quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A dignidade como princípio




O último ano do Governo Lula vai marcar para sempre os negros que pelas suas posições equivocadas que hoje têm, com certeza não vão fazê-los exemplos de dignidade a ser seguidos pelos jovens negros do futuro.


Os negros - e negras também - aqui destacados, em principio são filiados do PT - Partido dos Trabalhadores e mais os dos partidos que estão na base do Governo.

Nos meses que antecederam a eleição de Dilma Roussef presidenta da República, tudo foi feito por esses negros para ter audiência com ela. Vários encontros foram marcados, ela não compareceu em nenhum. Depois da eleição, esse correr atrás da presidenta eleita continuou sem sucesso apesar dos esforços de Cida Abreu, da Secretaria de Combate ao Racismo do Partido dos Trabalhadores, que muito se empenhou para o êxito da empreitada.

Um manifesto em apoio a então candidata Dilma Roussef dias antes da sua eleição a presidenta da República, assinado por filiados do MNU foi lançado, mas, ao que se sabe nenhuma nota de agradecimento Marcelo Dias (MNU-RJ), autor desta idéia original, recebeu do comitê de campanha da candidata. Esse adesismo de última hora parece que não sensibilizou Dilma Roussef.

O último "correr atrás da Dilma" aconteceu por ocasião do 20 de novembro, no ato público em homenagem a Zumbi dos Palmares e João Cândido, na Praça XV, na cidade do Rio de Janeiro, onde "o palco" foi montado para receber o Presidente Lula e a Senhora Dilma Roussef. Acreditavam os ingênuos negros partidários no comparecimento de ambos.

Como era de se esperar, mais uma vez o encontro Dilma e os negros partidários não aconteceu. A presidenta Dilma não compareceu e ao que se sabe, nenhuma satisfação apresentou e assim negros ficaram literalmente a ver navios navegando na Baia da Guanabara. Não muito frustrante com certeza para Edson França e Manoel Julião (UNEGRO-SP) ou Celinha (CONEN-BH) que vieram de capitais não banhadas pelo mar.

O outro "convidado", o Presidente Lula esteve no Rio de Janeiro, porém, aconselhado pelo Governador Sergio Cabral - que também deveria estar no ato - acabou por escolher o encontro com o ex-candidato a senador, o senhor Picciani, que anos atrás esteve sob acusação de manter trabalho escravo na fazenda de sua propriedade, acusação esta feita pelo procurador do Trabalho, Wilson Prudente, filiado do PT.

O pouco caso como a Dilma vem tratando essa militância negra partidária em particular do PT provocou em alguns deles a vontade de exigir da direção do PT respeito a militância negra do partido. Esta exigência na verdade é um grande disparate na medida que não é a direção do PT que falta com respeito a militância, mas sim, a militância com esse "correr atrás da Dilma" que não se faz respeitar. Não respeitam a si mesmo.

Os heróis negros, Zumbi e João Cândido, cuja homenagem a ambos esta militância se valeu para forçar um encontro com a Presidenta Dilma Roussef, tinha que ser exemplo de dignidade para toda ela.

Zumbi não aceitou o acordo expúrio firmado entre Ganga Zumba e o Governador de Pernambuco que estabelecia a entrega as autoridades ou a fazendeiros, escravos fugitivos que procurassem abrigo em Cucau, terra que lhes reservara o governo.

João Cândido, pelo seu lado, recusou o convite do Senador Pinheiro Machado para entrar para a Polícia por entender que a luta na qual foi líder contra o castigo da chibata aplicada aos marinheiros seus irmãos de farda e negros como ele, era tratada com pouco caso por aquela figura sinistra da República velha, conhecida como "eminência parda".

A consciência de João Cândido com toda certeza não aceitava ser repressor de seus irmãos negros, os menos favorecidos naquela sociedade discriminatória do início do século passado. Porém, sem demonstrar sua indignação ao Senador, vai ser vendedor de peixe no mercado da Praça XV.

Ao preferir ter remuneração eventual como vendendo de peixe do que ser polícia com salário mensal regular, João Cândido não usou sua condição aflitante de um sem emprego para aceitar ser um repressor em potencial e alegar depois que o emprego de polícia foi o máximo que conseguiu para resolver o seu problema de desempregado.

Como pode-se observar Zumbi e João Cândido tinham a dignidade como principio e é assim que agem as pessoas honradas, nunca abandonam os seus princípios.

Na praça XV enquanto aguardavam a chegada de Dilma Roussef - que jamais chegou - olhando os navios passar ao largo, aquela militância partidária deveria refletir sobre as atitudes dignas que tiveram Zumbi e João Cândido e que, portanto eram lembrados pela História e que por conseguinte, a militância estava naquele ato para reverenciá-los.

Mas esta militância - está provado - é incapaz de refletir e em razão desta sua deficiência recusa entender (ou não quer entender) que a Presidenta Dilma Roussef não tem interesse algum em manter diálogo porque não há nada que com esta militância tenha para dialogar.

A verdade é, sem que esses militantes negros partidários percebam - e a sua percepção está totalmente deformada - a elite branca de esquerda começa a se desfazer deles por não terem, esses militantes, mais nenhuma serventia para ela.

O programa Brasil Sem Racismo elaborado pelos negros do PT (negros da CONEN é bom lembrar) para o Governo Lula no seu primeiro período foi atendido integralmente e a CONEN, na Audiência com o Presidente Lula, em 2009, confirmou como positivo o Governo Lula em relação ao Programa proposto.

A SEPPIR é a secretaria que pediram. Assim como as duas conferências de igualdade racial que foram realizadas com recursos financeiro do governo e ainda, o pedido para o ano de 2005 como o Ano da Igualdade Racial foi atendido com decreto do Governo. Agora se nenhuma igualdade racial aconteceu naquele ano e muito menos nos anos seguinte a culpa não é do Governo Lula. Por fim, o Estatuto de Igualdade Racial - tão desejado por esta militância partidária - foi promulgado pelo Presidente Lula e festejado por ela.

Como pode-se observar está militância não tem nenhuma reivindicação a fazer a Presidenta Dilma Roussef. O estatuto elogiado por todos eles com frases como a de Edson França (UNEGRO) que "a decisão (aprovação do Estatuto) reafirma a vanguarda (?) do Brasil no ordenamento jurídico para a promoção de igualdade racial". Ou então a do Senador Paulo Paim de que "a aprovação do Estatuto (na Câmara Federal) foi um grande avanço", faz entender a todos que esta "Carta Magna" como uma Constituição Federal para negros, com as "benesses" nela prevista, os negros (e negras também) estão todos amplamente contemplados nos direitos que sempre almejaram.

O difícil nisto tudo é saber porque a negrada faz tanto esforço para a Presidenta Dilma se reunir com ela.

Acaso o que querem é apenas - num ato de gratidão ao Presidente Lula - consagrar a Presidenta Dilma, a nova redentora, a exemplo da Princesa Isabel, com direito a beijar mão?

Afinal será no Governo Dilma que o Estatuto da Igualdade Racial, a "nova Lei Áurea", segundo esta militância, vai ser aplicado integralmente em benefício de todos os negros e negras.

É preciso não esquecer que: A dignidade é lei para negros/negras dignos. Para nós outros também, além de termos a dignidade como princípio.

20 de novembro 2010




Yedo Ferreira
Militante e dirigente do Movimento Negro Unificado (MNU)

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