, aqui, não é produzir material acadêmico mas refletir sobre algo tão significativo em nossas vidas, passando pela senda do coração. A radicalidade das afirmações, portanto, é paixão e não pretensão. Tal paixão incendeia os sentimentos e o intelecto e nos provoca a enfrentarmos nossos limites corajosamente, a encararmos de frente as reflexões que nos são difíceis e caras, a voltarmos a sonhar e a construir utopias realizáveis. Nesse contexto é que gostaria de inserir estes singelíssimos pensamentos sobre violência e paz.

Instigado por tal ousadia que nos inspira a paixão, penso que chegou o momento de afirmar que a violência não é um fenômeno solto, desarticulado, casual, indesejável às entranhas do macro-sistema político e econômico que a todos domina. A emblemática destruição das torres gêmeas em N.York, por exemplo, não pode ser encarada como mero resultado de disparidades culturais e cronológicas, como somente um fenômeno destrutivo gestado à partir da indisposição de uma das muitas díspares arestas da fragmentada pós-modernidade. Não é um embate, apenas, entre extremadas civilizações. O “ovo da serpente” foi chocado entre nós, é fenômeno nosso, é um produto, entre tantos, da cultura que nós mesmos produzimos, cultura da violência banalizada e “necessária”.

O que nos poderia parecer, em ligeira análise, um gesto de traumático simbolismo, no ataque à única grande potência que restou, é, na verdade, o emblema de um fenômeno há décadas vivenciado e multiplicado por nossa dita civilização. Para ilustrar um pouco melhor tais afirmações, recorro a uma declaração de grande autoridade no campo em questão, porque produzida por um dos maiores cineastas vivos, Robert Altman: “Os filmes de Hollywood ditam o padrão e os terroristas seguiram esse padrão. Ninguém teria cometido uma atrocidade dessas sem nunca ter visto filmes na vida”.

Falamos, aqui, do fenômeno globalizado da violência que se encontra no dia-a-dia de todas as culturas e de todas as pessoas, inclusive no nosso. Se formos bem honestos , teremos que reconhecer que a violência está internalizada dentro de cada um de nós, ainda que procuremos alternativas. Somos também produtos desse mundo violento.

O professor Robert Putnam, da Universidade de Harvard, tem se dedicado a pesquisar as razões do desenvolvimento dos países e as conexões disso com as chamadas “redes de engajamento cívico”, ou seja, as motivações e ações morais dos cidadãos em relação às nações a que pertencem. Uma de suas terríveis conclusões é que, a par de todo o desenvolvimento científico e tecnológico sem precedentes, nos encontramos em um dos mais temerários processos de involução moral de nossa história. Essa é uma fórmula profundamente explosiva: muita ciência com pouca consciência! Assim, a violência, cada vez mais sistêmica, ao extrapolar os controles-e não poderia ser diferente- está, hoje, atingindo até mesmo os grandes símbolos desse mesmo sistema que a gesta. Em certo sentido, podemos dizer que estamos padecendo num falso paraíso: o falso paraíso de todas as conquistas materiais que alcançamos. No entanto, não sabemos bem o que fazer e onde queremos chegar com isso. Como humanidade, falta-nos orientação moral, norte existencial, consciência de sentido.

Em um belo metaforismo, Daniel Quinn (Ismael, Ed. Fundação Peirópolis,1998), compara nossa civilização aos primeiros aeronautas que, desconhecendo a inexorável lei da gravidade, ousavam “voar” em máquinas que, à pedaladas, batiam asas mecânicas. Jogavam-se de imensos penhascos e, por breve e intenso tempo, tinham a exata sensação de libertar-se das amarras da terra, de ganhar o espaço, de transcender limites, de, verdadeiramente, voar. No espaço de tempo que lhes permitia o impulso e a altura, julgavam-se vitoriosos conquistadores da natureza. O chão, no entanto, parecia aproximar-se rapidamente. Assim mesmo, eles, encantados, só julgavam que bastava pedalar mais rápido. O chão “crescia” e, ao invés de perceberem o equívoco de sua invenção, inebriados pelo vento, pelo vasto horizonte, pela aparente ausência de limitações e pela glória que supostamente os aguardava, só eram capazes de pensar: “mais rápido, mais rápido, mais rápido! Tudo foi bem até aqui, é só acelerar e ficará bem ao final”. Mais ou menos como o suicida da anedota que lança-se de nonagésimo andar e, ao passar pelo décimo, exclama: “até aqui, tudo bem!”. No dizer tragicômico de Quinn, nossa civilização é uma espécie de “Thunderbolt” em queda livre mas repleta de sensações de grandeza. Optamos por modelos de desenvolvimento nada sustentáveis, não apenas do ponto de vista do ecosistema mas também do ponto de vista das relações inter-pessoais, da moralidade. Quando grupos de pesquisadores e cientistas alertam que nos próximos cinquenta anos poderemos encontrar-nos com a irreversibilidade de nossa extinção, isso parece-nos exagerado e os olhamos como messiânicos alarmistas, ecologistas sectarizados, nessa hora, “certamente”, menos científicos. Facilmente retrucamos: “basta pedalarmos mais rápido. Já chegamos até aqui, não? Vamos encontrar uma saída”. Nossa única vantagem é que, ao contrário dos primeiros aeronautas, contamos com o tempo histórico. Nossa queda livre é mais prolongada, ao ponto de podermos corrigir a geringonça que criamos, desconstruí-la em pleno ar, fazer dela outra nova, que respeite as tais leis inexoráveis que, no caso em questão, se atém à ordem da consciência moral. Mas estamos muito distraídos com nossas glórias, vitórias, aquisições e sentimentos de onipotência. Além disso, pela proporção geométrica de aumento do poder científico-tecnológico que adquirimos nas últimas décadas, o tempo histórico vai sendo acelerado. Nossa máquina vai sendo aperfeiçoada, é verdade, mas não repensamos todo o projeto para ver se é sustentável. É apenas no mesmo inquestionável modelo que estamos dispostos a mexer. As asas são cada vez mais leves, a mecânica é estonteantemente perfeita, os batimentos derivados das pedaladas se multiplicam incessantemente. A máquina, tão sofisticada, contudo, não voa. As leis da aerodinâmica, em interface com a gravidade, não são por nós reconhecidas. Cada vez temos menos base de sustentação, as correntes de ar que nos iludiam no trajeto vão desaparecendo, o horizonte vai sumindo, o chão vai ficando “mais perto”, cada vez mais rápida e assustadoramente, e temos a impressão de ir ao encontro dele com cada vez maior velocidade. Talvez os cientistas estejam corretos. Teremos uns cinquenta anos pela frente, para corrigir o voo, e então bateremos. Não resolverá se apenas “pedalarmos mais rápido”.

