sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Os pecados do Haiti, por Eduardo Galeano

A democracia haitiana nasceu há muito pouco. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e enferma não recebeu nada, além de bofetadas. Estava ainda recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de terem colocado e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos impuseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que havia tido a louca aspiração de querer um país menos injusto.

O voto e o veto
Para apagar as nódoas da participação norte-americana na ditadura carniceira do general Cedras, os infantes da marinha levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para retomar o governo, mas o proibiram de exercer o poder. Seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, porém mais poder que Préval tem qualquer burocrata de quarta categoria do Fundo Monetário Internacional ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha sequer eleito com um voto apenas.
Mais que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum de seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, instrução aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou o contradizem ordenando-lhe: "Faça a lição!" E como o governo haitiano nunca aprende que deve desmantelar os poucos serviços públicos que ainda permanecem, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores acabam sempre por reprová-lo.

O álibi demográfico
No final do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Assim que chegaram, a miséria do povo os atingiu frontalmente. Então o embaixador da Alemanha lhes explicou, em Porto Príncipe, qual o problema: "Este é um país demasiadamente povoado" disseram. "A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode". E riu. Os deputados se calaram.
Essa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou as cifras. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, tanto quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado. Em sua passagem pelo Haiti, o deputado Wolf não foi atingido apenas pela miséria: também ficou deslumbrado pela capacidade de expressar a beleza por parte dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado… de artistas. Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até alguns anos, as potências ocidentais falaram bem mais claramente.

A tradição racista
Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando alcançaram seus dois objetivos: cobrar as dívidas do City Bank e revogar o artigo constitucional que proibia a venda de terras aos estrangeiros. Robert Lansing, então secretário de Estado, justificou a prolongada e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de se governar por si mesma, que possui "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis pela invasão, William Philips, havia elaborado anteriormente a sagaz idéia: "Esse é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que tinham deixado os franceses".
O Haiti havia sido a pérola da corona, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com força de trabalho escrava. No espírito das leis, Montesquieu o havia explicado sem travas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se não trabalhassem os escravos para sua produção. Esses escravos são negros desde os pés até a cabeça e têm o nariz tão esmagado que é quase impossível ter deles alguma pena. Resulta impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma e, sobretudo, uma alma boa num corpo inteiramente negro".
Em troca, Deus havia colocado um chicote na mão do feitor. Os escravos não se distinguiam por sua vontade de trabalho. Os negros eram escravos por natureza e vadios também por natureza; e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir ao amo e o amo devia castigar o escravo que não mostrasse entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino.
Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, desocupado, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável
Em 1803, os negros do Haiti ocasionaram uma tremenda derrota às tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa não perdoou jamais essa humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes sua própria independência, porém conservava ainda meio milhão de escravos trabalhando nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era senhor de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.
A bandeira dos livres se içou sobre as ruínas. A terra haitiana havia sido devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França. Uma terça parte da população havia caído em combate. Então, começou o bloqueio. A nação recém-nascida foi condenada à solidão. Ninguém comprava dela, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

O delito da dignidade
Nem mesmo Simon Bolívar, que soube ser tão valente, teve a coragem de assinar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar poderia ter reiniciado sua luta pela independência americana, quando já havia derrotado a Espanha, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano lhe havia entregado sete navios, muitas armas e soldados, com a única condição que Bolívar libertasse os escravos, uma idéia que ao Libertador não lhe passava pela cabeça. Bolívar cumpriu com esse compromisso, porém depois de sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvado. E quando convocou as nações americanas para a reunião do Panamá, não convidou o Haiti, mas sim a Inglaterra.
Os Estados Unidos reconheceram o Haiti depois de sessenta anos do final da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque possuem pouca distância entre o umbigo e o pênis.
Naquele instante, o Haiti já estava nas mãos de carniceiras ditaduras militares, que destinavam os famélicos recursos do país para pagar a dívida com a ex-metrópole: a Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França una indenização gigantesca, como modo de ver-se perdoado por ter cometido o delito da dignidade.
A história do assédio contra o Haiti, que em nossos dias tem dimensões de tragédia, é também una história do racismo na civilização ocidental.

