sexta-feira, 27 de maio de 2011

Assembleia celebra Dia da África em concorrida sessão especial

Salvador deve sediar as comemorações nacionais pelo Dia da África no próximo ano. O anúncio foi feito ontem pelo deputado Bira Corôa (PT), presidente da Comissão de Promoção da Igualdade da Assembleia Legislativa, durante sessão especial para celebrar a data, 25 de maio. O parlamentar levou a Brasília, no último dia 11, a minuta do protocolo de intenções do governo baiano propondo a transferência dos atos oficiais, mantendo contatos com o governo federal e as embaixadas dos países africanos.

Durante o pronunciamento de encerramento da sessão, Bira trouxe a informação de entendimentos mantidos pelo governador Jaques e empresas aéreas do Brasil e Angola para efetivar a linha aérea Salvador/Luanda. Vôos diretos entre Brasil e África foram reivindicados em diversos pronunciamentos, durante a tarde, a exemplo do que fez o adido da Casa da Nigéria, Ayowumi Ayanwale Olayanju, e o cônsul honorário do Benin na Bahia, Marcelo Sacramento, por exemplo.

Ayowumi lamentou que sejam necessárias 24 horas para chegar ao seu país, quando, se houvesse uma travessia direta, bastariam sete horas. Nos cálculos de Sacramento, por sua vez, uma viagem que seria de apenas quatro horas e meia para o Benin exige atualmente 12 horas até Paris e outras seis horas para Contonou.

HOMENAGEM

Logo na abertura dos trabalhos, Bira anunciou duas quebras de protocolo: ao invés de fazer o discurso de abertura, faria o de encerramento. A outra iniciativa foi antecipar a homenagem, com placa honorífica, a Ebomi Nice de Oyá, do Terreiro da Casa Branca, cuja ação dentro do candomblé tem reconhecimento nacional. Ela foi secretária da Federação Nacional do Culto Afrobrasileiro (Fenacab) e é também yá do Ilê Axé Opô Afonjá, do Ilê Oxumaré, e dos terreiros cariocas Ilê Axé Noson Oxum e Ilê Axé Ogum Alabedé Orun.

Os atabaques soaram, enquanto yás e yalorixás patenteavam seu respeito por Ebomi Nice. Ao ocupar a tribuna, só a emoção falou por ela. Foi com lágrimas e voz embargada que lamentou não "ter mais força nesta hora para agradecer". Havia um discurso pronto, mas ela designou o professor Jaime Sodré para fazer a leitura. Por insistência do especialista em história da cultura negra, ela entoou em seguida um cântico em yorubá.

RITMO

A música deu o tom à sessão. Graça Onasilê foi a primeira, cantando em capela, uma música que trazia na letra a convocação "vamos nos unir, jamais dividir". O adido da Nigéria tocou percussão antes de iniciar o pronunciamento, durante e ao encerrar sua fala. O adido cultural de Angola, José Carlos Lamartine, não só cantou como fez todo o plenário cantar uma saudação a vários países africanos. Ayowumi levantou-se da mesa e deu ritmo com um instrumento de percussão à apresentação improvisada. O deputado Sargento Isidório (PSB) cantou Mama África. No encerramento da sessão, o Grupo Cultural do Colégio Renan Baleeiro apresentou o projeto Boi Corre Beco.

Como a causa negra ainda exige muita luta pela reparação, nem tudo foi alegria. A conselheira da OAB Sílvia Cerqueira falou de sua experiência no Sudão, aonde foi como observadora do conflito em Darfur, e o embaixador de Cabo Verde, Daniel Pereira, reclamou da mídia internacional não apresentar o lado positivo da África, só referir morte, guerra, fome e miséria. O secretário municipal da Reparação, Aílton Ferreira, ocupou a tribuna para conclamar os negros "a ocupar espaço. Nossos irmãos, filhos e netos podem sonhar com todas as possibilidades". Para ele, o momento é de discutir qual o negro ou negra que será eleito governador.

ABDIAS

A morte do ativista social Abdias Nascimento foi lamentada durante a sessão. Um vídeo foi exibido em sua homenagem e o secretário estadual da Justiça, Direitos Humanos e Cidadania, Almiro Sena, fez uma comovente homenagem ao carioca, ao dirigir a ele a elegia feita por Ruy Barbosa a Luiz Gama. O secretário estadual da Promoção da Igualdade, Elias Oliveira, destacou que há um documentário na Bahia feito por Antonio Olívio que deve ser a obra mais extensa apresentando o próprio Abdias falando sobre sua vida e seu trabalho.

O secretário ressaltou ainda que o movimento negro obteve várias conquistas. "Hoje é menos difícil falar em promoção da igualdade", disse, lembrando que o ex-presidente Lula e Wagner criaram instâncias governamentais para tratar do assunto. Além disso, festejou o fato de ter em Almiro Sena um representante do movimento como secretário de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania. "O combate à desigualdade é hoje uma diretriz do governo no PPA", afirmou, destacando ainda o município de Cruz das Almas, onde 50% do secretariado é afrodescendente. Entre os oradores, a professora Ieda Castro anunciou a criação de cadeiras de línguas africanas na Uneb, enquanto Aderbal Caldas defendeu medidas de reparação, lamentando que "os negros são herdeiros de nada que vivem do nada que têm."

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