Sem depreciar, de forma alguma, a importância de nossos avanços em conhecimentos astrofísicos, matemáticos, cibernéticos, robóticos, químicos, biológicos, precisamos repensar o projeto. Nosso problema não é de evolução material mas de involução moral. É possível elencarmos alguns elementos que comprovam esse processo de involução . Recentemente, pesquisa da UNESCO, realizada em 23 países, incluindo o Brasil, trouxe-nos dados alarmantes, que nos podem fazer compreender melhor a dimensão que alcança o fenômeno da violência. Uma das coisas que a UNESCO desejava saber era qual o herói mais significativo na vida dos adolescentes iniciais desses países. Poderia ser Jesus, poderia ser Gandhi, poderia ser Buda, poderia ser Martin Luther King, poderia ser Madre Tereza, poderia ser Bahá’U’Lláh , poderia ser Einstein, poderia ser Freud, poderia ser Marx, poderia, para os brasileiros, ser Irmã Dulce ou Cora Coralina, poderia ser Alan Kardec, poderia ser o Dalai Lama, ou qualquer outro ou outra que tenha prestado contribuição efetiva ao desenvolvimento da humanidade. Nenhum deles foi muito citado, no entanto, diante do grande vencedor: o “Exterminador do Futuro”, ente ficcional holliwoodiano, encarnado por Arnold Schwazeneger. A maioria da adolescência planetária declarou que o seu maior herói, sua maior fonte de inspiração, é um personagem que sequer existe. Que mundo é este? Que mundo é este que legamos aos nossos jovens? Dá muita tristeza ver o lixo que estamos entregando a eles e nossa profunda ausência qualitativa como adultos. Sequer percebemos claramente o que está por trás de tudo . Agimos como peões, jogamos o jogo, não nos perguntamos, tememos “virar a mesa”. Percebemos a violência que a mídia produz e ficamos queixosos. É tudo. E não chega nem perto de bastar. Falta-nos perguntar-nos os “porquês” e sugerir, com urgente insistência, que os que nos cercam também o façam. Episodicamente, como na onda de atentados terroristas, nos sentimos atazanados, ameaçados e queremos entender. Mas não temos prática em entender e nem suficiente perseverança. Por isso mal conseguimos tangenciar as causas. Quando aparece alguma ponta desse iceberg, nos apavoramos durante um tempo, até as notícias se banalizarem e esquecermos novamente. Contudo, as pontas são cada vez maiores e a qualquer momento podemos colidir com o perigoso colosso submerso do qual fingimos não ter conhecimento.

Sabemos, contudo, que uma criança norte-americana passa, em média, 21 horas semanais diante da televisão. Sabemos que uma criança brasileira passa, em média, 28 horas sob seu efeito hipnótico. E sabemos o que passa na TV. Como, então, podemos não imaginar o resultado? Como podemos ser tão alienados ou dissimulados? O que talvez não saibamos é que as pesquisas apontam, nos EUA, para uma média semanal de 38 minutos de conversa dessas crianças com seus pais. Por que nos é tão difícil imaginar as consequências? Por que nos surpreendemos, ainda, com as barbaridades que acontecem, diariamente, no mundo inteiro? A quem cabe a paternagem e a maternagem real das crianças e adolescentes do mundo de hoje? Mais, terá a UNESCO pesquisado o conteúdo desses 38 minutos semanais de conversa? Quantos pais assistem TV com os filhos e se encorajam a ser “chatos” e analisar, com eles, o conteúdo do que é visto? Quantos professores abordam, em sala de aula, em estratégia contra-hipnótica, o que os alunos assistem na TV ou jogam nos Games? Sei, é preciso “dar a matéria”...

“Nos últimos quarenta anos, mais de 3.500 estudos de pesquisa dos efeitos da violência na televisão sobre os espectadores foram conduzidos nos EUA, e durante a década de 90 foram feitas diversas análises desta literatura, incluindo o relatório de 1.991 dos Centros para Controle de Doenças, que declarou que a violência na televisão é um mal para a saúde pública; o estudo da violência na vida norte-americana, de 1993, feito pela Academia Nacional de Ciências, que relacionou a mídia, juntamente com outros fatores sociais e psicológicos, como um fator que contribui para a violência; e o estudo da Associação Psicológica Norte-Americana, de 1.992, que também comprometeu a violência na mídia. Todas estas três análises apoiaram a conclusão de que a mídia de massa contribui para o comportamento e atitudes agressivas, assim como conduz a efeitos de dessensibilização e medo.” (Carlsson, Ulla e von Feilitzen, Cecília, A Criança e a Violência na Mídia, Cortez Editora/UNESCO, São Paulo, 1.999, pág. 64).

Depois dos episódios em N.York- uma extrapolação da violência desejada- há quem diga que talvez, alguma coisa mude nos roteiros da ficção (ainda que os presentes sinais não estejam apontando nessa direção). Até então, contudo, não se produzia em Hollywood um montante significativo de filmes que não se apresentassem embalados em muita violência, mesmo quando o pano-de-fundo dos roteiros era excelente. A razão é simples: não se vende filme que não venha pintado de sangue , sonorizado por tiros e estrondos e enfeitado por efeitos visuais de grandes explosões. “Ao terminar o primeiro Grau, uma criança norte-americana comum terá visto mais de 8 mil assassinatos e mais de 100 mil outros atos de violência.” (A Criança e a Violência na Mídia, pág. 62).

Lembram dos adolescentes que fuzilaram os colegas na Columbine School ,dando declarações em que se diziam inspirados no filme Matrix ? Trata-se de uma película excelente, de profundo conteúdo. Isso, no entanto, não foi percebido. A lavagem cerebral que se processou nas últimas décadas abriu, nos jovens cérebros, espaços privilegiados para a captação de rajadas de bala, de tripas saltando, de sangue escorrendo e os bloqueou para a compreensão de mensagens. Na sociedade do espetáculo, a forma substituiu, em gênero, número e grau, o conteúdo. É evidente que tal forma é vendável e que, em última instância, atende às nossas pulsões agressivas e de morte. A pergunta, no entanto, é: precisamos fragilizar tanto o superego individual e coletivo, trazendo a tona o que, em boa linguagem psicanalítica, deveria ficar recalcado no insconsciente? Que perigosa legitimação de pulsões moralmente condenáveis, como exercício, estamos introduzindo com banalidade em nossos universos conscientes? Qual será o paradeiro disso tudo? Indo além, com que objetivo? A mídia, corporativamente, assume o argumento de que “vende o que as pessoas estão interessadas em comprar”. Não é sequer preciso apelar para o cinismo que acoberta o descompromisso com o papel educativo que os meios de comunicação estriam obrigados a ter, para contraditar tal simplismo. Melhor é perguntar: vende-se o que as pessoas compram ou as pessoas compram o que se quer vender?