Mais um papelão da Seppir

É aquela velha história, ano novo, vida nova e resoluções para o ano entrante. Entre elas ficar mais light, brigar menos, cultivar a paz e ser menos ranheta. Até por conta da saúde. Porque o médico mandou. Porque os amigos pedem, porque a família exige. Aí me vem a Seppir e me faz um papelão desses. E eu, quietinho que estou, não me aguento e tenho que falar algo, senão passo mal.
Dirão que são subordinados, que devem obedecer. Aí terei que lembrar da frase de Marina Silva: "Perco o pescoço, mas não perco o juízo". E assim saiu do governo pela mesma porta em que entrou: a da frente, de cabeça erguida.
Tem aquela velha frase, né: "Quem muito se abaixa o #% aparece". No caso em questão a vergonha de se abaixar nos atinge a todos e todas. Coragem tem Makota Valdina de dizer o que disse: "Está na hora de irmos para o campo político e de educar os nossos para saber quem vamos eleger", insistiu Valdina, sob aplausos. "A gente viu o que aconteceu com o Estatuto da Igualdade Racial e o que está acontecendo com esse plano. Por que para negro e índio não tem terra? Precisamos acabar com esse vírus do racismo." (Da Matéria do Estadão)
Makota Valdina é pequenininha e é um mulherão. Cresce nas discussões. Nos honra! Nos dá coragem e força e diz em poucas palavras o que precisa ser dito. Me honra conhecê-la, me honra tê-la em meu coração já tão grande. Me orgulha tê-la como parceira e membro do CEN. A verdade é o que diz Makota. Tá na hora de parar de votar nessa gente.
Dizem por aí que Dilma quer conversar conosco. Mas é Dilma e seu chefe, o senhor Luiz Ignácio, que se sentaram nos mais de cem processos de investigação que existem dentro da Polícia Federal contra o senhor Bispo Macedo. Dilma quer conversar conosco mas faz grandes acordos com os veículos de comunicação que se calam sobre os processos abertos pelo governo americano contra o senhor Bispo Macedo. Dilma quer conversar conosco mas não dá uma palavra sobre os casos de intolerância absurdos que ocorrem cotidianamente. Aí pergunto eu, conversar o que? Para que? Para nos dizer que apóia nossa luta? Dilma não nos apóia.
O pragmatismo petista que levou a eleição de Lula e que permeia o recuo covarde e indecoroso da Seppir no Plano Nacional de Combate à Intolerância Religiosa é tão vergonhoso que não dá pra confiar em uma frase que nos venha desta seara. Em nome de se elegerem são capazes de tudo, menos de fazer escolhas justas.
Um tanto disso é culpa nossa. Nós também somos um bando de lambões e, portanto, é justo que nossos representantes na Seppir também sejam lambões. Quando brigamos tanto entre nós por vaidades bestas não conformamos força política o suficiente para mostrar o quanto podemos ser instrumentos de pressão. A verdade é que somos a maioria da população mas não sabemos operar esta força. Com isso ficamos reféns daqueles que só querem ver números em sua frente, mas não querem ver gente.
O que aconteceu nesta semana é um dos episódios mais vergonhosos da história recente do Movimento Negro brasileiro. Apenas uma semana antes do evento começamos a ser informados que o governo recuaria na posição de lançar o Plano de Combate à Intolerância Religiosa por conta das pressões dos evangélicos e da Cnbb. Mesmo assim mantiveram as passagens das pessoas com o argumento de que queriam "conversar". Não tiveram nem mesmo a dignidade de dizer às pessoas que suas viagens seriam inúteis. Os que lá estiveram presentes saíram com a promessa de que o Plano será lançado mais à frente. Sabemos que não será. Mais à frente se dará uma outra desculpa tão esfarrapada quanto esta. Uma vergonha!
Na boa, eu esperava pelo menos uma demissão. Bonito ia ser o Ministro se demitir. Mas se ele não pode seria legal ver o Alex pedir as contas. Dizer que não está ali para fazer papel de palhaço. Puxa vida!! Esses caras entrariam para a história. "Perco o pescoço mas não perco o juízo", se lembrarão da Marina no futuro. E dessa turma, quem lembrará?
Enfim, nos lembra sempre Stive Biko, estamos por nossa própria conta. Precisamos ser mais autônomos, buscar menos apoio do Estado, gerar menos dependência do governo. Não dever nada a ninguém!
Precisamos educar nosso povo para votar em quem realmente nos represente, nos ensina Makota Valdina, a quem peço a bênção. É isso que precisamos fazer, é deixar para trás o que para trás já ficou e buscar entre nós mesmos a força política e a coragem real para nos representar.
Lutar contra o racismo, lutar contra a intolerância religiosa, lutar contra as forças que comandam este país exige coragem, exige cabeça erguida. Exige a força de um milhão de makotas valdinas. E o que vemos nas proto-lideranças é falta de coragem, falta de brio, como diria minha velha mãe, é uma vontade imensa de agradar aos chefes. E isso não queremos. Negros assim, não são nossos irmãos, diria Solano Trindade.
É triste, é lamentável, é profundamente decepcionante o que aconteceu. Mas é a verdade, tão certa assim.
Um belo dia Matilde Ribeiro concordou com o Palocci que deveria se tirar o fundo do Estatuto. Não foi uma sugestão do Palocci, foi uma exigência. Ela retirou. Palocci está na vala comum da história política brasileira, Matilde caiu para cima, como caem todos os petistas, e o Estatuto virou um trambolho tão sem sentido que nós, do CEN decidimos nos tornar totalmente indiferentes a ele.
O mesmo agora está se dando com relação ao Plano de Combate à Intolerância Religiosa. Desde que não fira os católicos, não ofenda os evangélicos e não crie problemas para Macedo e sua turma, tudo bem, e aí ficarão felizes o presidente, a Dilma e os nossos "representantes" na Seppir.
Eu já não votava nesta senhora antes, agora mesmo que não voto mais. Eu sempre votei em Edson para vereador e votei para o Senado, agora não voto mais. E de resto, francamente, só tenho a lamentar. Lamentar por nós mesmos, mas me envergonhar profundamente por aqueles que nos traem com o argumento de nos proteger.
Tristes dias!!

