quarta-feira, 23 de março de 2011

Luiz Carlos Antero: A cínica ternura do Império

Com uma guerra decretada e sorrisos da Disneylândia, Barack Obama veio ao Brasil, fascinando desprevenidos enquanto poderosos mísseis ceifavam destruição e centenas de vidas na Líbia. Entretanto, qualquer balanço da visita do presidente dos EUA (Estados Unidos da América) envolverá certezas e perplexidades.




Foi uma oportunidade ímpar para o exame próximo da moderna face e efêmera reciclagem do clássico terrorista de Estado conhecido como Tio Sam. Essa inspiração dos astuciosos profissionais marqueteiros na arte de artificialmente derreter e recriar sentimentos e emoções. Ou, no limite entre a ficção científica e uma experiência genética de laboratório, um replicante do clássico Blade Runner, de Ridley Scott, geneticamente programado para viver certo tempo, suficiente para cumprir sua (melancólica) missão na política do Império.


Aqui no Brasil, um negro de semblante sereno, persuasivo, simpático e benevolente – não obstante os séculos de porões, correntes, chibatas e mourões –, vendido e rendido, em todos os seus sentidos, como redentor da democracia e dos oprimidos de todo o mundo. E, no fim, duramente avaliado como um negro de alma branca, exatamente por ser desprovido disso que as religiões costumam chamar de “alma”. Mas que enganaria qualquer caçador de replicantes: em sua memória há lembranças de uma família e até do Rio de Janeiro.


Contou para o Brasil todo que sua mãe assistiu ao filme Orfeu da Conceição, rodado no Rio (em 1959, com direção do francês Marcel Camus), onde ocorreu o fascínio pelos seus protagonistas negros no ambiente de uma favela carioca. Daí ao casamento com a raça e ao nascimento de Barack Obama foi um pulo: ele tornou-se brasileiro, antes de ser criancinha, até na inspiração.


Sinistra criação


Quem poderia associá-lo a uma sinistra criação, a um só tempo romântica e terrificante? Derramou, assim, sorridente, sua midiática presença sobre a credulidade das pessoas no simultâneo ato do cruento sinal verde para a chacina em larga escala na Líbia – sob o glamuroso nome de Odissey Dawn (“alvorada do amanhecer”). Tudo no surreal paradoxo de sua imagem de singelo governante negro, entretanto protegido por uma segurança de guerra – e vomitando guerra. Da iniciativa original de despejar publicados 112 mísseis e dezenas de caças sobre o território líbio, até sua partida, as máquinas letais de guerra e sangue em expansão já alcançavam centenas de vítimas entre mortos e feridos.


Entre as certezas, existe uma que se destaca. Costuma-se ter informações ou critérios quando se recebe alguém – e aqui não se trata de visita doméstica. As nações que buscam a efetiva democracia, interna e externamente, não obstante as consagradas relações universais de amizade entre os povos e ainda que às voltas com as metas e compromissos meramente comerciais, verificam quando o governo do país visitante age ou não em consonância com seu povo, a quais interesses obedece no seu ordenamento interno, se incorpora alguma harmonia entre as aspirações populares e os propósitos dos seus governantes, submetidos a um poder de Estado – que, por sua vez, reúne em sua essência as contradições que subordinam tais interesses e propósitos, hegemonizados por suas classes dominantes.


E, com tudo isso, tratam, nessa mínima avaliação, de acrescentar alguma informação acerca do seu grau de hostilidade pelo mundo. Tal certeza informa que apenas na Disney algum de seus prosaicos personagens se prepararia para receber festivamente um improvável amigo, sinal claro das dúvidas (espera-se que apenas isso, descontando-se os eventuais brindes) persistentes no interior do nosso governo acerca da natureza do imperialismo.


Explícito militarismo


Nesse sentido conceitual, dificilmente uma visita poderia ser tão inócua, frustrante e patética quanto esta – marcada por demonstrações de explícito militarismo aqui e alhures.