“É importante notar que as pessoas, em média, preferem assistir a programas de televisão não-violentos, pelo menos de acordo com uma análise norte-americana (Gerbner, 1997)...Contudo, essas alternativas são poucas ou inexistentes.” (A Criança e a Violência na Mídia, pág. 50). Por aí chegamos mais fundo no fulcro perigoso do que não se deseja explicar. Há muito conhecemos a questão das necessidades criadas. Ora, hoje os seres humanos não são mais capazes, de forma geral, do exercício de vontades autônomas. A mídia, o primeiro poder, determina o que é necessário, o que se deve consumir, em quem se deve votar, quem deve cair em desgraça, quais as notícias mais importantes, contra quem se deve fazer guerra, qual a hora de parar, etc. Toda vez que alguém tem a coragem de enfrentar esse tema, a corporação midiática fala em censura, com a intenção deliberada de confundir , de mistificar, de ganhar apoio em cima do passado. Pierre Bordieu, em seu excelente ensaio “Sobre a Televisão” (Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1997) desmascara com precisão todas as formas de censura ideológica e fundadas no capital às quais a mídia está voluntária e deliberadamente afeta. É primário atacar como censores os que questionam a censura real que dita as regras, fundada em interesses de ordem política e econômica. É primário mas funciona e mantém o jogo acontecendo. É fácil dizer: “quem não quer ver que troque de canal ou desligue”. Quantos, em nosso tempo, contudo, teriam tal força psicológica para desligar (já que, na TV aberta-que é a que está em todas as casas- excetuando-se algumas emissoras educativas, trocar de canal, em geral, seria trocar lixo por lixo).? Mais, quantos possuem o privilégio das imagens e sons do Discovery Channel na sala-de-estar ou no home theater? A grande massa, que precisa ser manipulada, só tem mesmo acesso à TV aberta, essa velhaca, vilmente comercial, caixa de patifarias dourada por uns raros momentos de qualidade (como o “Globo Repórter” ou o “Passando a Limpo”, para citar dois exemplos de horário nobre). O conteúdo não requer muita análise acadêmica. Basta assistir. A má qualidade e a falta de ética são evidências empíricas. É o “óbvio ululante”. Só não quer vê-lo quem tem interesses e só não o vê quem já se deixou hipnotizar (lamentavelmente, a quase totalidade das pessoas). Quero deixar claro que não estou propondo, aqui, o fim da televisão. Seria ridiculamente saudosista supor que isso fosse possível. Também não seria justo, uma vez que, liberta dos mega interesses político-econômicos que a dominam, a TV seria uma das melhores ferramentas de educação, de difusão de conhecimentos, de lazer saudável e de promoção das legítimas culturas populares. Em uma palestra para pais, que proferi há alguns dias, atordoado pelas angústias que gera o desvelamento desse tema, um senhor declarou, com ar decidido e candidamente verdadeiro: “hoje, quando chegar em casa, vou colocar no lixo o aparelho de televisão” ( diante do que não pude evitar a lembrança do slogan da campanha ”coloque o lixo no lixo”). Elogiei a boa intenção mas observei que não resolveria. Os filhos assistiriam em outro lugar ou, na melhor das hipóteses, se contaminariam com a cultura de quem assiste. O que está faltando não é colocar fora a TV mas começar a interpretar aquilo que se vê. Também começar a pressionar os canais, as redes, por mais qualidade. O Brasil está atrasadíssimo nisso. Fico escandalizado com o que somos capazes de engolir passivamente, por anos a fio, sem reclamar, como se fosse uma fatalidade. Alguém sabe de alguma forte associação de consumidores de TV, que lute pelos direitos que temos a uma programação ética, educativa, com sentido, lúdica sem ser chula ou destrutiva? Isso não tem feito parte dos direitos do consumidor em nosso país. E, com certeza, importa tanto quanto a data de vencimento na embalagem dos produtos ou a pureza dos medicamentos. Há drogas que nos envenenam poderosamente e que não são consumidas por via oral. Praticamente, como sociedade, não fomos capazes de organizar nada com força suficiente para questionar esse império da televisão. No máximo, são manifestações individuais corajosas, de gente que se antipatiza com a corporação e que passa rapidamente à posição de alvo da mesma.

Preciso, ainda, lembrar que a violência dos filmes é produzida basicamente nos Estados Unidos. O meu discurso, aqui, não é antiamericano. É absolutamente indispensável que sejamos solidários com os que lá foram vitimados pela bestialidade do terrorismo. Contudo, seria imperdoável esquecermos que os Estados Unidos produzem quase toda a violência exportada para o planeta pela televisão. Pasme-se, agora, com outra conclusão da mesma UNESCO, aqui antes citada: a violência que exportam é maior do que aquela que consomem internamente. ”Um estudo feito nos EUA indica que os programas norte-americanos exportados para outros países contém mais violência que os programas americanos transmitidos nos EUA.” (Gerbner, 1977, citado em A Criança e a Violência na Mídia, pág 51). ...”Pode-se estimar que cerca de 70% do tempo de violência seja de origem norte-americana.” (idem, pág. 50). Por quê? Que dado é esse, que parece falar por si mesmo? É inevitável que a gente comece a perder a virgindade intelectual, que comece a desconfiar de coisas mal explicadas nessa aparente espontaneidade de algo que “se vende porque as pessoas desejam comprar”.

Nossas pulsões de morte não emergem banalmente sozinhas, sem qualquer interesse escuso e para alguém vantajoso, seja na ordem política, seja na ordem econômica das coisas.

Não nos fixemos, contudo, nesse lamentável rol, apenas nos filmes. Temos, hoje, na televisão, pelo menos três tipos de violência explícita: a representada, ficcional, (dos filmes, por exemplo), a real, que é repetida à exaustão nos telejornais e nos programas de auditório de todos os horários e a simbólica, que aqui no Brasil se expressa fortemente através da maioria dos programas que se apresentam como humorísticos. Não há quase opções que fujam a isso. Quando as mortes e injustiças impunes não estão nos filmes e novelas, estão, à toda hora, no jornal das oito, por exemplo, para incorporarem-se ao universo de “normalidade” de nossos filhos e filhas, alunos e alunas. Sem dúvida alguma, o conteúdo-chave da TV é a violência, inclusive sob a forma de objetização do corpo e mercantilização da sexualidade, adulta ou precocemente representada. Faz parte do sistema e de sua lógica perversa. Quanto à violência simbólica, como dissemos acima, em países como o Brasil, se expressa gritantemente através dos programas pretensamente humorísticos. Estes são, geralmente, articulados em cima de preconceitos, da má fé em relação à categorias politicamente minoritárias, de uma crítica política fundada no achincalhe pessoalizado ( por isso mesmo inconseqüente e exacerbadora da miopia política que não permite ver, por detrás das pessoas, as estruturas e os sistemas), do individualismo e da insensibilidade irônica e grosseira às dores alheias. Se tomarmos alguns dos programas de maior audiência e os analisarmos não será preciso grande esforço para percebermos, neles, claros elementos de racismo, sexismo, xenofobia, machismo, homofobia, personalismo e elitismo. Deram, nos últimos tempos, uma suavizada (a exposição é menos direta mas ainda presente) apenas em relação aos negros, uma vez que o Movimento Negro é melhor organizado, processa judicialmente e em geral ganha. Já os índios, menos organizados, são sistematicamente ridicularizados... É preconceito de gênero contra mulher, é preconceito estético contra gente gorda, “feia”, é preconceito intelectual contra mulheres “louras” e portugueses, é preconceito sexual contra homossexuais, é preconceito “geográfico” contra nordestinos, é preconceito contra categorias profissionais (os policiais , por exemplo, são todos e sempre, praticamente sem exceções, apresentados como corruptos e ignorantes, um prato cheio para o crime organizado que, em contrapartida, quase nunca é ridicularizado; as empregadas domésticas são sempre burras, inconvenientes e simplórias), é preconceito físico contra pessoas portadoras de deficiências, é preconceito etário contra idosos, é preconceito social na forma de avacalhação dos pobres, etc.

