terça-feira, 1 de março de 2011

Afoxés mantêm as tradições de origem africana no Carnaval de Salvador

Franco Caldas Fuchs - Redação CORREIO


Um canto espiritual também ganha as ruas de Salvador em plena ‘festa da carne’, a partir de quinta-feira. Entre a loucura dos trios e blocos, 25 afoxés se apresentam nesse Carnaval trazendo para a avenida o axé do candomblé, matriz desses grupos de música e dança.



Sobram, portanto, opções para quem quiser desfilar ao som do ritmo africano ijexá, produzido pelo toque de agogôs, atabaques e xequerês.
Há afoxés saindo de quinta a terça nos circuitos do Campo Grande e Batatinha, sendo que o grupo Filhos de Gandhy faz além desses o percurso Barra/ Ondina a partir das 15h da segunda de Carnaval.
“Estamos na expectativa de que algumas celebridades participem do desfile. O ex-presidente Lula e o embaixador da Índia prometem vir esse ano”, adianta o presidente do Filhos de Gandhy, Agnaldo Silva, 62 anos.
Participação Agnaldo garante que dá tempo de novos integrantes se juntarem aos 8 mil sócios do Gandhy, como Gilberto Gil, ao custo de R$ 320 pela fantasia azul e branca, acompanhada dos colares e da alfazema.
O convite ao público é também feito por outros afoxés, como o Korin-Efan, onde a fantasia custa R$ 50 ou pode ser trocada por quatro latas de leite em pó. “Muitos desavisados acham que só existe o Gandhy, mas há vários outros grupos que aceitam homens e mulheres, independente da cor, classe ou religião”, diz o presidente da Associação de Afoxés da Bahia, Ednaldo Santana dos Santos, 54, o Nadinho.
No afoxé Filhos do Congo, presidido por ele, novos foliões também podem se somar aos cerca de 600 integrantes do grupo, que, como o Korin-Efan, sai no Campo Grande e no Batatinha. A fantasia custa R$ 90.
A exaltação das raízes do candomblé é um dos principais motes do afoxé, cujo nome, derivado da língua iorubá, significa ‘encantamento’, ‘palavra eficaz’.
TradiçõesMuitas das músicas entoadas durante os percursos, que podem durar até quatro horas, também são cantadas naquele idioma, em saudações aos orixás. Além disso, antes de os grupos ganharem as ruas, seus integrantes costumam fazer um Padê de Exu, ritual em que é pedido licença a essa entidade que governa os caminhos.
Mas além de exaltar aspectos religiosos, os afoxés também mesclam outras tradições brasileiras, a exemplo de como faz o Korin-Efan. “Esse ano, vamos ter novamente a participação do Bumba meu Boi de Francisco do Conde”, conta o presidente Balguete Crisóstomo dos Santos, 77.
De forma semelhante, o Filhos do Congo incorporou a chula e as congadas de Goiás no ano passado. “Hoje, com essas misturas e modificações estéticas, os afoxés estão mais bonitos, assim como há uma profissionalização maior”, opina Nadinho, lembrando como os afoxés também empregam diversas pessoas e promovem ações sociais.
Ele, porém, faz ressalvas com relação à falta de apoio de patrocinadores. “Infelizmente, pelo prefeito ser evangélico, a prefeitura não patrocina os afoxés. E as empresas só apóiam os trios famosos e um afoxé como o Gandhy. Então, a situação seria ainda mais difícil se não fosse o patrocínio do governo do estado”, diz.
GeraçõesA família do percussionista Anderson Dias dos Santos, 30, é prova de que a folia dos afoxés passa de geração a geração. Ele e sua mulher Vivineide, 30, já saíam nos grupos quando jovens e agora vão levar os filhos Anderson Jr,, 9, e Alexandre Vítor, 7, para desfilar pela primeira vez no Filhos do Congo. “A duplinha dinâmica vai sair com a gente, e tocando percussão”, diz o pai coruja.
Integrante de grupos como O Báck, Anderson destaca ainda como o afoxé forma muitos músicos que depois fazem sucesso tocando em blocos e trios elétricos.
“Isso porque você aprende a fazer os vários toques do candomblé, seja ketu, angola ou gêge, e quando o cara entra para um grupo, ele já tem a pegada”, diz Anderson, que aprendeu muito nos terreiros, como filho de santo que é.
Por transitar por vários universos do Carnaval como percussionista, Anderson fala com propriedade sobre a diferença de sair num afoxé ou num trio. “O pagode é aquela coisa elétrica, assim pra frente, e já o afoxé é bom pra você curtir com a sua família, sem confusão. É mais maneiro”.
Depois de quase 40 anos desfilando no Gandhy, o presidente Agnaldo Silva também procura palavras para descrever o que sente ao colocar o seu turbante azul e branco no Carnaval. “Quem sai no Gandhy sente acima de tudo muita paz, que é a mensagem que levamos para avenida. E a nossa saudação, ajaiô, significa justamente isso: força, poder e paz!”.
Afoxés desfilam como Patrimônio Imaterial da BahiaReprimidos desde o século XIX, até serem aceitos lentamente pela sociedade a partir dos anos 70, os afoxés desfilam pela primeira vez nesse Carnaval com o status de Patrimônio Imaterial da Bahia, título recebido no dia 30 de novembro de 2010. “Com isso, os afoxés passam a ter muito mais visibilidade e recebem vários benefícios. Ganham editais, ficam isentos de IPTU e têm mais facilidade para conseguir linhas de crédito”, exemplifica o gerente de pesquisa e legislação do Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia (Ipac), Mateus Torres, 34.


Ele fez parte da coordenação do livro Desfiles de Afoxés, lançado pelo Ipac, que resgata a história centenária dos afoxés, trazendo depoimentos de presidentes de alguns dos grupos mais antigos em atividade, como o Filhos do Congo, originado em 1946, e o Filhos de Gandhy, de 1949. Já os primeiros registros de afoxés remontam a 1895, com o grupo Embaixada Africana e Pândegos da África. “Nessa época, os afoxés eram proibidos pela elite de desfilar no Centro.Então eles saiam dos bairros e iam para áreas como a Barroquinha, transmitindo a linguagem dos terreiros para a sociedade”, conta o presidente da Associação de Afoxés da Bahia, Ednaldo Santos. “Por tudo isso, os afoxés hoje são verdadeiras relíquias vivas”, diz Ednaldo.
Fonte:
http://www.correio24horas.com.br/noticias/detalhes/detalhes-1/artigo/afoxes-mantem-as-tradicoes-de-origem-africana-no-carnaval-de-salvador/

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