Marcio Alexandre M. Gualberto
Coordenador Nacional de Política Institucional do
Coletivo de Entidades Negras - CEN - www.cenbrasil.org.br
Editor do site: www.messina.com.br
Editor do blog Palavra Sinistra e da Rede Social Religiosidade Afro-Brasileira
Colunista de Afropress - Agência de Informação Multiétnica
Twitter: http://twitter.com/marciogualberto

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

14 religiosos do Fórum Paranaense das Religiões de Matriz Africana mudaram a rotina da Praça Rui Barbosa no Centro de Curitiba

/br

Ao som de atabaques, palavras de ordem e cantigas ecoaram por várias horas. Faixas e Ojás brancos ornavam as árvores, os pedestres aproximavam-se com um ar de curiosidade, alguns tiravam suas dúvidas sobre o “desrespeito religioso”, outros (as) perguntavam sobre como participar do fórum, mas a maioria, é evidente, mantinha certa distância, pois aqui é Curitiba e não costuma fazer parte da paisagem um grupo de religiosos vestidos de branco com contas no pescoço tocando atabaques no Centro em pleno dia de semana e horário comercial.
A MUDANÇA COMEÇA A ACONTECER.

Márcio Marins
Dom da Terra - CEN/PR
Coordenador de Articulação Política do Fórum Paranaense das Religiõs de Matriz Africana


Dilma adia legalização de terreiros para evitar crise

Plano foi barrado por receio de atritos com Igreja Católica e evangélicos no ano eleitoral

Agência Estado

SÃO PAULO - Disposta a evitar novos atritos com evangélicos e a Igreja Católica em ano eleitoral, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à Presidência, mandou a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial adiar o anúncio do Plano Nacional de Proteção à Liberdade Religiosa. O projeto, que prevê a legalização fundiária dos imóveis ocupados por terreiros de umbanda e candomblé e até o tombamento de casas de culto, seria lançado ontem, mas na última hora o governo segurou a divulgação sob o argumento de que era preciso revisar aspectos jurídicos do texto.

O adiamento ocorre na esteira da polêmica envolvendo o Programa Nacional de Direitos Humanos, que pôs o Palácio do Planalto numa enrascada política, provocando crise dentro e fora do governo. Temas controversos, como descriminação do aborto, união civil de pessoas do mesmo sexo e proibição do uso de símbolos religiosos em repartições públicas, foram alvo de fortes críticas, principalmente por parte da Igreja.

