terça-feira, 9 de novembro de 2010

Emanoel Araújo: "Nós somos a República do fracasso"

Claudio Leal

Em 15 de novembro, um dos principais artistas plásticos e curadores de arte do Brasil, Emanoel Araújo, completará 70 anos. A poucos dias dessa data cívica e pessoal, o diretor do Museu Afro-Brasil proclama uma outra república, turvada por desencantos: "Nós somos a República do fracasso".

Renovador da Pinacoteca do Estado de São Paulo, a qual se encontrava depredada no início da década de 90, e ex-secretário de Cultura na gestão municipal de José Serra (PSDB), Emanoel se considera "inquieto, não-conformista e indignado". Conhecido pela habilidade viperina de polemista, ele anuncia, nesta entrevista a Terra Magazine, o agravamento de seu ceticismo.

- O Brasil é um terror, um horror. Você chega aos 70 anos constatando que existe uma camada, uma cenografia, uma vestimenta falsa. As cidades incharam, ficaram mais pobres, toda a geração que foi responsável pelas mudanças também desapareceu. Isso que é trágico - diz o artista baiano, nascido em 1940 na cidade de Santo Amaro da Purificação.

O debate sobre o negro na sociedade brasileira lhe atiça o verbo e faz decolar uma série de perguntas sobre o retrocesso do País na questão racial.

- A televisão ainda acha que o lugar do negro é na cozinha ou como serviçal. O exemplo da TV e do cinema americanos não chega até aqui. Imagine se Denzel Washington, por exemplo, fosse brasileiro, qual o lugar que lhe caberia na televisão? Ou se Spike Lee fosse um cineasta brasileiro, o que ele faria?

À frente da Pinacoteca de São Paulo, Emanoel Araújo enfrentou os muxoxos de parte da comunidade artística e universitária, que se recolheu depois do sucesso de sua administração. Segundo conta, houve pedidos de cabeça por ser um "neguinho baiano". O movimento negro se mobilizou em sua defesa.

- Absolutamente racista. Quando eu fui nomeado por Adilson Monteiro Alves, o jornal Estado de S. Paulo publicou: "Foi nomeado diretor da Pinacoteca Emanoel Alves (sic), em lugar da professora e doutora Maria Alice Milliet". Eu vivia em São Paulo tinha muito tempo, mas era como se eu estivesse chegando naquele momento. Muita gente chegou na Pinacoteca e me disse: "Mas, como um baiano vai dirigir a Pinacoteca?".

Com desalento, há uma conclusão:

- Todo sujeito que pensa a modernidade e o avanço é ceifado no Brasil. Porque o Brasil tem que significar o fracasso. Isso é o que importa. Nós somos a República do fracasso. Não adianta. Não sei de onde vem essa lógica perversa.

O curador ataca a ditadura da "arte contemporânea", cuja epidemia tem desvirtuado alguns dos mais importantes museus brasileiros, como o Masp e a Pinacoteca. A leitura dos jornais amplia seu descontentamento.

- Outro dia mesmo, o jornal Estado de S. Paulo publicou o curador Ivo Mesquita de corpo inteiro, saindo da maquete da Pinacoteca do Estado, segundo idealizada pela Unicamp, com braços cruzados e seu sorriso de pura zombaria. Alguém disse alguma coisa? Não acredito que essa seja a postura para um curador de uma instituição dita centenária de São Paulo.

No dia da eleição presidencial, 31 de outubro, Emanoel acordou com três assaltantes em sua casa, no bairro da Bela Vista. "Se acontecesse isso há vinte anos ou dez anos atrás, você tira de letra, né?", lamenta, algo fragilizado. Mas, ao recobrar o bom humor, ele sorri do infortúnio: "Deve mesmo ser um presente do inferno astral."

Confira o bate-papo.

