terça-feira, 31 de maio de 2011

Despedidas para Abdias

Abdias do Nascimento, 97 anos, faleceu na última terça, dia 24 de maio de 2011. Sua marcante presença entre nós brasileiros como ator, professor, escritor, artista plástico, senador da Republica e militante anti-racista foi, sobretudo, pedagógica. Demonstrou-nos com sua corajosa e incansavelmente determinada indignação que a sociedade brasileira é racista e, que, desarvergonhada e permanentemente dissimula este racismo.
Nunca se esquivou de enunciar de forma direta e pública, quer na midia, quer em polêmicos debates que o racismo existe, efetivamente, entre nós. No Senado, quando a maioria dos políticos se calava, destemidamemte insistia na argumentação de que existia uma segregação no Brasil tão marcante quanto a dos Estados Unidos e a da Africa do Sul. Aquela postura contundente – pelos conservadores considerada agressiva e exagerada, mas, principalmente um modo pioneiro e original de enunciar o racismo – é hoje comprovada pelos números anualmente apresentados pelo Relatório da Desigualdade Racial.

Aquele homem que, no final dos anos setenta, chegara do exilio nos Estados Unidos para colaborar na construção do movimento social negro no Brasil, aturdia todos os politicos e mesmo os militantes, implacavelmente pelo tom.

Mas o fato é que Abdias, pode-se dizer, foi o primeiro ativista negro no mundo afro-sulamericano a romper com a forma dissimulada de se fazer presente em um mundo que celebra o embranquecimento e as formas domesticadas de posturas e, por extensão, foi, por isso, o primeiro a não admitir pactos com a cordialidade racial brasileira.

De um lado, ao imprimir na luta anti-racista a continuidade da tradição abolicionista na agenda política da nação, engajava-se em sintonia com as lutas anti-autoritárias do século XX, desde o Estado-Novo ao pós-guerra, nos anos quarenta, à luta contra a ditadura militar e re-democratização do Brasil, nos anos oitenta.

Por outro lado, de modo relevante, ao cooperar com a elaboração de uma escrita criticamente vigorosa para narrar a história contemporanea do Movimento Social Afrobrasileiro.

Abdias foi um privilegiado entre os combatentes da diáspora pois veio, viu e venceu, ao testemunhar o emergir de tudo (ou quase tudo) pelo que lutou como o atual processo de empoderamento de lideranças negras em nosso tempo, por todo o Brasil, nos Estados Unidos, na Europa e por toda a America do Sul.

Certamente, para coroar a trajetória deste vitorioso, falece exatamente depois de inúmeras homenagens na ultima década, como definitivo reconhecimento de sua contribuição. A ultima, talvez uma das mais marcantes, foi aquela prestada pela Associação Brasileira de Imprensa com a criação do prêmio Abdias Nascimento, para prestigiar o trabalho de jornalistas na luta anti-racista.

Desde a sua perspectiva de mundo centrada na cultura Africana, Abdias se afirmou como liderança mundial da diáspora Africana e, por isso, deixa para todos os brasileiros um legado grandioso, a dedicação e profunda estima pela valorização da cultura Africana e Afro-brasileira – para ele, verdadeiras armas do Povo Negro.

Com o afago deste afetivo Ano Afrodescendente, pela primeira vez decretado pela UNESCO, Abdias parte em sua viagem em direção ao Olurum. Sua memória, no entanto, permanecerá e se renovará de forma vibrante, ativa e intensa entre todos nós, num pulsar em nome da liberdade e da superação.

Obrigado meu velho, por seu exemplo e dedicação!

Júlio Tavares

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