Em suma, quem não se enquadra na categoria dominante, entre os ricos, descendentes de europeus, brancos, heterossexuais, homens, jovens, fisicamente “perfeitos”, escolarizados, bem vestidos, bem falantes e bem empregados, não vale nada a não ser como objeto de chacota. Há algum tempo, quem ligava a TV no domingo à noite, por exemplo, encontrava um manancial infindável de escárnio contra os pobres brasileiros, a quase totalidade de nossa população. Como se não bastasse a gente viver num país profundamente injusto, o segundo pior do planeta em termos de divisão de renda (perdendo apenas para Serra Leoa, como é sabido), precisamos, ainda, suportar a mídia da elite rendendo os pobres à condição de ridículos, enxovalhado-os como anti-estéticos, bregas, inconvenientes, estúpidos e inferiores. Vejam que falo aqui da rede de TV comercial mais elegante do país, a mesma que ajuda as criancinhas pobres, por triste mas compreensível ironia. Nem vale a pena falar das demais. É daí para baixo... Pois naquela emissora, tecnicamente uma das melhores do mundo, durante muito tempo, um festejado personagem humorístico emblematizou o ódio aos pobres. Fórmula simples e eficiente: a figura do “picareta” simpático ( o “perpetrador atraente”, se colocado nos termos do estudo realizado pela UNESCO, ao elencar os fatores de alto risco em representações violentas), “querido” de todo o Brasil, o mais aplaudido, carismático e “sincero”. Seu discurso anti-pobres se incorporou rapidamente ao dia-a-dia nacional. Em todos os lugares se ouviam e ainda ouvem observações depreciativas em relação à nossa famélica população. Será mero acaso, coisa inocente, brincadeira ingênua, fenômeno sem qualquer intencionalidade? Lembro que a cada investida contra a pobreza o auditório aplaudia vivamente (havia “claque” ou era uma reação espontânea da classe média da platéia?). A verdade é que, em um país rico como o nosso, os pobres causam muita culpa. É terapêutico rir deles porque isso desopila nossa consciência. A tal rede de TV, assim, nos ajuda, ao apresentar-nos a pobreza como um problema de ordem estética. Não há dolo político ou econômico nas causas da mesma. A gênese nada tem a ver com injustiça. Os pobres estão onde merecem. Afinal, são burros, bregas, mal educados, mal escolarizados, desajeitados, incompetentes, ridículos. No máximo podem ser “limpinhos” (“sou pobre mas sou limpinha”, diz a empregada, querendo revelar-se uma exceção). Não sabem aproveitar a vida, não sabem ir à praia, não sabem fazer festa, não sabem se vestir, não sabem falar, não sabem apreciar um bom vinho ou um bom prato. São estúpidos e estariam mal colocados em qualquer outro lugar social. Sujam e emporcalham a praia, têm filhos “ranhentos”, ouvem música de má qualidade. Ao revelar a si mesma tudo isso, na figura do simpático cafajeste, cruel mas cheio de razões, a nação inteira dá risadas e bate palmas. Pior, os pobres riem de si mesmos. Ao aceitarem-se no papel de ridículos, “reconhecem seu merecido lugar”. Nada melhor do que o humor para condicionar as consciências sem os limites do juízo e da razão. Rir da miséria dos outros e da própria miséria: não poderia haver processo mais acomodatório, gerador de passividade e conformidade, aliviador de culpas e mentenedor das distâncias e preconceitos. Que aconteceu conosco, a ponto de não mais escandalizar-nos, de aceitarmos passivamente esse horror?

Não é apenas nessa circunstância, contudo, que a elegante TV nos apresenta os pobres. Eles também aparecem nas telenovelas. E como parece ser “light” a vida de pobreza naquela emissora! Os pobres geralmente têm casa própria, telefone, um carro (ainda que meio “passado”), comida na mesa... e se queixam o tempo toda da vida difícil. Há alguns dias assisti a uma cena típica, em certa telenovela: um casal de gente “pobre” se lamentando amargamente da própria pobreza, à mesa do café da manhã, entre pães, frutas e sucos! “É que pobre se queixa de barriga cheia. No fundo, no fundo, a vida deles está indo bem.” É precisamente essa mensagem, de caráter subliminar, que nos quer passar a televisão.”A pobreza no Brasil não é tão amarga como parece”. Há algum tempo, concluiu-se uma novela, de grande audiência, onde os moradores de uma vila de pescadores não cessavam de se lamuriar em relação às suas dificuldades. Viviam, contudo, em casinhas simples mas boas, tinham seus barcos, à noite iam regularmente à farra, pareciam saudáveis e bem nutridos, além de beneficiários de uma orla marítima que faria a alegria de qualquer grande “resort”. Em suma, a vida que muitos executivos estressados e em crise, fartos das imposições do próprio status, desejariam ter! É folgada e poliqueixosa a vida da pobreza, no entender daquela rede de TV. Será que tramas como essa, que se repetem incessantemente (são raríssimas as exceções), são produto do mero acaso? Precisamos deixar de ser ingênuos...

Para falarmos em construção da paz, sem cairmos naquela já citada vala comum do lirismo emocionado, precisamos perceber que por trás do fenômeno da violência há uma intencionalidade. A violência não é casual, é construída socialmente por um modelo perverso, que dela se nutre.

Evidentemente, essa intencionalidade não supõe que os poderosos do mundo precisem se reunir em volta de uma mesa e combinar como é que vão banalizar a dor e, através desse processo, controlar as pessoas. Tal intencionalidade se dá ao natural, pela própria dinâmica de funcionamento do sistema. É preciso lembrar que vivemos em um mundo presidido pela lógica perversa da violência. A maior evidência disso é o fato de termos pelo menos 1 bilhão e 200 milhões de pessoas passando fome neste momento. Não pode haver violência maior! É nessa hora, dessa percepção dolorosa, que nos colocamos em condições de superar as análises tão superficiais com que nos defrontamos em nosso dia-a-dia. É nessa hora que podemos encontrar-nos com o triste mas necessário desvendamento da tal lógica perversa: é preciso banalizar a violência como estratégia de “inoculação” das pessoas com uma espécie de “vacina contra o escândalo”. Como o planeta é presidido pela violência, é preciso que percamos a capacidade de escandalizar-nos, de indignar-nos, de sentir como nossa a dor do outro ( o excelente estudo da UNESCO, diversas vezes aqui citado, de forma interpretativa, utiliza o termo “dessensibilização”). É preciso que a gente olhe para a violência e diga: ‘é normal.’ É preciso que a gente pense que “sempre foi assim e sempre será”. Chegamos a esse ponto porque acostumamos com violência de todos os tipos estampada nos jornais, invadindo-nos pela tela da TV, “distraindo-nos” através dos videogames. Esses últimos, em geral, são um completo horror! É preciso que os pais e mães se dêem conta, se apurem, saibam e passem a acompanhar o que os filhos estão jogando em casa ou nas ruas. Tem doença cultural para todos os gostos: games de trânsito onde vence quem dirige sobre as calçadas e mata mais gente da forma mais cruel, games de estripar o inimigo e nomear as tripas (há um cuja propaganda chega ao “requinte” de puxar setas de uma gosma espalhada na parede e legendá-las: “oitava vértebra toráxica”, “feijoada de ontem”, “pedra dos rins”, etc.), games de assaltar e estuprar as vítimas, games com todas as formas de guerra e com todas as armas imagináveis, games ensinando a dominar cidades através da corrupção. “Quem não gosta é babaca”.