Na avaliação do Planalto, é preciso evitar novos embates que possam criar "ruídos de comunicação" e prejudicar a campanha de Dilma. Desde o ano passado, a ministra tem feito todos os esforços para se aproximar tanto de católicos quanto de evangélicos e já percorreu vários templos religiosos.

"O programa de promoção de políticas públicas para as comunidades tradicionais de terreiro já estava adequado, mas, como é um plano de governo, precisa ser pactuado para não haver constrangimentos", afirmou o ministro-chefe da Secretaria da Igualdade Racial, Edson Santos.

Apesar de dizer que nunca é demais dar "outra passada de olhos" no texto, para maior observância à Constituição e ao Código Penal, Santos não escondeu a decepção com a ordem para suspender o anúncio do plano, que seria feito justamente na véspera do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, comemorado hoje. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Terreiros do Recôncavo serão mapeados pela Sepromi

Embalado pelo Dia Nacional de Combate a Intolerância Religiosa, a Secretaria de Promoção da Igualdade (Sepromi), lançou nesta quinta-feira (21), o projeto de Mapeamento dos Espaços de Religião de Matriz Africana no Território de Identidade do Recôncavo. O evento ocorrido na Biblioteca Municipal da cidade de Cruz das Almas, reuniu prefeitos, secretários e gestores municipais, vereadores e representantes de comunidades de terreiro dos 19 municípios do Território.

Este projeto é realizado a partir dos convênios firmados entre a Sepromi e a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), em parceria com as prefeituras e organizações da sociedade civil dos municípios envolvidos. Segundo o consultor do projeto de Mapeamento, Jocélio Teles Santos, esta é uma experiência pioneira no âmbito estadual, que propõe o levantamento de dados para a criação de políticas públicas direcionadas a estas comunidades. Jocélio, que também coordenou iniciativa semelhante em Salvador, acredita que "este mapeamento também possibilitará uma maior visibilidade para as comunidades e suas demandas nas questões socioeconômica, cultural e ambiental".

Para a secretária de Promoção da Igualdade, Luiza Bairros, com este projeto o Estado poderá trabalhar para atender as demandas especificas, ainda não pontuadas. Desta mesma forma, objetiva-se amenizar os anos de negação e discriminação do Estado para o povo de santo. Na oportunidade, Luiza aproveitou para relembrar, os dez anos da morte de Mãe Gilda, o caso mais conhecido de Intolerância Religiosa no Estado. A yalorixá adoeceu e veio a falecer depois de ter sua foto publicada, como capa do jornal Folha Universal, da Igreja Universal do Reino de Deus, com o título "Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes". A família de Mãe Gilda entrou com ação na justiça, que condenou a Igreja Universal, em agosto de 2009, a pagar R$145,2 mil de indenização.

Raimundo Gilberto de Pinho, Tateto Inkise do Terreiro Cafungê Navilla de Nazaré das Farinhas, diz que "só assim saberemos quantos e quem somos nesta região, para nos organizar e exigir soluções para as necessidades, como a isenção dos impostos. Se outra religião construir um templo, ela tem isenção. Mas se formos construir uma casa, mesmo que seja na favela, temos que pagar imposto?. Ele ainda acrescenta que "A família de Santo é muito grande, assim como a necessidade de respeitabilidade. Seja aos ancestrais, aos mais velhos, a natureza. E isto tem que vir da sociedade, das outras religiões e das autoridades. Precisamos respeito ao nosso espaço, a nossas folhas sagradas, as águas".

METODOLOGIA DO PROJETO

Iniciado em dezembro de 2009, através do edital de seleção de 20 estudantes para desenvolver a pesquisa de campo, o Projeto de Mapeamento deverá ser concluído em 15 meses. Abrangendo os Espaços Religiosos dos Territórios de Identidade do Recôncavo Baiano e do Baixo Sul, os dados coletados serão disponibilizados em uma publicação e na Internet.

No Recôncavo, as entrevistas serão realizadas de fevereiro a agosto, nos municípios de Varzedo, Santo Antônio de Jesus, Muniz Ferreira, Nazaré, Dom Marcedo Costa, Conceição do Almeida, Castro Alves, Sapeaçu, Muritiba, Cruz das Almas, São Felipe, Maragojipe, Saubara, São Felix, Cachoeira, São Francisco do Conde, Santo Amaro, Governador Mangabeira e Cabaceiras de Paraguaçu. As pesquisas coletarão informações sobre origem e história dos espaços; nação a que pertencem; tempo de fundação; trajetória de resistência; perfil das autoridades religiosas; condições físicas e infraestrutura; recursos ambientais, além de levantar subsídios para construção de ações governamentais.

