terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Respeito à natureza

Emiliano José*

Diante da tragédia que envolveu o Sudeste e o Sul, e de modo especialmente trágico a região serrana do Rio de Janeiro, fala-se na surpresa das catástrofes naturais, como se não tivéssemos já alcançado um conhecimento suficiente da dinâmica da natureza para encontrar os caminhos que evitem tantas mortes e tanta destruição. É verdadeiro dizer, nesses episódios, que todos pagam. Mas é inegável que o preço mais alto, em todos os sentidos, em vidas inclusive, é pago pelos mais pobres.

Publicado no jornal A Tarde (31/01/2011)
Sair desse quase círculo vicioso implicará em medidas políticas de profundidade, muito maiores do que as que vêm sendo tomadas até agora, medidas destinadas antes de tudo a encarar o desafio urbano no Brasil de outra forma. As cidades, no Brasil, ao longo dessas décadas de ingresso na industrialização acelerada e na conseqüente urbanização veloz e impiedosa, têm se constituído de acordo muito mais com a lógica da acumulação do capital do que com os interesses das maiorias. O governo Lula, e seguramente agora o governo Dilma seguirá nessa linha, começou a enfrentar o problema da habitação e do saneamento, mas há ainda um longo caminho a percorrer.

Os pobres não podem continuar a ser empurrados para os morros, impiedosamente, ou para a beira dos rios ou riachos, ou para terrenos alagadiços, para encostas deslizantes. Eles não escolhem os riscos, não gostam de morar à beira do precipício. O que ocorre é que normalmente não têm alternativa. Os investimentos imobiliários desenvolvem-se numa dinâmica cega, e desenvolvem-se assim porque não há controle das autoridades municipais, não há planos diretores sérios, e essa dinâmica necessariamente constrange os mais pobres a procurar mais e mais as periferias, independentemente de tais periferias terem ou não condições ambientais, sanitárias e de segurança para recebê-los. O Estatuto das Cidades, um instrumento tão importante para uma convivência urbana civilizada, quase que invariavelmente é ignorado, e quem vive em Salvador sabe do que estou falando.

Para além disso, e o sábio Leonardo Boff tem nos alertado quanto a isso, é absolutamente essencial que qualquer projeto de desenvolvimento, e aqui nos referimos à realidade urbana especialmente, leve em conta que a natureza não pode ser tratada como historicamente vem sendo no Brasil. Creio que nos últimos oito anos começamos a elaborar um novo sentido de cuidados com o meio ambiente, começamos a pensar um modelo de desenvolvimento sustentável.

Mas há uma luta contínua entre uma noção de progresso que encara a natureza de modo simplesmente instrumental, a serviço sempre, usemos o jargão antigo, do desenvolvimento das forças produtivas, pague-se o preço que se pagar, e um outro, que pensa a importância de preservá-la em favor não só dela mesma, mas também do ser humano. E não só da preservação do gênero humano a longo prazo, mas para evitar que a natureza, tão agredida e desrespeitada, se movimente, com sua lógica própria, e cause tantas vítimas, como agora no Brasil.

Está muito certo o nosso Leonardo Boff quando nos ensina, face à catástrofe recente, que o que se impõe agora é escutar a natureza, fazer obras preventivas que respeitem o modo de ser de cada encosta, de cada vale e de cada rio. Não podemos continuar a cultivar uma noção de progresso tão violenta que sempre quer retirar tudo da natureza como se à frente não houvesse conseqüências trágicas.

Assim, toda obra, qualquer que seja, deve levar em conta, e muito mais seriamente, as conseqüências para o meio ambiente. O pensamento produtivista, hegemônico em muitos executivos, que pretende a obra realizada a toque de caixa, sem considerações em relação à natureza, é equivocado, e só pode conduzir a tragédias semelhantes à da região serrana do Rio de Janeiro.

A expansão das cidades, a verticalização, os programas habitacionais, o saneamento, os rios, riachos, as lagoas, as encostas, as áreas verdes dos aglomerados urbanos têm que ser olhados como uma coisa só. O ser humano, para bem viver, terá que se harmonizar novamente com a natureza. Ou continuar a devastação e sofrer as conseqüências.

*Jornalista, escritor e professor.

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