Inócua (aos subordinados) porque, em suas relações conosco, os governos dos EUA jamais primaram pela generosidade. Tio Sam teve sempre sua essência articulada à ganância econômica e imperial desenfreada, bem distante dos ingênuos folguedos infantis. E interferiu historicamente no Brasil para atrasar seu desenvolvimento, aumentando o fosso assimétrico entre os dois países, golpeando ou promovendo retrocessos democráticos como em 1964 e interferindo nos processos eleitorais – por último no ano de 2010 – ao lado dos inimigos da liberdade. É desconhecida qualquer contestação dos EUA sobre as notícias dos movimentos do seu embaixador Thomas Shannon, empossado no mesmo ano das eleições, e de um séquito de agentes da CIA localizados em sua embaixada e num balaio de ONGs, durante toda a campanha, empenhados na derrota da vitoriosa e cordial anfitriã.


Nesse capítulo da visita, a política externa independente de Lula (ausente dos festejos) foi um particular alvo da grande mídia porque frustrou a Alca, impedindo uma simbiose no padrão mexicano, diversificou mercados, logrou evitar que o Brasil submergisse abraçado aos EUA na crise internacional de 2008, afirmou a denúncia dos golpistas de Honduras e frustrou a articulação de novos golpes pelos entusiásticos conspiradores da direita na América Latina.


Frustrante (aos incautos) porque “ilustrada” numa entusiástica propaganda prévia da grande mídia, que produziu ilusórias e impossíveis expectativas – inviáveis pela própria natureza exclusivista da estrutura de poder que o fabricou. Nunca estaria à disposição do inócuo e simbólico visitante a flexibilização da rígida e conservadora estrutura de poder nos EUA, que relaciona impenetráveis banqueiros, empresários industriais – no topo aqueles da produção e reprodução bélica e do aço – fazendeiros e toda sorte de poderosos monopólios e oligopólios, trustes e cartéis.


Patética (aos visionários e assemelhados) porque nenhum outro personagem conseguiria ocultar de modo tão atrapalhado as autênticas razões de sua visita ao Brasil: a dura expectativa de esgotamento dos EUA sob os mais diversos aspectos, entre os mais óbvios o ostensivo declínio do império e desgaste de sua face militarista; o inexorável crescimento da influência econômica e política chinesa; a necessidade de conquistar ascendência sobre as riquezas e influência sobre seu antigo “quintal”, a América Latina – hoje em progressiva rebeldia – que sempre se operou pela via do intervencionismo e quarteladas.


Visita da desonra


E mais outras razões articuladas à declinante popularidade de Barack Obama – onde o povo expõe sua rejeição à produção de guerras – numa potência em sérias dificuldades internas e externas. E com um presidente que desce a ladeira em processo de desgaste nas duas instâncias, submetido aos falcões da guerra, sem a maquiagem do ilusionismo eleitoral associado a uma era de paz e bonança para os EUA e para a humanidade.


E, sintomaticamente, nas circunstâncias da agressão à Líbia, ele anuncia que, além de não enviar tropas terrestres, evidentemente que em consequência dos desastres históricos que seguem do Vietnã ao Iraque, pródigos em perdas humanas notadamente entre os jovens, entregará aos “aliados” o comando do teatro de operações – atitude atípica no caso da arrogante mas progressivamente enfraquecida potência imperialista.


Por razões opostas, a grande imprensa dos EUA qualificou as razões da visita de Obama ao Brasil, que considera de modo depreciativo um desimportante país latino-americano, de incompreensíveis. Mas, na linha dessa unanimidade, o jornal Washington Post praticamente declinou que a viagem do presidente, além de controversa, visou “administrar” a eclosão do brutal achaque à Líbia fora do território dos Estados Unidos, revelando que a nata de seu staff (beligerante) para “segurança nacional” integrou a comitiva. Ou seja: Obama, ao desembarcar no Brasil para uma “cordial visita a um país amigo” veio com seu instinto determinado para a guerra.


Dilma não foi eleita para recrudescer saudades de Lula e Celso Amorim. Não há nenhuma honra nessa visita presidencial em seu terceiro mês de governo. O povo brasileiro quer conhecer, em todos os terrenos, os saudáveis avanços nos quais votou. Espera que, em atenção aos fraternais conselhos de Lula, nas dificuldades busque seu caloroso afago.


Algo que, sugere exemplarmente a vida (e a morte) dos Kennedy nos EUA, não está ao alcance ou nas intenções de Barack Obama.

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