quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O Complexo do Alemão é Pop


Eu estava filmando na Inglaterra por 30 dias quando eclodiram os acontecimentos no Rio de Janeiro, em novembro de 2010. Durante este período, me desliguei totalmente dos assuntos que envolviam o Brasil. Ao retornar, pouco mais de uma semana da ocorrência dos fatos, peguei um taxi no Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim (Galeão), rumo ao Centro da Cidade. Adentrando o veículo, fui surpreendido com o taxista colocando a dificuldade de chegarmos rápido ao meu destino. Segundo ele, ocorriam ataques terroristas na cidade!
Por alguns minutos pensei que não tivesse saído de Londres. A posição do volante e as cores do taxi, entretanto, me confirmavam que se tratava da minha cidade. Continuou a dúvida: Ataques terroristas no Rio de Janeiro? Uma grande surpresa, afinal, Lula mantém boas relações com Armadinejad e com todo mundo Árabe. Milhares de coisas passaram pela minha cabeça em instantes, até tomar coragem para perguntar ao taxista quem eram os autores dos tais ataques. Ele disse que os terroristas eram supostos traficantes que estavam queimando tudo que viam pela frente. Foram duas horas longas a caminho de casa.
Preso ao banco do taxi, pude assistir uma TV improvisada. Sintonizada num programa ao vivo, no canto inferior da tela, uma legenda: “Guerra no Rio de Janeiro”. Eu também assistia pela janela do carro, tanques da marinha e inúmeras viaturas militares e policiais; podia inclinar o pescoço para cima e ver as manobras dos helicópteros rasgando o céu da Leopoldina e seus bairros vizinhos. Não demorou para entender que o local em conflito era o Complexo do Alemão, comunidade da minha memória de infância, adolescência e parte da juventude formada durante os 22 anos que vivi em Inhaúma.

A lembrança do vai e vem dos trens da Leopoldina, das rodas de samba do Cacique de Ramos, dos bailes no Clube Nova América, dos ensaios de quadra da Imperatriz Leopoldinense, dos festivais de balão na pedreira do Complexo, das compras de roupa de Natal nas confecções da Grota, da feira Livre e das partidas de futebol nos campos da Fazendinha, dos campeonatos de bulica no loteamento da Castrol e os inesquecíveis tempos de pipa traçando as nuvens, hoje dos
helicópteros. Nem tudo eram flores naquela época. As mulheres subiam o morro com sacolas de compra do antigo supermercado Rainha, meus avós enfrentavam a famosa fila da carne dos anos 80 – só para comprar 1kg de acém e fazer o tradicional macarrão com carne assada de domingo. Lembro da minha mãe dormindo nas imensas filas do PAM de Del Castilho atrás de disputadas senhas para consultas, lembro de políticos comprando votos em troca de jogos de camisa para os times de futebol do Everest Futebol Clube, lembro também que tínhamos um dos piores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) da cidade.
Passadas duas horas, saltei do taxi, já na porta de casa, e liguei para os meus familiares no Complexo do Alemão a fim de saber como estavam as coisas por lá. Responderam-me assustados sem dar muitos detalhes, diziam apenas que tinha muita correria no morro. Segui preocupado com a televisão ligada, comunicando por horas o passo a passo da invasão do Complexo. Fiquei preso aos tais raios-gama paralisantes do aparelho que os especialistas tanto falam.

Lembrei da invasão dos EUA ao Iraque e viajei acreditando que durante os 30 dias em que estive fora o Murdoch, dono da FOX, havia comprado as emissoras de TV do Brasil. Ou pior, poderíamos estar diante de um caso sobrenatural. O espírito de William Randolph, jornalista americano que inspirou Murdoch, poderia estar rondando os canais de televisão brasileiros com suas idéias “terroristas” de uma imprensa que só defende seus próprios pontos de vista. É óbvio que não se tratava nem de uma coisa, nem de outra. A grande imprensa brasileira, assim como
a FOX, tem um compromisso com seu lucro e seus ideais! Foi assim que foram muito bem sucedidos na manutenção da ditadura militar no poder por 20 anos. É assim também que conseguem, até os dias de hoje, associar a imagem do negro ao perigo de uma maneira muito eficiente. Com este histórico é difícil acreditar em uma hipótese que não seja as cifras que este suposto conflito, onde só morreram civis, pode gerar.
Quando saí às ruas, depois de uma clausura por conta dos raios-gama paralisantes da TV, vi que o povo estava ao lado das emissoras de televisão e do governo, pregando morte aos “varejistas do tráfico” e a quem entrasse na frente da “missão de paz” do Estado. Estavam todos parados na frente da televisão: adolescentes, adultos, crianças, idosos e jovens; todos assistiam a invasão do Complexo do Alemão como se fosse a seleção brasileira em jogos de Copa do Mundo.
Continuei minha caminhada pelo Centro da Cidade e percebi que havia um grande evento cultural acontecendo chamado “Brasilidade”. Dentro do evento tinha um espaço de destaque para uma exposição fotográfica sobre Darcy Ribeiro. Isso me fez lembrar um comício de Leonel Brizola com Darcy em 1989 na Praça de Inhaúma, um dos acessos ao Complexo do Alemão.
Mais adiante, fui interrompido por uma matéria gigante em um jornal de grande circulação preso a uma banca de jornal. Dizia o pasquim que um apresentador famoso de televisão tinha organizado as gravações de seus próximos programas para ocorrerem direto do Complexo do Alemão. Pensei: “’Tá tudo dominado!” O Complexo é Pop.
A combinação explosiva de milhões de votos daquela comunidade, com os milhões de reais que podem render aos meios de comunicação, empreiteiras e empresas de todos os ramos, fizeram do sofrido Complexo do Alemão um Oasis a ser explorado com cerca de 500 mil consumidores e 280 mil eleitores. Esta euforia popular é capaz de excluir para sempre da pauta de discussões da segurança pública a possibilidade de que algum dia se acredite neste estado que os “traficantes
varejista descamisados” dos morros e favelas cariocas, membros do crime desorganizado, não são os grandes comerciantes de drogas e armas deste país.
Em seguida, me deparo com outra foto de Darcy, parte da exposição presa a um poste de luz. Não sei porque me veio subitamente à cabeça este pensamento: “Fracassei em tudo o que tentei na vida: tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”
Neste triste episódio em que vive a cidade do Rio de Janeiro, nos resta torcer para a inversão da lógica do sucesso vigente, sonhando com um mundo onde a vida humana seja a prioridade independente de código postal ou cor de pele.


Luis Carlos Nascimento
Cineasta e Fundador da Escola Audiovisual Cinema Nosso

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