Quero lembrar, aqui, que os tais games são democráticos: joga-se no computador Pentium do último tipo ou no boteco da esquina.

Atropela, mata e não socorre. Que exercício de construção de um projeto moral para a sociedade! O que acontecerá com quem apertar o botão milhares de vezes, tomando tal decisão virtual? Em especial, o que acontecerá aos muitos que vêm de estruturas familiares destroçadas e de escolas cujo impacto ético é nulo ou insignificante? E ainda estranhamos viver em um mundo tão mais assustador a cada dia! E ainda estranhamos a alienação da maioria dos jovens! E ainda estranhamos as gangues! E ainda estranhamos as pichações! E ainda estranhamos as mortes no trânsito! E ainda estranhamos o crescimento do império das drogas! E ainda estranhamos a brutalidade masculina nos campos de futebol! E ainda estranhamos a violência nas escolas! Com nossos estranhamentos, somos uma civilização dissimulada. Semeamos inço e nos apresentamos surpresos em que não haja crescido um belo pomar.

Não gostaria de chegar às conclusões finais que o momento já enseja sem, contudo, “en passant”, lembrar uma das mais difundidas, dissimuladas e, por isso mesmo, perigosas, formas de banalização da violência: a música. Exatamente ela, tão sublime, não escapou, por essa sublimidade, de ser também conspurcada pelo sistema de idéias , práticas , proposições e interesses que domina a cena da vida contemporânea. Talvez o leitor conheça um texto distribuído pela internet, (parece que falsamente atribuído a Luís Fernando Veríssimo, não sei) chamado Diga Não às Drogas. Nele, o autor inventa, em geral com fino humor , um sujeito que se confessa usuário de drogas pesadas. Mas não é de substâncias psico-ativas que o texto está falando. Fala de música. O suposto arrependido, ali, confessa ter entrado no mundo das drogas ao receber de presente o CD de uma famosa dupla sertaneja. Gostou e, quando percebeu, estava em uma loja comprando um CD desses pagodes enlatados. Em seu último estágio, já estava consumindo o “Bonde do Tigrão” e similares. Está, contudo, em tratamento radical: para reverter o quadro, precisa de doses cavalares de Música Popular Brasileira, Jazz, Clássica, (e, quem sabe, acrescento, para não parecer elitista, de “samba de raiz”, de hip-hop, etc.). A juventude brasileira, lamentavelmente, de maneira geral, não conta com o acesso a essas clínicas imaginárias de “limpeza” e desintoxicação cultural. Lembremos, por exemplo, só para ilustrar, da sexualização perversa, da erotização precoce do mundo infantil, sugerida, cantada, dançada (às vezes sob o encanto ignorante dos pais) pelas últimas gerações de brasileirinhos e brasileirinhas. Lembram da “dança da garrafa”, das menininhas de 6, 7 anos, executando-a no Domingo à tarde, em rede nacional, para as famílias brasileiras? De novo, o inço. E a surpresa com tanta gravidez na adolescência. E a surpresa com tanta situação de abuso sexual (em especial no seio dessas mesmas famílias). E a surpresa com as pesquisas revelando uma super-antecipação fisiológica do surgimento da menstruação na população infantil do país.

Os meninos rebolam menos (até porque isso, em demasia, é proibido aos homens), apenas reproduzindo à exaustão -como seus ídolos- os movimentos alusivos ao coito, mas aprendem que “um tapinha não dói” (tapa com a mão ou “tapa” de droga, não importa), que as mulheres são “cachorras” -entre outros singelos qualificativos (sempre explicados com benevolência exegética pelo pessoal da mídia)- a “passar cerol na mão” (conforme o “Aurélio”, “mistura de cola de madeira e vidro moído...” ), provavelmente para dar o tal tapinha que não dói... Quero deixar claro que nada tenho de moralista. Contudo, como adulto, felizmente, não perdi um mínimo senso do que é consciência moral. Sob o argumento de que qualquer limitação é ditadura, é censura, deixamos nossas crianças e jovens entregues ao jogo vil do mercado de lixo midiático.

Por trás de todo esse horror que não parece mais horror, de tão “natural”, está aquela matriz perversa que preside o planeta, de que falávamos: a injustiça social, o acúmulo desenfreado, em poucas mãos, dos bens da terra, o domínio dos “fortes”, que, por seu hedonismo pessoal e de classe, a tudo e todos submete. Essa é a batuta que rege a orquestra da violência, com todas as suas horrendas sinfonias. Dizendo de outra forma: qual a relação entre as tripas de gente expostas, ficcionais ou não (cenas vistas aos milhares por nossos pequenos telespectadores e gamemaníacos) e a pobreza no planeta? A relação é total e necessária, à partir de um olhar mais crítico e atento. Se você ficar insensível às tripas, ao sangue, aos assassinatos, às crueldades explícitas, por uma correlação de transferência inevitável, na sua psique, ficará insensível também aos que morrem de frio ou fome na calçada da sua rua, ficará insensível aos que tomam para morar os viadutos, ficará insensível aos que habitam nas favelas, ficará insensível aos que querem plantar e não possuem terras, ficará insensível à extinção dos índios -apurada pelos vermes, pela prostituição, pelo álcool e pelas doenças dos brancos- ficará insensível aos moribundos desatendidos nas filas dos hospitais, ficará insensíveis aos idosos- tratados como trastes pela Previdência. Tudo faz parte do espetáculo que você vê todos os dias, do circo de horrores ao qual você já está tão familiarizado. A banalização gera essa insensibilidade tão cara e tão necessária à imobilidade do sistema, à sua sustentação passiva, à manutenção de sua ordem perversa de privilégios. Por nos revoltaríamos, se já estamos, desde crianças, tão acostumados? Por que nos daríamos ao trabalho se, de todas as formas, somos convencidos que nos cabe cuidar apenas de nós mesmos e daqueles que nos são mais próximos? O outro é o distante, aquele por quem não podemos sofrer, sob pena de não mais podemos viver em um mundo tão eivado de sofrimentos. O outro é a tragédia que precisamos evitar, para preservar-nos. O outro é a estatística ou o frio símbolo imagético da dor banal, a qual já nos acostumamos. É um mero reflexo da tela de nossa TV.

