sexta-feira, 1 de abril de 2011

Capitão do Exército diz que volta a ser vítima de racismo

Maria Rocha


O capitão Mário Soares volta a afirmar que continua a ser perseguido pelo comando do Exército. O militar baiano, conhecido como capitão Marinho clama pela criação de uma corregedoria do Exército, pois acredita que só assim, as irregularidades praticadas por seus superiores poderão ser fiscalizadas, controladas e apuradas.
Inconformado com o tratamento recebido no 3º Batalhão Logístico do Exército em Bagé, onde ficou preso por uma semana há cerca de dois meses, Mário Soares, continua no Rio Grande do Sul, sem autorização para transferir-se para Salvador cuidar dos pais, com sérios problemas de saúde e proibido de usar os computadores do quartel, segundo ele relata.

Muito angustiado, capitão Marinho conta os dias de tormenta que vem passando no quartel em Bagé, desde quando retornou das férias a principio, negadas pelo Comando da Corporação e conseguidas somente após a intervenção do Ministério Público do Exército.

“Inúmeros são os casos que poderia relatar para ratificar a minha afirmação que há ditadura nos quartéis, entretanto, a fim de ter uma maior legitimidade e também por ter documentos para comprovar, relatarei o meu caso como exemplo de arbitrariedades incessantes praticadas por meu superior. Se tivesse uma Corregedoria à disposição dos militares as irregularidades poderiam ser rechaçadas’, completa o capitão.

Na opinião de Mário Soares, autor do livro “Exército na Segurança Pública: Uma Guerra contra o Povo Brasileiro”; Editora Juruá, a implantação de uma Corregedoria seria de extrema importância para combater a ditadura nos quartéis, onde o subordinado não possui direitos, somente deveres.

“A Corregedoria do Exército, teria como missão fiscalizar, controlar e, principalmente, apurar as irregularidades praticadas por militares, em qualquer nível hierárquico, que chegassem ao conhecimento da Corregedoria através de representações e denúncias feitas por qualquer militar ou por qualquer pessoa que estivesse ciente das arbitrariedades.

O Estado Democrático de Direito considera a importância da opinião pública, reconhece o poder e a representatividade da sociedade civil e tem consciência de que a conduta dos militares não pode ficar desconectada dos anseios da população”, ressalta.

Denúncia do capitão

Após a prisão arbitrária, acompanhada com exclusividade por esta Tribuna, o militar declara que o atual comandante tenta de toda maneira prejudicá-lo.

“Sabendo da minha imperiosa necessidade de retornar a Salvador depois da minha prisão, pois meus pais são velhos e doentes e estavam muito apreensivos querendo me ver, ele negou minhas férias relativas ao ano de 2009. Ele não só indeferiu as minhas férias como me proibiu de sair de Bagé (cerceou meu direito de liberdade)”.

Diante do fato, capitão Marinho entrou com uma representação no Ministério Público Militar pelos indícios de prevaricação e abuso de autoridade.

O militar solicitou ainda, sem sucesso, uma audiência com o General para tratar de assuntos disciplinares. A mais nova proibição feita ao militar, segundo ele, é a de acessar os computadores do quartel.

“Fui proibido de acessar os computadores do quartel, exceto o do subcomandante do Batalhão com autorização e na presença deste. Depois ratificou esta ordem em reunião de oficiais, ou seja, me proibiu diante de todos os oficiais do Batalhão de acessar os computadores do quartel. Todos os militares do Batalhão podem acessar os computadores do quartel, menos eu”, relata.

Indignado com a situação, o militar tentou, novamente, marcar uma audiência com o general, que não o atendeu. Mais uma vez, ele entrou com uma representação no Ministério Público Militar, por indícios de discriminação, perseguição, e descaso com o dinheiro público, visto que fica ocioso durante todo o expediente.