Genilde Cerqueira de Amorim, Mãe Cacho do Terreiro Ilê Ibecê Alaketu Axé Ogum Megege, de Governador Mangabeira, diz "Meu terreiro precisa de vocês, então devemos aproveitar a oportunidade para lutarmos juntos para fazer com que tudo aconteça". De acordo com o prefeito de Cruz das Almas, Orlando Filho, "este é um momento importante para a cultura da região, tendo em vista que o Recôncavo é um território de tradições afro-brasileiras marcantes".

A coordenação do projeto pretende lançar o Mapeamento no Território do Baixo Sul até o final de fevereiro, nas cidades Camamu, Igrapiúna, Pirái do Norte, Gandu, Wenceslau Guimarães, Teolândia, Presidente Tancredo Neves, Valença, Jaguaripe, Aratuípe, Valença, Cairu, Tapeorá, Nilo Peçanha, Ituberá




Assessoria de Comunicação
Secretaria de Promoção da Igualdade
ascom@sepromi.ba.gov.br
(71) 3115-5142 / 3115-5132 / 9983 9721

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

CEN tem nova coordenadora nacional de religiosidade


O Coletivo de Entidades Negras, organização do Movimento Negro que tem entre seus temas (além da juventude, gênero e quilombos) a religiosidade de matriz africana decidiu convidar para coordenar suas atividades neste campo a Yalorixá Jaciara de Oxum, do Ilê Axé Abassá de Ogum. Mãe Jaciara é filhar carnal e herdeira espiritual de Mãe Gilda de Ogum que faleceu em Salvador em decorrência dos ataques feitos por intolerantes à sua religião.
Ao assumir a Coordenação Nacional de Religiosidade do CEN, Mãe Jaciara passa a ter sob sua responsabilidade a organização da II Caminhada Nacional Pela Vida e Liberdade Religiosa, prevista para ocorrer em novembro deste ano em Brasilia; a coordenação da Campanha Quem é de Axé diz que é! que será lançada em março deste ano no Rio de Janeiro e visa impactar o Censo de 2010 e conduzir os diálogos em torno das discussões referentes ao Forum Nacional de Religiosidade de Matriz Africana que foi criado durante a II Conferência Nacional da Igualdade Racial em Brasilia, no ano passado.
Mãe Jaciara, como o grande conjunto da coordenação do CEN é jovem, religiosa e absolutamente comprometida com o candomblé. É pessoa séria, respeitada que tem uma tragetória que vai além de sua triste tragédia pessoal. Mãe Jaciara transformou sua dor em luta e sua luta em defesa intransigente do direito à livre manifestação da fé do povo de matriz africana em nosso país.
Por todos estes predicados, não temos dúvidas em crer que Mãe Jaciara desempenhará excelente trabalho à frente da Coordenação Nacional de Religiosidade, quebrando animosidades, fortalecendo as parcerias, buscando ampliar as bases de nossa atuação institucional.
De nossa parte, como responsáveis pela gestão político-institucional do CEN, damos as boas vindas à Yá Jaciara e desejamos a ela tudo de bom, ao mesmo tempo em que nos colocamos como base de apoio para tudo que for necessário se fazer em prol do CEN e a favor do povo-de-santo.

Axé, Axé e Axé,

Marcio Alexandre M. Gualberto
Coordenador Nacional de Política Institucional do
Coletivo de Entidades Negras - CEN - www.cenbrasil.org.br
Editor do site: www.messina.com.br
Editor do blog Palavra Sinistra e da Rede Social Religiosidade Afro-Brasileira
Colunista de Afropress - Agência de Informação Multiétnica
Twitter: http://twitter.com/marciogualberto

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Nota do CEN sobre o III PNDH


quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Especialistas analisam o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos

Fonte: G1

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Prega-se o racismo, a muralha e a servidão - Hamilton Borges Walê

Sobre vandalismo no Axé Opô Afonjá e o genocídio praticado em Salvador

“Desenvolver o Estado penal para responder às desordens suscitadas pela desregulamentação da economia, pela dessocialização do trabalho assalariado e pela pauperização relativa e absoluta de amplos contingentes do proletariado urbano, aumentando os meios, a amplitude e a intensidade da intervenção do aparelho policial e judiciário”
Loïc Wacqante, As Prisões da Miséria, ZAHAR.