Em síntese, para que o planeta continue presidido pela lógica da violência é importante jogar, diariamente, nos lares das pessoas, uma grande carga de sons e de imagens dessa mesma violência, a fim de que se insensibilizem, se adaptem, sintam-se pequenas e aplastadas para reagir diante de tal volume de dor. O refúgio natural será um individualismo cínico e compensatório no consumismo “garantidor” de salvação da vala comum das desgraças que assolam a humanidade.

Nesse sentido, é de profundo simplismo afirmar que é a pobreza que gera a violência. Algumas das cidades mais pobres do mundo têm índices de violência inferiores aos de megalópolis consideradas ricas. Os pobres, de maneira geral, são pacíficos, honestos e trabalhadores. Diria mesmo que são heróicos em sua resistência moral. Sabe-se que são melhores pagadores de dívidas, respeitadores de filas, cordatos no trato do dia-a-dia. Há, entre eles, criminosos, como há em todo lugar. Certamente, pelo imenso contingente populacional de pobres em um país como o Brasil, contudo, perceberemos, em fácil evidência empírica, que os percentuais de delinquentes entre as classes mais favorecidas é muito mais alto.

Assim, o que gera a violência explícita em atos de agressão, que a todos apavora, não é a pobreza mas a soma da injustiça social com o consumismo desenfreado como ideologia onipresente e dominante. Acabo de ler uma entrevista com especialista norte-americano, autoridade em arquitetura, que discute a reconstrução das torres gêmeas em New York. Ele crê que a corrente de pensamento que deveria vencer é a que defende que as Torres sejam reconstruídas com trinta andares a mais. Pensa que esse fenômeno seria comparável ao que ocorria na Idade Média quando, em conflitos, as catedrais eram reduzidas a pedras e depois reconstruídas ainda maiores com o fito de demonstrar poder e pujança. O que me impressionou em seu depoimento foi a forma aparentemente neutra, não crítica, com que justifica esse proposto movimento: “Nós vivemos em um mundo que substituiu Deus pelo mercado” (numa óbvia analogia entre as Torres e as antigas Catedrais). É precisamente o que está acontecendo.

Por isso há uma profusão de teses comparando o consumismo a uma religião . Não sou contra o consumo mas creio que reduzimos drasticamente o sentido de nossas vidas ao limita-las a isso. As pessoas vivem numa perspectiva exclusiva de consumir, mergulhadas no que alguém chamou de “dimensão bovina da existência”. Ora, essa onipresença da razão consumista, essa obrigatoriedade incessante, essa compulsão doentia, quando se choca com o paradoxo da miséria que não consome mas anseia por consumir e legitimar-se perante a vida como a concebe o mercado, só pode gerar tremendas , sucessivas e crescentes ondas de violência. Como já afirmei, os percentuais de delinquência entre as massas famélicas são inexpressivos em números relativos (vivemos em um mundo rico onde quase todos são pobres ou estão abaixo da linha da pobreza e, entre essas grandes massas, é baixo o percentual estatístico dos que enveredam pela senda do crime). Contudo, em números absolutos, os que perdem totalmente a noção moral de limites é suficiente para que vivamos com medo, trancafiados em nossas casas. Como fenômeno social, corresponde aos grupos que “enlouqueceram” de frustração regada à super-estimulação de desejos. A violência da criminalidade é uma das doenças sociais do consumismo como proposição para todos e como realização para poucos.

Ilustrando esse processo, basta pensarmos que a quase totalidade da população brasileira possui televisão. Algo como 11 ou 12 % apenas não têm acesso a ela (e suponho que apenas nas regiões onde não há energia elétrica, de maneira geral). Então, o sujeito mora na favela mas tem TV. A TV aberta é, ainda, a mais disputada pelo capital, aquela que chega a todo mundo. A TV paga não se popularizou suficientemente, uma vez que parece refluir com a crise da classe média. Nela estão os programas “elegantes”, que poderiam vender produtos elegantes, porque assistidos por “gente elegante”. Contudo, como dito acima, historicamente esses canais ainda não juntaram forças para serem as grandes vitrines do consumo. A TV aberta ainda é a que todo mundo assiste, portanto a que melhor vende todo tipo de coisas. Em associação com os Shoppings, é a catedral eletrônica, altar dos deuses de nossa civilização. Nossos deuses não são feitos só para a adoração. Precisamos possuí-los para que eles nos possuam. Há uma espécie de processo de “interpenetração”, que fica irremediavelmente frustrado se apenas os adoramos, sem leva-los para casa. Esse é o problema daquele sujeito que mora na favela: está excluído do “círculo de pureza” da religião do capital. Fica eternamente no “pátio dos gentios”, porque precisa adorar de longe, sem privar do convívio íntimo com os ídolos. Se esse sujeito tem 15 ou 16 anos , uma família ausente, uma educação escolar inexistente ou inexpressiva e não faz parte de nenhum grupo artístico, esportivo, voluntário ou verdadeiramente religioso, facilmente surta pelo consumo, comete infrações, crimes, e tal surto pelo consumo e por um lugar material ao sol se vai cronificando sem respeitar qualquer forma de limite, nem mesmo a morte própria ou alheia.

Por isso, há algum tempo atrás, no Rio de Janeiro, durante reunião que debatia formas de minimizar a violência, um líder comunitário sugeriu ao Governo comprar determinada marca de tênis e distribuir aos jovens da favela. A maioria riu mas essa foi uma legítima expressão da pragmática sabedoria popular. Aquele homem sabia o que mobiliza o imaginário da criminalidade. Sabia o que, pontualmente, poderia aplacar um pouco a violência.

O tal tênis, aliás, é produzido na Ásia também por crianças e adolescentes em condições de escravidão. Questionada, a fábrica diz que lamenta, mas “respeita a cultura de trabalho asiática”. São todos tentáculos de uma mesma cabeça...

Conta-se, sobre esse tênis, que famoso publicitário brasileiro, com veia humorística, resolveu constranger uma jovem jornalista que perguntou-lhe o que havia achado da última campanha publicitária da marca. “Dobre a língua”, disse ele. “Não trate o tênis “X” como apenas um tênis e nada mais!” “Como assim?”, retrucou a jornalista. “Ele é mais que um tênis”, respondeu o publicitário. “É um estilo de vida, é uma filosofia. É, na verdade, uma religião. Saiba que quem não for dessa religião não será salvo!”.