Terra Magazine - Você está completando 70 anos. O que mudou em sua rotina, em sua vida?
Emanoel Araújo - Eu acho que 70 anos é um horror. Não esperava chegar a essa idade. Estou vivendo mais do que meu pai e mais do que minha mãe. Tenho uma visão cética do mundo e, muito mais ainda, dos 70 anos. É espantoso a gente se ver, é espantoso a gente constatar a velhice, que é driblada com esse negócio de "melhor idade", "terceira idade", etc. etc.

Os eufemismos.
É, esses eufemismos todos que só servem para ser mais um elemento de preconceito. Pra mim, chegar a essa idade é um horror (risos). Um absurdo. Eu detesto a ideia de 70 anos. Detesto por muitas razões. Primeiro, porque todas as coisas ganham uma importância e uma severidade. Todos te olham como um velho. No Brasil, os 70 anos de alguém não chegam a ser uma glorificação. Pelo contrário, você está mais feio, mais fragilizado, mais solitário e, sobretudo, mais impaciente.

O trabalho no Museu Afro-Brasil lhe ajuda a lidar com isso?
Acho mesmo que, aos 70 anos, o que sobra é uma memória dos bons momentos da vida e dos muitos amigos que se foram, além do trabalho que a gente pensa que resta fazer. O Museu Afro-Brasil, em muitos aspectos, tem uma imensa relevância para a história afro-brasileira. Por isso, ele será sempre uma fonte de inspiração e transpiração, por todos os tentáculos a serem criados para sua reinvenção brasileira, portuguesa e africana.

Pra não cair num ceticismo completo?
Exatamente. Isso em relação a mim mesmo. Em relação ao País em que a gente vive, tenho uma visão muito ruim. Por mais que a gente tenha uma vontade de ser brasileiro, e isto é a coisa mais importante que tem - "ser brasileiro", essa coisa que ecoa na memória, essa vontade moral e cívica -, o Brasil é um terror, um horror. Você chega aos 70 anos constatando que existe uma camada, uma cenografia, uma vestimenta falsa. As cidades incharam, ficaram mais pobres, toda a geração que foi responsável pelas mudanças também desapareceu. Isso que é trágico. O que resta é sempre uma coisa que não mais interessa.

Você sente falta de ter com quem fazer trocas culturais?
As trocas foram e serão sempre um motivo a mais de se tornar vivo, muito embora sente-se hoje a grande dificuldade desses encontros. Acho que viver numa grande cidade está se tornando tão difícil, quase impossível mesmo, e que cada pessoa procura um casulo para se esconder. Não sei como, um elo de amizade que existia nessa cidade (São Paulo) desapareceu. Não há encontros, por mais que se procure. Resta mesmo é o desencontro.

Uma das boas coisas do Museu Afro-Brasil é que ele sempre provoca encontros, seja porque ele é mesmo um espaço instigante, seja porque a história ali contada significa um grande halo que percorre muitos lugares, vidas e histórias da África, da América, da Europa e também do Brasil. Afinal, onde houve essa instituição desgraçada da escravidão os fatos se relacionam. Haverá sempre uma troca permanente da vida de muitas pessoas.

Para mim, que tenho uma vivência muito grande, até parece que nasci no século 19 e não nos anos 40. Saí de uma cidade pequena do Recôncavo da Bahia (Santo Amaro) para Salvador, sobrevivi ali e fui pro Rio, São Paulo, até morei nos Estados Unidos, como "cuny distinguished visiting professor of art", na cidade de Nova Iorque. Conheci muita gente interessante e foram tempos extraordinários. Há aqui uma ideia nostálgica do mundo, um olhar sempre voltado para fora, como se a solução de muitos dos nossos problemas estivessem do outro lado do Atlântico. Ainda se sente uma angústia de não se estar incluído num certo patamar de desenvolvimento social e cultural. Por isso, rever a nossa história, a nossa vida mesmo, com todos os percalços, ela é ainda a mais verdadeira. Chegar aos 70 é constatar tudo isso.