O “Correio da Bahia”, edição de 06 de janeiro de 2010, apresentou, em sua manchete de capa, uma matéria que tratava de uma forte violação ao espaço sagrado do Ilê Axé Opô Afonjá , no São Gonçalo do Retiro.
O Afonjá foi fundado em 1910 por D. Eugenia Ana dos Santos ( Mãe Aninha), notável sacerdotisa, e desde 1976 é comandado com esmero e dignidade pela Honorável Yalorixá Mãe Stella de Oxossi .
As ancestrais do Afonjá, Gantois e Casa Branca são três jovens, como se conta pela “roça” da Federação, que vieram escravizadas para o Brasil, chegaram algemadas, foram encarceradas e tiveram como primeiro contato com esse território hostil os rigores da lei e o poder de policia de um Estado escravista. Em sua bagagem elas trouxeram a força dos orixás e a certeza da luta contra muros, cercas e mentiras. Venceram as tias fundadoras.
A manchete mencionada do “Correio da Bahia” fala de depredação do Terreiro, tráfico de drogas, ameaças aos moradores, invasão de templos sagrados, furtos de objetos litúrgicos etc. Causa indignação a qualquer pessoa, independente de seu pertencimento racial ou religioso.
Muitos intelectuais e sacerdotisas se pronunciam nessa matéria do jornal e em listas da internet pipocam opiniões indignadas, todos em uníssono apresentam sua indignação com o drama vivido pelo Axé Opô Afonjá.
Para ilustrar, o jornal apresentou um box em que registrava a expulsão de outro terreiro na comunidade de Babilônia, no bairro de Tancredo Neves. Segundo a reportagem, a ordem da destruição foi dada por supostos traficantes
Mas cá pra nós!!!
Essa indignação tardia me causou indignação diante de tanta hipocrisia. Todos os dias terreiros são invadidos por policiais, filhos-de-santo são mortos pela repressão policial em nossas comunidades, sem direito aos rituais mortuários exigidos para sua passagem ao outro mundo, pequenos terreiros em bairros populares são vigiados como antro de bandidos. O Oya Onipó Neto chegou a ser demolido pela prefeitura municipal de Salvador e essa turma ficou calada. O líder do CEN precisou fazer greve de fome para chamar atenção do Brasil e essa turma, escondida atrás de distinção social, agora vem a público pedir mais repressão, mais policia nas comunidades e mais muros e cercas e execuções, posto que essa tem sido a prática da Secretaria de Segurança Pública da Bahia nos conflitos em nossas comunidades negras. Eu sei, moro lá.
Vejamos com muita calma, combinemos aqui:
O Axé Opô Afonjá é um oásis no deserto de desgraça das comunidades que o cercam. Bem além da Baixinha de Santo Antônio o inferno parece existir como Dante Alighieri o descreveu. Se não acredita no inferno, passe pelas escadarias do Engenho Velho de Brotas pela madrugada. Terá sorte se não encontrar demônios de uniforme, armas e distintivos do governo da Bahia. Eu sei, moro lá.
Freqüentam o Axé Opô Afonjá autoridades civis e militares, que ostentam o orgulho de serem ministros de Xangô. Ministros, governadores e ex-governadores vão às festas. Primeiras damas e toda sorte de gestores públicos que administram a cidade, intelectuais que estudam a cidade e seus costumes, seus viveres, seus dramas, não podem dizer que não viram o caos se formando, a desgraça cercando os assentamentos, a pobreza circulando entre os carros de luxo.
Vamos combinar!
Tem uma juventude aí que quer explodir um par de torres gêmeas em cada comunidade sem esgoto, sem água potável, asfalto, sem respeito. A cada vez que se lança um novo modelo de carro, que aparece na propaganda da TV, o tênis da hora, a TV de última geração, o celular que tira foto, a sociedade de consumo gera seus efeitos colaterais. Se ostenta riqueza, espere que a faca vem pra dividi-la, de um jeito ou de outro.
O pai do vice-prefeito de Salvador, Edvaldo Brito, era seu Nezinho de Ogun. Nezinho e seus irmãos e irmãs de santo foram perseguidos por policiais no tempo em que candomblé tinha a marca da seletividade penal. A polícia que é convocada para “dar resposta aos orixás” na retro-mencionada reportagem do “Correio da Bahia” foi criada em 1826 para combater o quilombo do Órubu, nome do Quilombo comandado por uma arqueira conhecida como Zeferina ( podia ser de Oxossi ). Depois da destruição foi encontrado nos destroços do quilombo um emblema de Xangô.
O muro que o Axé Opô Afonjá e o movimento social negro precisam erguer é o muro de proteção de nossas comunidades. De autoproteção para não nos sentirmos isolados de nosso povo em matérias de jornal, dar entrevista falando de um “eles” cósmico.
Esses meninos armados, famintos e violentos nos anunciam os efeitos do racismo.
É bom ouvi-los.