O que emblematiza esse tênis que nós, críticos da religião do mercado, estigmatizamos tanto? Emblematiza todos as coisas que dão identidade ao mundo em que vivemos, identidade artificial que rouba de nós, humanos, o papel de sujeitos de nossa própria história. O recurso à analogia religiosa é plenamente válido. Lamentavelmente, mentimos quando dizemos que vivemos em um mundo cristão, que é o cristianismo a religião dominante em nossa civilização. Vivemos sob a égide do “consumismo”, de seus ritos, crenças, paramentos e catedrais. Como participar dessa religião? Para os meninos e meninas da classe média e alta o ingresso no céu pode ser pegar a mesada, passar no Shopping, comprar, “resolver”, assim, todas as questões existenciais e, por um tempo, parecer feliz. Estarão, dessa forma, vestidos com os paramentos da religião dominante e terão a concessão de entrada para todos os templos do consumo e da diversão. Se a crise existencial, típica da idade, apertar, é porque saiu um produto novo no mercado. O jeito é ir até lá e renovar o paramento. Os meninos crescem e suas necessidades evoluem para carros, casas e viagens. Depois, como todos, eles morrem. Estiveram aqui para comprar e colecionar. Não lembraram de avisa-los que as coleções ficam e eles partem. É um crime contra essas pessoas, que não são menos escravas do que aquelas sem poder aquisitivo.

Os meninos e meninas da favela que possuem bons valores familiares e presença marcante de adultos moralmente conscientes em suas vidas aprendem a resignar-se à frustração da periferia do culto. Alguns, que não possuem esses valores, vão para as cercanias das escolas chiques, matam e morrem se preciso, para usar as vestes sagradas...Precisam delas para entrar nos templos sem serem ridicularizados (ou, em algumas cidades, para não serem enxotados pelos seguranças que cuidam para que no ambiente só haja pessoas “de boa aparência”). Aí a gente diz, escandalizada: ‘Parece que um tênis vale mais do que uma vida!’ Não senhores e senhoras, não parece: vale mesmo. Na lógica perversa que aprendemos do sistema, a vida sem o tal tênis (e todos os outros produtos) não tem sentido. É claro que essa violência estrutural, necessária à dinâmica mesmo de funcionamento do deus mercado, já fugiu há muito do limite último de controle desejado. Ao atingir os filhos da elite, esta reclama da “onda de violência”. Mas não pode fazer nada muito além (além da repressão pontual, por exemplo), sem recusar suas próprias bases de sustentação. São contradições insolúveis diante da desmesurada ganância. É o preço a pagar. Em relação às crianças e adolescentes , aliás, há muitos séculos a lógica econômica, que dá o tom da lógica cultural , é perversa. Até o século XVII, antes do advento da industrialização, crianças e adolescentes não tinham valor nenhum. Filhos, era preciso “fazer muitos para sobrarem alguns”. Não havia, ainda, com as formas de produção agrícola de então, grande carência de mão-de-obra no mercado. Com o advento da Revolução Industrial e o enfoque na produção, crianças e adolescentes passaram a valer como futuras mãos-de-obra, em uma visão protetiva dos mesmos, autoritária, que alcançou os dias dos nossos pais. À partir dos anos 60 e 70 até os nossos dias, com o crescente enfoque não mais na produção de bens palpáveis mas nos serviços (a economia mundial, hoje, não pode mais, facilmente, ser caracterizada como industrial), as crianças e os adolescentes passaram a ser “consumidores” (daí a anomia dos pais e o crescente domínio dos filhos sobre eles- e sobre suas bolsas). Após o abandono do autoritarismo protetivo adulto, vivemos a era do abandono da autoridade diante da necessidade de extensão, às novas gerações, do poder de consumo.

Quero pedir desculpas por esta dissertação tão negativa. Não se pense que, por assim ser, ela seja desesperançada. Trata-se, muito mais, de uma provocação de alerta, para que sejamos menos ingênuos e para que paremos de nos debater rumo ao nada. Conhecer minimamente as dinâmicas do sistema é fundamental para desconstruí-lo. Superar os discursos ingênuos pela paz pode retirar-nos de nossa inocuidade. Para construirmos a paz é doloroso mas forçoso que passemos pela “não paz”, por sua compreensão bem situada à luz de uma consciência crítica, política e moral. Não poderemos construir a paz se continuarmos acreditando que a violência é um fenômeno de geração espontânea, fundado simplesmente na destrutividade e na perversidade inerentes psicologicamente ao ser humano e ao inconsciente coletivo. A violência é um fenômeno estrutural, planejado e necessário para a sobrevivência de um sistema fundado, presidido e mantido pela lógica perversa do crime, da exploração e da exclusão. É por isso que é banalizada. Tendo essa consciência , a gente dá uns 50% dos passos pra começar a resolver, porque identifica as raízes.

Saídas? Não há “receita de bolo”. Há pistas, contudo. Que cada um use da própria sabedoria para construir suas próprias formas e partilha-las com a comunidade.

Além disso, apenas alguns apontamentos:

1º. É fundamental que a sociedade brasileira rume para um efetivo controle social dos meios de comunicação, hoje exclusivamente controlados pela normatização e pela censura do capital. Que nenhum programa de humorismo ouse, novamente, passar uma cena como aquela da senhora gorda sendo retirada das águas de Copacabana, com uma faixa ao fundo onde se escreveu : “Salvem as baleias”. Que isso cause indignação na consciência nacional, que se peça o cumprimento da lei, a assunção do obrigatório caráter educativo, o fechamento da emissora até se regular por padrões de decência e respeito às leis e à cidadania. Isso supõe cultura popular e cultura popular, no caso, passa pela organização de associações de defesa dos direitos dos consumidores da mídia. Estamos longe, infelizmente, mas é preciso apontar a utopia (realizável) para que nos lancemos à sua busca. Pelo fim da lavagem cerebral, que nenhuma emissora possa mais nos fazer de bobos, usando dos “mecanismos hipnóticos” aos quais se referem Bourdieu e Debord, por exemplo (Ver: Debord,Guy, A Sociedade do Espetáculo, Editora Contraponto, Rio de Janeiro, 1997).

Não estou propondo, aqui, a volta da antiga censura ou o Estado assumindo exclusivamente essa tarefa. Estou dizendo que a sociedade tem que assumir o zelo pelo que é oferecido diariamente a seus filhos e filhas;

2º. Precisamos resgatar a busca de utopias. Não me cabe dizer quais as utopias. Talvez elas nem estejam formuladas. É preciso que sejamos criativos. É lamentável aceitarmos passivamente viver em um planeta onde as utopias faliram. Deploro o fato mas creio que se o grande atentado nos EUA pode trazer-nos alguma reflexão de significado devemos aproveita-lo para repensar o sistema, para reconhecer que as coisas, como estão, se tornaram insustentáveis, chegaram a seu limite último. Se não sonharmos mais, nossos jovens também desaprenderão a sonhar, não terão mais provocações construtivas em suas vidas (cabe-nos, como adultos, desafiá-los à dimensão do sonho, da “magia” criativa, dando o exemplo). Precisamos assumir que vivemos tempos existencialmente medíocres de glória tecnológica e ousar uma reflexão permanente de sentido.

3º. O voluntariado é fundamental para o bem-estar da sociedade e a citada pesquisa do professor Putnam comprova que uma característica de todos os povos que deram bem-estar às suas populações é que viveram uma história de profundo engajamento cívico, de trabalho voluntário.