Agora, você tem um desencanto?
De uma certa forma, sim. Um certo desencanto, que vem também de a gente não ter podido fazer da nossa história uma verdade. A verdade é que o Brasil não nos deu de volta o que nós merecemos: um certo respeito, de estar certo no mundo. Quando eu digo "certo", me refiro às muitas conquistas não-resolvidas, uma falta de lealdade com a nossa história, com as nossas instituições, com a nossa educação, com a nossa memória, cada vez mais reduzida a factóides. Eu amaria ser um cidadão brasileiro, no que esta palavra encerra e respeita.

É sua preocupação constante, a memória?
Uma vez, quando morava em Nova Iorque, assisti um programa sobre a cantora Jessye Norman. Os fatos da sua vida começavam desde o seu nascimento, sua infância, sua adolescência, etc. etc. Aí pensei profundamente nessa questão da memória e o quanto isto significa para a história da cidadania de cada pessoa. Isso, de uma certa forma, fortaleceu a idéia da criação do Museu Afro-Brasil. Aliás, antes mesmo disso, eu já pensava na memória como fato de registro da contribuição de cada pessoa e de como esta contribuição poderia se tornar um espelho para a auto-estima de outras pessoas que necessitassem se ver e se inspirar com exemplos importantes de personagens da nossa história.

A que você atribui a fragilidade das instituições, do Estado, em relação a esses temas?
É evidente que cada dia mais as instituições culturais sofrem por causa do despreparo delas próprias, até por falta de políticas públicas que possam fortalecê-las, que possam acreditar que só através delas podem mudar o projeto de estagnação. Aliás, esse é um projeto que deveria envolver mais a iniciativa privada e um certo compromisso da sociedade civil como um todo. Os ricos tinham que ser mais generosos e mais conscientes de que uma sociedade se fortalece com educação, com muita educação, com escolas públicas, com bolsas de estudos, para aparelhar melhor cada pessoa, cada cidadão. Nesse ponto, os museus também são instituições que necessitam de políticas que os possibilitem a trabalhar com projetos especiais de educação, pensando em unir o passado ao presente e o presente ao futuro para formar melhor seus cidadãos.

Quando eu vivi nos Estados Unidos, vivia também Gabriel García Márquez, no mesmo programa da City University, como professor-convidado. Isso quer dizer que a universidade americana é mesmo um campo aberto de conhecimento, venha ele de onde vier. E aí é que lamentamos que a universidade pública no Brasil se fecha com seus doutores dogmáticos, sem sequer pensar na abrangência do conhecimento. Aí é que a gente se dá conta que a Argentina, a Colômbia e agora o Peru ostentam seus prêmios Nobel. E nós?

E a literatura brasileira?
Esvaziada. E tinha uma das melhores literaturas do mundo. Vinicius de Moraes dizia que Brasil e Portugal eram povos que faziam a poesia certa. Isso valeria para dizer também o quanto a nossa literatura revelou nomes como Graciliano, Guimarães Rosa, Jorge Amado e muitos outros autores, sem que se possa esquecer o grande e o maior de todos que foi Machado de Assis. Não se cultivou no Brasil uma auto-estima a essas pessoas (escritores e artistas), à criação de um modo geral. São poucos os recursos destinados à criação. Faltam prêmios, grants que estimulem autores, artistas, arquitetos, todo o ramo de atividade que deveria mudar a cara do País. Isso porque só se chega a algum lugar nesse mundo através da cultura. E isso não é nada novo, todo mundo sabe o quanto que a cultura e a educação podem mudar a face de uma Nação.

Me de lembro de lhe ouvir falar que o Brasil vai resolver o preconceito contra a mulher, contra os gays, mas o preconceito contra o negro vai perdurar. Por quê?
Tem aí a questão do ministério da Educação, com Monteiro Lobato, porque ele fala que a (Tia) Nastácia era uma "negra beiçuda" (em "Caçadas de Pedrinho", que teve a distribuição restringida pelo Conselho Nacional de Educação). É isso. O ponto de vista do Monteiro Lobato é um resquício da escravidão. Era possível pegar a pessoa escrava e fazer dela o que quisesse. Mantinha amarrada, amordaçada, marcada com ferro quente, posta no pelourinho, morta por chibatadas. Aliás, foi João Cândido que acabou com a chibata nos marujos da Marinha brasileira. E isso em 1910.