Hamilton Borges Walê
Omom Orixá do Ilê Axé Omon Ewa
Campanha Reaja
Quilombo Xis

Especialistas travam debate sobre o polêmico Programa Nacional dos Direitos Humanos



Fonte: G1

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

No Censo de 2010 afirme sua identidade religiosa, afinal, quem é de axé diz que é!






Segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Ibge), apenas 0,3% da população geral do país (525 mil pessoas) se declaram praticantes de religiões de matrizes africanas, sejam elas o candomblé, a umbanda, o omolocô, o tambor de mina, o batuque entre outros elementos que formam o grande mosaico da religiosidade brasileira que se origina no continente africano. É interessante notar, no entanto, que festas como as de Yemonjá, tanto no Rio quanto em Salvador, as caminhadas que a cada ano se ampliam em todo o país, os dizeres e crendices populares, a literatura, o cinema e a tv, entre tantas outras manifestações brasileiras reconhecem nao só a existência da religiosidade de matriz africana como, também, mobilizam milhares, às vezes milhões de pessoas em torno de um festejo, da entrega de oferendas, do vestir-se de branco e do uso de fios-de-contas.

É perceptível que o temor da discriminação, a vergonha por praticar uma religião que é taxada como primitiva ou coisa de "negros e ignorantes" entre outros elementos faz com que milhares de pessoas não assumam sua religiosidade em público, não se orgulhem de sua prática de fé ou, como diz mãe Stella de Oxóssi, "é o caso de pensar se a pessoa tem algum problema, já que tem cargo ou função dentro da casa de santo mas para fora vai dizer que é católica", por exemplo.

Visando resgatar a auto-estima do praticante de religião de matriz africana e dar visibilidade maior ao número de praticantes em todo o país, o Coletivo de Entidades Negras (CEN) lançou na semana do 20 de novembro de 2009, durante a I Caminhada Nacional Pela Vida e Liberdade Religiosa, em Salvador, Bahia, com o apoio de diversas outras organizações sociais do Movimento Negro, a campanha "Quem é de Axé diz que é!

Esta campanha, cujo mote diz "Neste Censo, declare seu amor ao seu Orixá/Diga que é do Santo, diga que é do Gunzu, diga que é do Axé/Pois quem é de Umbanda, quem é de Candomblé/Não pode ter vergonha, tem que dizer que é!", buscará falar ao praticante de cada uma das vertentes religiosas de matriz africana no país, buscará valorizar o fazer religioso, buscará afirmar a identidade religiosa de cada homem, mulher e criança que pratica a religião.

O CEN acredita que esta campanha possibilitará uma alteração substancial nos números do Censo e, ao mesmo tempo, dará elementos para que novas políticas públicas sejam criadas especificamente para o povo-de-santo, uma vez que, havendo uma real impressão sobre a totalidade de praticantes no país, se terão elementos à mão para formular e aplicar estas novas políticas.

Para o CEN, a campanha "Quem é de Axé diz que é!' será um passo importante também para o combate à intolerância religiosa uma vez que ao assumir sua religiosidade, seu praticante, tendo sua auto-estima elevada, adotará cada vez mais os elementos visíveis desta afirmação de identidade e, ao mesmo tempo constrangerá aqueles que fazem da intolerância ou do desrespeito religioso uma ação cotidiana.

Marcio Alexandre M. Gualberto
Coordenador Nacional de Política Institucional do
Coletivo de Entidades Negras - CEN - http://www.cenbrasil.org.br/
Participe dessa Campanha!

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