4º Digo, ainda, como conclusão, que precisamos retomar nosso papel de adultos, como desafiadores da formação de consciências morais autônomas. Precisamos ser multiplicadores de consciência, por exemplo, através da paternidade, da maternidade e do magistério. As escolas, nesse campo, têm missão fundamental. Está mais do que na hora de deixarem de ser meras ”transmissoras de conteúdos” (função ridiculamente pretensiosa da qual se arvoraram, acriticamente, com o beneplácito do mercado). É preciso que repensemos as escolas, nos marcos da visão piagetiana ou de outros grandes mestres convergentes, como provocadoras sistêmicas de reflexões e práticas que ajudem a estruturar nas crianças e jovens o chamado “juízo moral autônomo”. Sem isso, toda nossa ciência e tecnologia continuarão desaguando em modelos de desenvolvimento insustentáveis que, a seguir no atual ritmo, nos levarão à ruína e à extinção.

Não quero dizer, com isso, que os conteúdos escolares não sejam importantes. Digo apenas que são veículos para chegarmos a projetos pessoais e sociais sustentáveis, solidários,e libertadores.

Também a família precisa assumir seu papel. Dialogando, perguntando, instigando a consciência de seus filhos, até mesmo tendo a coragem de interferir balisadora e limitadoramente em um mundo descontrolado por ilimitado hedonismo consumista de coisas e pessoas coisificadas.

5º Sou um antigo militante dos direitos humanos. Com vinte e cinco anos de dedicação a essa causa, me sinto insuspeito para propor o que segue: precisamos ousar falar mais em deveres, em um planeta que só fala em direitos (ainda que não os respeite, no caso da maioria). Um jurista disse-me que deveres estão pressupostos nos direitos e basta. Não creio. Vivemos em uma cultura hedonista e não queremos reconhecer limites. Não se respeitam os Direitos Humanos porque não se assumem as responsabilidades dos Deveres Humanos.

Finalmente, quero dizer que precisamos assumir nosso poder como sociedade. Vivemos em um país com mais de 500 anos de história de espera. É grave o fato de, no Brasil, o Estado ter surgido muito antes da Nação. Alguns historiadores dizem que a nação emergiu com face própria apenas no período do Estado Novo. E era uma face horrenda, extremamente autoritária. Assim, vivemos, até hoje, filial e ingenuamente, esperando que o Estado resolva os nossos problemas.

É claro que temos que cobrar do Estado, é claro que temos que pressiona-lo, mas só isso não resolve. Não resolve se não “arregaçarmos as mangas” e não fizermos a nossa parte para que as coisas se transformem. É uma grande injustiça dizer que “cada povo tem o Governo que merece”. Há povos bons, como o brasileiro que, historicamente, não tiveram, de maneira geral, os Governos que mereciam. Permitam-me, contudo, reformar um pouco a frase, e ela assumirá uma grandeza de desafio impulsionador, não paternalista: “Cada povo é responsável pelos Governos que tem”.

Está, há muito, passada a hora de pararmos de esperar e lamentar-nos. 500 anos de insatisfações inócuas não resolveram os problemas do Brasil. Somos um país de cultura poliqueixosa e nela nutrimos nossa alienada sensação de dever cumprido. Nada se transforma por isso. Tal retórica não faz sequer cócegas no sistema, que tem larga prática de como reagir com indiferença. É preciso que, lá onde estamos, assumamos o poder de fazer com qualidade crítica e criativa o nosso trabalho de transformação das consciências.

Há uma singela história, expressão do saber popular, que quero contar para encerrar, ilustrando este último apontamento:

Conta-se que um famoso escritor mexicano, há muitos anos, foi passar suas férias em bela praia da costa mexicana. Costumava acordar todas as madrugadas e caminhar pela areia, em hora que a maré se encontrava muito baixa. Nessas caminhadas, todos os dias, via ao longe um vulto que se agachava, juntava algo na areia e jogava ao mar.

Homem refinado, disse a si mesmo: ‘Estou curioso mas não vou me aproximar, em respeito à privacidade do cidadão.’

Um dia antes de partir, no entanto, a curiosidade venceu. Aproximou-se e encontrou um velho índio mexicano. Magro, roupa rota, frágil. Admirou-se ainda mais, ao pensar no vento frio daquela hora, fustigando o homem de idade avançada.



-“Cidadão, desculpe burlar a sua privacidade. Vou-me embora amanhã e antes gostaria de perguntar-lhe algo. Todas as madrugadas venho fazer minha caminhada e o vejo, ao longe, durante mais ou menos uma hora, abaixar-se, juntar algo na areia e jogar ao mar. O que faz?”

-“É muito simples, Doutor. Nós índios amamos muito a Mãe Terra com tudo o que a compõe. Um dos meus projetos de vida é vir aqui todas as madrugadas para salvar essas lindas estrelas-do-mar que estão morrendo encalhadas. Olhe em volta! Veja que maravilhosas!”

O escritor não contém uma gargalhada.

- “Meu velho, desculpe rir do senhor. Creio que é um homem de bom coração mas muito ingênuo. Chama isso de projeto de vida? É perda de tempo! Por sua pobreza, desculpe dizer, imagino que nunca tenha saído desta praia. Eu, no entanto, conheço praticamente toda a costa mexicana e quero contar-lhe algo lamentável: nesta mesma hora, há dezenas de praias parecidas com esta, onde milhares de estrelas-do-mar morrem sem que possamos fazer nada. Vá para casa, proteger a sua saúde e guardar, assim, a sua velhice. O que o senhor está fazendo não vai adiantar nada!”

O velho índio se agacha, junta uma estrela mais na areia, joga-a ao mar e aponta para ela com a mão enrugada.

- “Viu aquela que eu joguei?”

- “Vi, e daí?”

- “O senhor disse que não vai adiantar nada devolve-las ao mar, que há muitas delas morrendo. Só sei de uma coisa: para aquela que acabei de jogar vai fazer toda a diferença!”



Dizem-não sei se é verdade- que no dia seguinte havia duas pessoas catando estrelas.



As nossas estrelas-do-mar são as pessoas que convivem conosco, os nossos familiares, os nossos filhos e filhas, nossas esposas, nossos maridos, as crianças da nossa escola, as pessoas da nossa ONG, aqueles a quem nós atendemos, aqueles a quem nós tentamos beneficiar de alguma maneira. Salvar essas estrelas, não solitariamente, mas junto a elas, é a mais bela missão para dar sentido às nossas vidas.

Talvez não mude tudo do dia para a noite, mas ao longo do tempo, com certeza, com o afinco que tivermos, com a vontade que cultivarmos, com a paixão que manifestarmos, esse mundo que ocupamos será um pouco diferente por nossa causa.

Há uma velha sabedoria oriental que diz: “é melhor acender uma vela do que maldizer a escuridão”.

Brilhemos. A chama somos nós.


Ricardo B. Balestreri .


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