A mais recente punição foi aplicada sob o argumento de que capitão Marinho não cumpriu uma ordem verbal dada pelo ex-comandante, por telefone, no mês de julho do ano passado. “Eu não recebi esta ordem e disse isso a ele, mas ele me puniu.

Parafraseando Chico Buarque: ‘hoje você é quem manda, falou ta falado, não tem discussão’. Chega a ser hilário eu ser punido por não cumpri uma ordem verbal, que não recebi, dada por telefone, oito meses depois do suposto ocorrido, época que o Comandante não me conhecia”, recorda.

Conforme Marinho, o comandante não comprovou que ele havia recebido a ordem, mas mesmo assim ele foi punido. “Não tenho a menor dúvida que se houvesse uma Corregedoria, este comandante já teria sido afastado do Comando há muito tempo, e suas infrações já teriam terminadas.

Ele me entrega por escrito todas as suas ordens arbitrárias. Infelizmente, fica inviabilizado o Exército consegui alcançar sua visão de futuro, colocar em prática os cânones democráticos e granjear a confiança e o apreço da sociedade nacional, pois esta enaltece a liberdade e dignidade da pessoa humana”, enfatiza capitão Mário Soares.

Não é de agora que capitão Marinho denuncia atos racistas e discriminatórios praticados por alguns membros do Exército Brasileiro. Vítima de racismo institucional, o advogado que denunciou a Biblioteca do Exército por ter lançado com dinheiro público o livro “Não Somos Racistas” do jornalista Ali Kamel, que combate as políticas de ações afirmativas em prol da comunidade negra brasileira, anseia por uma transferência para Salvador, para ficar mais próximo dos pais que se encontram com a saúde debilitada.

Episódios racistas e homofóbicos

No Ano Internacional dos Afrodescendentes, segundo resolução aprovada pela Organização das Nações Unidas (ONU) uma série de episódios racistas e homofóbicos vem ocorrendo em várias partes do país. Em pleno carnaval de Salvador ocorreu um fato que repercutiu bastante na Imprensa, quando um empresário em tom pejorativo chamou o cantor Márcio Vitor de preto e favelado.

Recentemente um baiano aprovado no vestibular da Unipampa (RS) revelou ter sido vítima de agressões e racismo praticado por policiais. O jovem Helder Santos, 25 anos, tenta com a ajuda de um advogado, desde o ocorrido, transferência para a Universidade Federal do Recôncavo, próximo a Feira de Santana, sua cidade natal.

O fato mais novo veio a público na noite da última segunda-feira (28) quando o militar e deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) chamou de promiscuidade a possibilidade de um branco se apaixonar por uma mulher negra.

O militar que não cansa de enaltecer a época da Ditadura, muito conhecido por suas declarações reacionárias agrediu em público a cantora baiana Preta Gil, no quadro “O Povo Quer Saber”, do programa da Band “CQC”, exibido na noite da última segunda-feira (28).

“Se seu filho fosse apaixonado por uma negra, o que você faria?”, indagou Preta, que recebeu como resposta: “Ô Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco e meus filhos foram muito bem educados. E não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu”, afirmou.

Na resposta anterior, à pergunta sobre sua posição quanto às cotas raciais nas universidades públicas, Bolsonaro também adotou o tom racista: “Eu não entraria em um avião pilotado por um cotista, e nem aceitaria ser operado por um médico cotista”.

Durante a entrevista, o parlamentar demonstrou ainda ser homofóbico, e elegeu os ex-presidentes militares Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo como exemplos de pessoas “sérias”.

Diante da repercussão do caso, a cantora e atriz Preta Gil, autora da pergunta sobre racismo ao deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), afirmou em seu perfil no Twitter que deverá entrar com processo por danos morais contra o parlamentar: “Fiz a pergunta, e não vi a resposta dele, meu advogado já me ligou não farei somente por mim e pela minha familia que foi ofendida e caluniada por ele, mas também por todos os negros e gays desse país”, postou.

Fonte: http://www.tribunadabahia.com.br/news.php?idAtual=77596

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