Agora, não é só o Monteiro Lobato que abusa desse direito. Em um certo sentido, é a sociedade brasileira inteira. A televisão ainda acha que o lugar do negro é na cozinha ou como serviçal. O exemplo da TV e do cinema americanos não chega até aqui. Imagine se Denzel Washington, por exemplo, fosse brasileiro, qual o lugar que lhe caberia na televisão? Ou se Spike Lee fosse um cineasta brasileiro, o que ele faria? Aliás, a imprensa brasileira sente-se até hoje incomodada com Obama como presidente. Há uma evidente preocupação com a sua vida política, que é um problema dele.

Qual é o lugar do negro no Brasil?
Ainda não existe esse lugar. Não importa o que o negro africano ou afro-brasileiro contribuiu para a formação da nossa nacionalidade. Pense na importância dos negros. Machado de Assis, Pelé, Lima Barreto, Aleijadinho... São todos negros! E onde estão os negros no Brasil? Aí você pensa: e Juliano Moreira, o primeiro psiquiatra brasileiro? E Teodoro Sampaio, que planejou o que de esgoto existe nesta cidade (São Paulo), que fez o levantamento geológico do Paranapanema e que escreveu tantos livros sobre a história paulista? No século 19 inteiro, em plena vigência da escravidão, você tinha sujeitos saindo dessa instituição miserável que foi a escravidão, como Paula Brito, o primeiro editor brasileiro, André Rebouças (engenheiro), o poeta Cruz e Souza. É um retrocesso, cara. É um retrocesso de tudo: de atitude, de invenção, de inventividade, de criação. É lastimável que ainda, no século 21, se use todos os jargões preconceituosos contra o negro, não só na vida pública como nos meios de comunicação. Meus 70 anos não são pra se comemorar. Sinto muito, mas é pra chorar, sobretudo eu, depois de um assalto de três sujeitos em minha casa, no dia 31 de outubro, no dia da eleição para presidente da República.

O que houve?
Três sujeitos, no meio da noite, e sei lá... Se acontecesse isso há vinte anos ou dez anos atrás, você tira de letra, né? Mas quando você chega aos seus 70 anos e encontra esse presente! (risos)

É seu inferno astral?
É, acredito que seja. A gente nunca pensa que um dia esse tipo de infortúnio chega até a sua casa. Deve mesmo ser um presente do inferno astral. (risos) É muito grave. Isto é a prova que os tempos estão mudando, vertiginosamente. Cada vez mais, as grandes cidades são criadoras dos grandes absurdos e de muita aflição. Não basta que você cumpra as suas obrigações de cidadão, porque a recíproca nunca é verdadeira. Acho que tenho mesmo muito a lamentar, do tempo perdido e de pouca crença de vislumbrar o fundo do túnel, uma saída. Talvez eu esteja mesmo ficando velho, apesar de continuar um inveterado trabalhador quase braçal. A resposta, bem, a resposta não sei de onde virá.

O brasileiro é passivo, falta indignação moral?
Falta, sim. Eu sou, por natureza, um inquieto, não-conformista e indignado. Agora mesmo, vimos na França a indignação do povo francês apenasmente pelo Estado ter acrescentado dois anos na aposentadoria. Talvez, a nossa falta de indignação venha, de fato, da falta de cidadãos que possam cobrar com veemência o que lhes é negado.

O catolicismo contribuiu para esse atraso?
Também. As atrocidades cometidas na colonização e desculpadas pela Igreja e até justificadas na retórica do padre Antonio Vieira, quando ele dizia que o escravo era como Jesus, deveria sofrer neste mundo para estar livre ao lado do Senhor. Mais ou menos isso. Há um faz-de-conta que pega todo mundo. A própria Igreja se incumbe desse faz-de-conta, dessa situação hipócrita e de discussões vazias, sem significados. Assistimos agora essa enxurrada de igrejas que pregam o Céu como destino de pobres coitados. Tudo isso porque este é um país laico.

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